Hoje, dai-me um dia assim, pleno de sentidos
Hoje, não quero pensar.
Hoje, quero olhar: os dois azuis infinitos, a corrida das nuvens, o
deus-sol, a beleza dos peixes, os rostos dos meus amigos.
Hoje, quero ouvir: as muitas gargalhadas e as piadas, os gritos
famintos das gaivotas.
Hoje, quero cheirar: o odor da maresia, o puro vento fresco do norte.
Hoje, quero saborear: a água salgada do mar, a delicadeza do peixe
frito, o amargo-doce do vinho.
Hoje, quero sentir: o frio matinal e o calor do meio-dia. O prazer do
esforço.
Hoje, quero dormir no regresso, sentado no banco de trás do barco, a
fruir o bem-estar.
Hoje, quero “um dia em que se
possa não pensar”. *
Com esta disposição…
Com esta disposição, leve como uma brisa, embarquei no "Fosmar". A uma
milha de navegação, um nevoeiro cerrado escondeu-nos do mundo. Com todo o
cuidado, a velocidade moderada, o Cheta e o Óscar puseram olhos de falcão na
água, a fim de não esbarrarem com bóias e eventualmente colidirem com qualquer
objecto flutuante, ou até com uma embarcação. Ouviam-se os roncos mais
diversos, sinais de aproximação de barcos cargueiros em rotas próximas. Por
isso, todo o cuidado era pouco...
Júlio - a maior faneca
Chegámos ao primeiro pesqueiro às 08h00, no Maio, situado a cerca de 8
milhas da Marina. Até às 08h30 saíram 2 fanecas, 1 cabra e 1 sarda, pelo que se
decidiu rumar para o Cais Sul. Aqui, foi só levar com nevoeiro em cima. Que se
passava? Onde andavam os gajos? As condições do estado do mar eram algarvias: velocidade
do vento: 7 nós; rajadas: 6 nós; direcção do vento: noroeste; ondulação: 0.9 m;
período da vaga: 7 s; temperatura do ar: de 20 a 25 º C; nebulosidade: 83%.
A malta não podia pactuar com esta situação negativa e decididamente
foi poisar noutro local do Cais Sul. Abençoada decisão. Às 09h30 a população
barbatanal aderiu em força. Pastavam por ali tribos fanecais, grupos chicharrais
e sardais e amiúde as elites escamosas, como sejam as meninas do choupal e os
meninos Diplodus.
Malheiro - a sua maior choupa
Anotou-se-se a “performance”:
Óscar: maior choupa (1,3
kg, aprox.) e o maior sargo (1 kg, aprox.)
Júlio: maior faneca (600
gr, aprox.)
Borges: um peixe-galo (700
grs, aprox.)
Malheiro: uma ranhosa (20
grs)
Cheta: desta vez não pescou
pedra.
Realce-se, agora a sério, que em termos de quantidade e regularidade,
os cinco formaram pelotão. Pedalaram razoavelmente bem, chegando todos à meta
da 17h00, com o mesmo tempo. No final, cada acelera destes levou chapa 10, nas respectivas arcas.
Cheta - de que se ri ele?
O almoço foi piquenique, só tendo faltado a relva e a sombra de uma árvore, para se poder dormir a sesta. O menu versou frango assado com batatas fritas, a condizer obviamente com este Agosto de férias. O picante “arriba saia” brasileiro condimentou o petisco e acelerou o sumiço do vinho verde branco geladinho, que escorregou bem.
Óscar - maior sargo
Referiu-se atrás o Júlio. Bom pescador e de
trato fácil, ou não se tratasse do filho do Américo.
Notas soltas: O nevoeiro
despediu-se de nós eram umas 14h30. Aliviámos de humidade, de roupa e de
horizontes escondidos, com o astro-rei a bater forte nos nossos rostos, no
afago solar.
Lá se repetiram alguns remoques e algumas das tais piadas. A rirmos,
despedimo-nos cansados, num dia assim, pleno de sentidos, mas já com saudades das próximas poitadas.
Peixe-galo pescado por Luís Borges
Leça da Palmeira, 18 de Agosto
de 2014
Luís M. Borges
*Frase de um poema de Sophia de
Mello Breyner Andresen.
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