Gorazes?
O Cheta, com 2 pargos
Tínhamos debatido a
questão. Uma pesca aos gorazes implicaria um mar de feição; a companhia de
outra embarcação, por uma questão de segurança; uma navegação mais ao largo,
para as 30 milhas; a escolha da profundidade, à volta dos 100 metros e de um
fundo adequada, e por último ter a sorte de encontrar o cardume e fixá-lo com
um bom engodo.
Neste tipo de pesca, ou
se acerta e pescam-se gorazes, às vezes com fartura, ou não se acerta e vem-se
a zero. Repito, a zero….
A equipa
prontificou-se a arriscar, com uma carga de trabalhos para o Cheta, por causa
do engodo e do isco (sardinha).
Chegados à zona, por
volta das 08h30 e escolhido o local (o 14), lá se acoplaram os estralhos
destinados ao goraz (fios mais fortes, anzóis maiores e chumbadas de 200 gr).
Durante a manhã, o
Óscar pescou 3 gorazes de 600 / 700 gr e o Forte 2, de igual tamanho.
O Forte, com um goraz
O Cheta roía-se todo; o
Malheiro, com o seu toco de vassoura e um carreto do séc. 19, emaranhava a cada
afundamento; o Borges só trazia cantarilhos. Em resumo: dois em euforia
piscatória, a lançarem foguetes e fogo-de-artifício e três num funeral. Até
que, o Cheta começa de repente a executar um acto sexual simulado, pois sentiu
um toque forte e começou a puxar pesado e combativo. Desilusão: era um safio.
Contudo, uma hora
depois logrou chegar ao clímax com 2 belos pargos, quase no quilo, cada um
deles. Depois desta quase exultação, lá se foram amontoando umas fanecas
bugalhudas, também uns carapaus de assadeira, mais uns quantos cantarilhos vermelhinhos
e muitos enleios.
- O barco não afila…
- O engodo não resulta…
- Não há peixe…
Sentenças do Cheta,
que neste dia barafustava por tudo e por nada. Entretanto o Óscar, à sua maneira,
enquanto tomava banhos de sol (já parecia uma lagosta suada), ia contando mais
umas histórias…algumas de referência. O papagaio dele, uma ave rara muito
faladora, é que tinha a culpa.
Um cantarilho
Sabem o que foi o
almoço? Outra vez arroz de cabidela! Alguém referiu os frangos do Forte? Não,
só se ouviu a sede do Cheta, o Pão-de-Ló do Areias, que soube a pudim e o
queijo do Borges, que virou açoriano (nada de Guilhermes).
Realmente, em dia de
pesca ao goraz, o que quer dizer em dia de negação, o que salva a festa é a
hora do meio-dia.
Recompostos, atacámos
a tarde, esperançados na sentença sábia do Cheta (às 14h30 o peixe começará a
picar). E assim foi: justamente às 14h30 o Cheta exulta, pois começou a alçar
um peso desmesurado. Todos de olhos postos nele, a expectativa fervia. Era
realmente um peso que vergava a cana e fazia suar o Cheta. Que grande peixe
deveria ser! Até que a revelação tornou graves os rostos e depois os sorrisos
deliciaram as aves que voavam à volta do barco: o Cheta pescou uma enorme pedra
tipo laje.
A tal laje do Cheta
O Cheta ficou com a
fama de arrancar o fundo ao mar. O arranca fundos! Nada lhe escapa! Irra, o
homem é terrível! E ficou chateado…
Leça da Palmeira, 27 de Julho de 2014
Luís M. Borges
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