sexta-feira, 8 de agosto de 2014

9. Memórias do Alto Mar



Gorazes?
 O Cheta, com 2 pargos
Tínhamos debatido a questão. Uma pesca aos gorazes implicaria um mar de feição; a companhia de outra embarcação, por uma questão de segurança; uma navegação mais ao largo, para as 30 milhas; a escolha da profundidade, à volta dos 100 metros e de um fundo adequada, e por último ter a sorte de encontrar o cardume e fixá-lo com um bom engodo.
Neste tipo de pesca, ou se acerta e pescam-se gorazes, às vezes com fartura, ou não se acerta e vem-se a zero. Repito, a zero….
A equipa prontificou-se a arriscar, com uma carga de trabalhos para o Cheta, por causa do engodo e do isco (sardinha).
Chegados à zona, por volta das 08h30 e escolhido o local (o 14), lá se acoplaram os estralhos destinados ao goraz (fios mais fortes, anzóis maiores e chumbadas de 200 gr).
Durante a manhã, o Óscar pescou 3 gorazes de 600 / 700 gr e o Forte 2, de igual tamanho.
 O Forte, com um goraz
O Cheta roía-se todo; o Malheiro, com o seu toco de vassoura e um carreto do séc. 19, emaranhava a cada afundamento; o Borges só trazia cantarilhos. Em resumo: dois em euforia piscatória, a lançarem foguetes e fogo-de-artifício e três num funeral. Até que, o Cheta começa de repente a executar um acto sexual simulado, pois sentiu um toque forte e começou a puxar pesado e combativo. Desilusão: era um safio.
Contudo, uma hora depois logrou chegar ao clímax com 2 belos pargos, quase no quilo, cada um deles. Depois desta quase exultação, lá se foram amontoando umas fanecas bugalhudas, também uns carapaus de assadeira, mais uns quantos cantarilhos vermelhinhos e muitos enleios.
- O barco não afila…
- O engodo não resulta…
- Não há peixe…
Sentenças do Cheta, que neste dia barafustava por tudo e por nada. Entretanto o Óscar, à sua maneira, enquanto tomava banhos de sol (já parecia uma lagosta suada), ia contando mais umas histórias…algumas de referência. O papagaio dele, uma ave rara muito faladora, é que tinha a culpa.

Um cantarilho

Sabem o que foi o almoço? Outra vez arroz de cabidela! Alguém referiu os frangos do Forte? Não, só se ouviu a sede do Cheta, o Pão-de-Ló do Areias, que soube a pudim e o queijo do Borges, que virou açoriano (nada de Guilhermes).
Realmente, em dia de pesca ao goraz, o que quer dizer em dia de negação, o que salva a festa é a hora do meio-dia.
Recompostos, atacámos a tarde, esperançados na sentença sábia do Cheta (às 14h30 o peixe começará a picar). E assim foi: justamente às 14h30 o Cheta exulta, pois começou a alçar um peso desmesurado. Todos de olhos postos nele, a expectativa fervia. Era realmente um peso que vergava a cana e fazia suar o Cheta. Que grande peixe deveria ser! Até que a revelação tornou graves os rostos e depois os sorrisos deliciaram as aves que voavam à volta do barco: o Cheta pescou uma enorme pedra tipo laje. 

A tal laje do Cheta

O Cheta ficou com a fama de arrancar o fundo ao mar. O arranca fundos! Nada lhe escapa! Irra, o homem é terrível! E ficou chateado…
Leça da Palmeira, 27 de Julho de 2014
Luís M. Borges

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