quinta-feira, 28 de agosto de 2014

13. Memórias do Alto Mar


Se Portugal tivesse mar... 

"Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce (da Jerónimo Martins) e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores portugueses." Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco.
Uma ONU do ultracongelado. Eu explico.
Por alto, vi: camarão do Equador, burrié da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão das Fidji, abrótea do Haiti ?
Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a mais de 2.000 quilómetros de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é que é o país dele, se a água é quente, se tem irmãs, etc.
Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece o mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão feliz
na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é desagradável constatar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali chegar que os que vamos fazer durante todo o ano.
Há quem acabe por levar peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu vi perca egípcia em Telheiras.
Fica estranho. Perca egípcia soa a Hércule Poirot e “Morte no Nilo”. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das compras.
Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar.
Deixei para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às claras. Eu não consigo perguntar: "tem polvo marroquino?" Sem olhar à volta a ver se vem lá polícia. "Queria quinhentos de polvo marroquino" - tem de ser dito em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o almoço. Não há nada como umas postinhas de robalo de Chernobyl.


Eu, às vezes penso:
O que não poupávamos se Portugal tivesse mar.
JOÃO QUADROS. “NEGÓCIOS ONLINE”

OBS: As imagens foram inseridas por mim. A primeira imagem tem a referência "Sashimi_s_revenge_by_PapaNinja"
Matosinhos, 29 de Agosto de 2014
Luís M. Borges

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

12. Memórias do Alto Mar



Pescar em terra
O Malheiro quis aconselhar-se na compra de uma cana; o Cheta tinha saudades de comer leitão; o Óscar estava de férias e eu sempre apreciei acompanhar os meus amigos.
Diga-se o seguinte, com aquilo aliás com que toda a gente concorda - a pesca completa-se em terra.
Assim, fomos a duas casas de pesca, uma das quais a PESCÁVADO, onde a panóplia de materiais e a justeza dos preços, acabam por entusiasmar qualquer pescador.
 Consumada a função de reabastecimento por volta das 11h00 em Esposende, o mais risonho era o Malheiro, pois tinha adquirido uma cana “Super- Star”, com a qual pretendia destronar os recordes piscatórios dos seus colegas. No aperitivo, com um Moscatel de Favaios geladinho, decidiu-se que a promessa do leitão tinha de ser cumprida, pelo que o destino foi o “Restaurante Flor do Ave”. Azar! Não só este restaurante como o da Lina e mais outro, encontravam-se encerrados para férias (encerrados? Onde está a crise?), com o Cheta a barafustar e a dizer:
- Leitão hoje? Já me contentava com umas sardinhas fritas!
Acabámos por satisfazer os nossos desejos no “Restaurante Solar dos Leitões”. Pagámos bem, mas a qualidade não desmereceu o preço.

Após finalizado o presigo, a digestão decorreu sob o signo de uma discussão estatutária: as regras de divisão do peixe capturado a bordo pela equipa não estavam a ser cumpridas, pelo que o Malheiro e o Óscar esgotaram as energias consumidas no restaurante, em acesa discussão pacífica.
A minha neutralidade e até o meu desconhecimento das referidas regras, fez crer ao Malheiro, que eu me situo entre Deus e o Diabo. Aqui declaro solenemente, que não conheço nenhum deles nem sou seguidor da teoria de Salomão.





E assim chegámos ao ponto de encontro na Marina de Leça.
Foi um excelente dia de preparação em terra, para quem costuma ir ao mar. Aprende-se sempre muito com quem sabe…

Leça da Palmeira, 27 de Agosto de 2014
Luís M. Borges

domingo, 24 de agosto de 2014

11. Memórias do Alto Mar


FashionOscar
 
1.Elogio do Cheta
Os rojões do Cheta
Vamos lá elogiar desta vez o Cheta. Nos dois últimos capítulos, o Cheta assumiu os papéis de “Arranca-pedras” e de “Pescador-risonho”. Porém, neste dia sabático, o Cheta mudou o Mundo, senão vejamos:
- A maresia passou a cheirar a rojões, a partir do momento em que os ditos foram aquecidos, a fim de suprirem as angústias famélicas dos 5 pescadores alto-marenses;
- O vento parou completamente, quando a tripa enfarinhada surgiu engarfada;
- O Sol abriu-se ainda mais a olhar o redenho e o sangue escuro;
- O mar aquietou-se deveras, a fim de dar condições de estabilidade ao tacho;
- Até as atrevidas gaivotas, se deram ao luxo de se acercar do barco e abordarem um copo de vinho verde.
Não haja dúvidas, aqueles rojões valeram o esquecimento dos maus dias de pesca! Aqui se decreta que o Cheta passa a ser “Cidadão Honorário do Alto Mar”, para que conste, pelos altos e relevantes serviços prestados ao grupo.
2.O dia de pesca
 Marachomba-babosa
O dia de pesca começou com uma poitada no Cais Sul, dada a boa prestação ocorrida na sessão anterior. Contudo, tivemos que passarinhar por vários sítios, até encontrarmos um fundo repleto de jóias escamosas variadas, que começaram a sair em ritmo:
- Belas fanecas, sempre em rodopio ascendente, que esbugalhavam os olhos;
- Choupas robustas de um roxo iridescente, que davam festival de saltos, quando libertadas na caixa;
- Sardas lutadoras e complicativas, que estremeciam em frenesim, depois de desferradas;
- Carapaus com beiçolas frágeis, sempre a caírem à água;
- Sargos de prestígio, que faziam exultarem os autores da captura;
- A arraia-miúda, que chateava, quer fosse ranhosa, cabra, serrano ou boga.
Acabou por ser uma pescaria razoável, num dia francamente fantástico, que só foi estragado por um vento fresco de norte, por volta das 14h30.
3.Curiosidades
 FashionOscar
- Foi pescado, agarrado a uma choupa, um enorme carrapato-do-mar.
- As gaivotas, com uma fome desesperada, chegaram a atacar os peixes dos pescadores, quando estes os içavam da superfície do mar para o barco. Apanhavam o peixe em voo e só largavam o peixe e fugiam quando o pescador com a cana lhes dava uma varada. Nós, apiedados, fornecemos-lhes muito pão, restos dos rojões e o isco sobrante, para as bichinhas saciarem a larica.
- O maior pescador de Bogas-do-mar foi o Óscar.
- O Malheiro, estreou uma cana nova de 4 metros, que teve logo de substituir, dada a sua fraca operacionalidade.
- Foi aprovado o novo “look” do Óscar, denominado “FashionOscar”. Todos apreciaram!
- A dose de piadas às perseguidas redobrou, para deleite dos presentes. As gargalhadas ouviram-se longe…
- Aplicou-se um novo sistema de recolha do lixo a bordo, a fim de não se prejudicar o ambiente marinho. O lixo desaparece por completo. Grande invenção!
Carrapatos-do-mar
Leça da Palmeira, 23 de Agosto de 2014
Luís M. Borges


terça-feira, 19 de agosto de 2014

10. Memórias do Alto Mar


Hoje, dai-me um dia assim, pleno de sentidos

Hoje, não quero pensar.
Hoje, quero olhar: os dois azuis infinitos, a corrida das nuvens, o deus-sol, a beleza dos peixes, os rostos dos meus amigos.
Hoje, quero ouvir: as muitas gargalhadas e as piadas, os gritos famintos das gaivotas.
Hoje, quero cheirar: o odor da maresia, o puro vento fresco do norte.
Hoje, quero saborear: a água salgada do mar, a delicadeza do peixe frito, o amargo-doce do vinho.
Hoje, quero sentir: o frio matinal e o calor do meio-dia. O prazer do esforço.
Hoje, quero dormir no regresso, sentado no banco de trás do barco, a fruir o bem-estar.
Hoje, quero um dia em que se possa não pensar”. *
Com esta disposição…
Com esta disposição, leve como uma brisa, embarquei no "Fosmar". A uma milha de navegação, um nevoeiro cerrado escondeu-nos do mundo. Com todo o cuidado, a velocidade moderada, o Cheta e o Óscar puseram olhos de falcão na água, a fim de não esbarrarem com bóias e eventualmente colidirem com qualquer objecto flutuante, ou até com uma embarcação. Ouviam-se os roncos mais diversos, sinais de aproximação de barcos cargueiros em rotas próximas. Por isso, todo o cuidado era pouco...
Júlio - a maior faneca
Chegámos ao primeiro pesqueiro às 08h00, no Maio, situado a cerca de 8 milhas da Marina. Até às 08h30 saíram 2 fanecas, 1 cabra e 1 sarda, pelo que se decidiu rumar para o Cais Sul. Aqui, foi só levar com nevoeiro em cima. Que se passava? Onde andavam os gajos? As condições do estado do mar eram algarvias: velocidade do vento: 7 nós; rajadas: 6 nós; direcção do vento: noroeste; ondulação: 0.9 m; período da vaga: 7 s; temperatura do ar: de 20 a 25 º C; nebulosidade: 83%.
A malta não podia pactuar com esta situação negativa e decididamente foi poisar noutro local do Cais Sul. Abençoada decisão. Às 09h30 a população barbatanal aderiu em força. Pastavam por ali tribos fanecais, grupos chicharrais e sardais e amiúde as elites escamosas, como sejam as meninas do choupal e os meninos Diplodus.
Malheiro - a sua maior choupa

Anotou-se-se a “performance”:
Óscar: maior choupa (1,3 kg, aprox.) e o maior sargo (1 kg, aprox.)
Júlio: maior faneca (600 gr, aprox.)
Borges: um peixe-galo (700 grs, aprox.)
Malheiro: uma ranhosa (20 grs)
Cheta: desta vez não pescou pedra.
Realce-se, agora a sério, que em termos de quantidade e regularidade, os cinco formaram pelotão. Pedalaram razoavelmente bem, chegando todos à meta da 17h00, com o mesmo tempo. No final, cada acelera destes levou  chapa 10, nas respectivas arcas.
 Cheta - de que se ri ele?

O almoço foi piquenique, só tendo faltado a relva e a sombra de uma árvore, para se poder dormir a sesta. O menu versou frango assado com batatas fritas, a condizer obviamente com este Agosto de férias. O picante “arriba saia” brasileiro condimentou o petisco e acelerou o sumiço do vinho verde branco geladinho, que escorregou bem. 

 Óscar - maior sargo
Referiu-se atrás o Júlio. Bom pescador e de trato fácil, ou não se tratasse do filho do Américo.
Notas soltas: O nevoeiro despediu-se de nós eram umas 14h30. Aliviámos de humidade, de roupa e de horizontes escondidos, com o astro-rei a bater forte nos nossos rostos, no afago solar.
Lá se repetiram alguns remoques e algumas das tais piadas. A rirmos, despedimo-nos cansados, num dia assim, pleno de sentidos, mas já com saudades das próximas poitadas.
Peixe-galo pescado por Luís Borges

Leça da Palmeira, 18 de Agosto de 2014
Luís M. Borges

*Frase de um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen.