segunda-feira, 27 de outubro de 2014

30. Memórias do Alto Mar


AS "PIRRUAS"



Calhou-nos um dia daqueles! A suavidade surpreendeu-nos, tal a sua evidência. Vento, ondulação, temperatura e sol conjugaram-se e ofereceram-nos um dia de condições paradisíacas.
Porém…estas condições ficaram por aqui. Os deuses não tiveram asas para voar mais alto.
Estivemos a pescar na zona do “Valongo”, primeiro no 04 e depois no 00. A corrente era fortíssima, a ponto de terem sido utilizadas chumbeiras de 400 gr, quando habitualmente se aplicam as de 150/180 gr. O resultado foi catastrófico, pois os aparelhos embicavam e os ensarilhamentos eram constantes, aos 3 e aos 4 em simultâneo. Muito tempo se passou a fazer “renda”!
- Pirruas, só pirruas…



Comigo, pirruei aí uma trintena de vezes. Numa delas acabei por ajudar a partir a ponteira da cana do Forte e ter na embarcação 3 chateamentos: o meu, o do Forte e também o do Cheta. O Malheiro e o Óscar dominaram em beleza o incómodo das pirruas, considerando normal a situação, embora de vez em quando acusassem o parceiro. Tive inclusive um desabafo inspirado:
- Atiro-me ao mar, vou a nada para Matosinhos…Assim não pesco, nem incomodo...Irra!
Com estas anomalias pirruais e com a malta a pescar desde as 08h30, às 11h00 tínhamos apenas meia caixa de peixe, pelo que o ferro foi alado. Rumou-se para o lugar 00.
Mas antes, já tinha havido discussão: por causa dos coletes de salvamento.
- Este é o meu…não, este é o teu…onde está o meu? Como se põe esta beldroega? Que chatice…Que enchumaceira! Com posso pescar assim?


É que a Polícia Marítima andava vigilante e certamente se dispunha e muito bem, a visitar-nos. Aliás, até aconteceu, não a nós, mas a outra embarcação.
Assim, todos bonitos e enfeitados, lá aceitámos a incomodidade. Dura lex…
Em resumo: dia maravilhoso, coletes a estorvar, pirruas a enfadar. Dava era vontade de um gajo se atirar ao mar…valeram os colegas que não deixaram! Amigos, grandes amigos…
A espécie que mais saiu foi o carapau. Que senhores de carapaus. Quase 50 cm. Eram carapaus para terem 10 anos de idade. Mais uns sargalhões e uma meia dúzia de cavalas, de serranos, de fanecas e de “ferraris”. Foi esta fauna marinha que decidiu anzolar-se, por entre o incómodo das pirruas, com o silêncio dos aborrecidos e às vezes a exaltação dos emotivos. 



Entretanto, neste parlamento algo irritado, o Malheiro decidiu cozinhar. Grande expectativa, pois o Malheiro não informou ninguém do tipo de menu que iria apresentar. Guardou até um férreo segredo, pois esperava fazer um brilharete, surpreender positivamente a malta. Tal não se verificou – saiu um triste, descolorido e mal apaladado arroz de marisco. Consequências: o Óscar recusou-se…pelo que limpou 3 latas de atum; eu, foi de prato pequeno; o Forte e o Cheta fizeram o frete e o Malheiro perdeu o apetite com o desgosto. Derramou a sua incredulidade face ao fracasso, em mais um copo de verde. No final brindei com cálice, à Cristo!

Encerrámos às 17h00, com a pescaria espelhada nos olhos. Afora as pirruas, poderia ter sido uma daquelas pescarias.
Contudo, tenho de fazer o “mea culpa”, porque me senti culpado. Acho que aconteceram mais pirruas do que deviam, porque fui eu o causador. Essencialmente. Primeiro, não gosto de pescar com chumbadas mais pesadas que 150/180 gr; segundo, invado os lugares do Cheta e do Malheiro e ainda faço incursões nos do Óscar e do Forte; terceiro, as pirruas são quase sempre desfeitas, com enorme paciência e desvelo, pelos meus outros companheiros; quarto, confio na sorte, pois acho que com jeitinho saco os peixes, não me importando que sejam os outros a despirruarem; quinto, fico chateadíssimo, faço um teatrozito e com tal desfaçatez, julgo que os meus companheiros me desculpam; sexto, porque sou do piorio, fico contente quando eles deixam os pesqueiros livres, porque pirruaram, e então eu pesco os peixes das zonas deles, descansadinho e sem adversários. Isto não se faz e nem sequer se deve pensar.
Não haja dúvida: fui o carrasco do dia – mais de 30 pirruadas e ainda uma ponteira partida!
Foi demais!
Leça da Palmeira, 25 de Outubro de 2014
Luís M. Borges

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