"Viúvas"
Há subtilezas que merecem ser premiadas. O Adérito insitiu em pescar
dobradas, vulgarmente apelidadas no Algarve de viúvas. Horinha certa: maré
pequena e a subir; isco de pão velho; local a 2 passos. O calor fazia-se, o
vento não.
Na Somec, um cardume de tainhas a bulir à superfície da água. Uma
nuvem compacta. Por baixo deste cardume, resguardadas da vista, nadavam as
espertas das viúvas. Isto possibilitava-lhes poderem comer em perfeita
segurança. Mas nós conhecíamos esta estratégia e como também somos seres
dotados de alguma esperteza, lançámos o engodo e os iscos para o meio do
cardume das tainhas.
As tainhas entraram em competição alimentar, provocando
inevitavelmente a atenção das viúvas, que acabaram por aderir ao festim. No
frenesim, tainhas e viúvas terminaram por se deixar enganar, engolindo um ou
outro pequeno pedaço de pão iscado no anzol.
Outra estratégia destes inteligentes peixes tem a ver com a
profundidade a que funcionam. As mais pequenas mais acima, as médias no meio e
as maiores no fundo. É uma espécie de hierarquia de segurança, em que prevalece
a idade.
Gaijas lindas, estas viúvas, prateadas e vigorosas.
Algumas das maiores viúvas foram embaldadas (as necessárias e suficientes
para o almoço) e as tainhas libertadas.
A técnica de pesca à viúva tem de ser ultra em tudo. Quero dizer, tão
natural como sorrir. Nada de anzóis grandes, fios grossos e bóias enormes. Nem
pensar. Tudo para a fineza, senhora marquesa, caso contrário até se ouvem as
viuvinhas a rir dos piscarretas. Este peixe é muito cauteloso, demonstra
astúcia e vê com óculos, pois está dotado de uma excelente visão. É um
predador, dotado de rapidez e de força. Quando preso não dá tréguas. Por causa
da sua boca protráctil, esgaça muitas vezes a estrutura bocal (à semelhança do
carapau), pelo que escapa com frequência. Estas características atraem o bom
pescador.
A sua carne não desmerece, embora os ilhéus faroleiros a ignorem e até
a desprezem. Dizem, que a viúva não é suculenta como o sargo. Eu gosto, é
diferente. Imaginem, como o binómio pesca/comida acaba por se revelar uma
mistura fascinante! Temos sempre à disposição as nossas viúvas, quando os
sargos desistem, para que os pratos fiquem bem guarnecidos.
Ilha do Farol, 2014
Luís M. Borges
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