Dia de mal-estar
Dia cinzentão, com o mar a ouvir-se num bater cadenciado. Soava um
vento leste fresco. Entrámos no mar aberto com a vaga a lamber o barco e a
poalha a humedecer as nossas roupas. Encolhemo-nos na cabina, enquanto o Óscar
e o Cheta rumavam para o Cais Sul. De vez em quando um pulo e um baque da
embarcação faziam-nos saltar dos assentos.
Quando apoitámos não se viam gaivotas. Interpretei esta ausência como
um mau sinal, que depressa se confirmou, pois as ponteiras das canas
permaneciam imóveis. Eu gosto de as ver a agitarem-se, nervosas, a voarem à
volta do barco. Até às 09h00 contaram-se 5 choupas, 6 fanecas e 5 carapaus
pequenos.
- É a melhor coisa a seguir a nada – dizia o Cheta.
Perante esta situação era necessário uma certa aceitação fatalista e a
resposta foi o silêncio. Um estranho silêncio por parte dos 5 pescadores, que
me impressionou. Calados, a olharem com nostalgia as ponteiras das respectivas
canas, à espera dos sinais de toque do peixe, que deveria aceitar com avidez os
iscos, que lhes estavam a ser oferecidos. E patavina.
O Óscar habitualmente tão expansivo; o Cheta tão alegre; O Malheiro
sempre irónico; o Américo mais que dinâmico e eu sempre tão bem disposto – hoje
e ali estavam que nem múmias paralíticas, num velório, como dizia o outro.
Comportamento invulgar.
A somar a este barulhento silêncio, o Américo sentiu-se mal da tripa,
pelo que depois de um agachamento na proa do barco, baixou à enfermaria para um
suave repouso. Porém, aconteceu-me o mesmo. Tive igualmente, em situação de aperto,
de me acocorar em esvaziamento no mesmo local. Todos se escangalharam a rir…foi
um cortar da melancolia. Ainda bem.
Já a minha esposa me tinha alertado:
- Então tu andas mal por cima (tosse final de uma constipação) e
também por baixo (um problema intestinal) e mesmo assim vais à pesca? Tinha razão,
mas ela sempre se esquece que a pesca afecta a mente e as emoções do homem.
Decidimos então aproveitar este interregno de boa disposição e também
alegrar o mar, apelar à presença de um sol envergonhado, derrotar aquela
negrura que nos asfixiava, pelo que tocou a sineta.
- Está na hora do almoço, saia a tripalhada para aquecer e os pratos e
os copos.
Foi assim que se compôs um pouco a situação, com o verde a virar nos
copos e o feijão a enrolar na língua.
Terminados, ouviu-se então a voz:
- Vou baixar…o engodo. Às duas e meia o peixe vai começar a comer! –
Quem foi que disse isto? Adivinhem…
Em boa verdade, foi mesmo assim. Durante uma hora caíram uma série de
sargos, choupas, carapaus, cavalas, fanecas, um polvo e uma espécie invulgar
nestas paragens, uma palmeta. Contudo, quando tudo estava a ir tão bem, eis que
se instalou um vento mais forte e os toques terminaram abruptamente.
- Porca miséria!
- Vamos mudar para o Maio. Lá, as fanecas são a monte. Temos de nos
safar com elas…
O Óscar rumou para o tal sítio onde residiam as fanecas. E acertou. Assim
se compuseram dois cabazes, pois as ditas cujas eram grandonas e dançavam em
rodopio aos pares. Mas também foi questão que durou uma horita. A insistência
fanecal acabou igualmente de repente. Eram umas 16h00. Por uma questão de
atitude, renunciámos.
- Canas desmontadas e abre para a Marina – Óscar dixit.
- Muito bem. Fogo à peça - Tenho a mania de mandar bojardas.
Já na Marina, um dos trabalhos a que demos mãos, foi o descascar de 10
kg de amêijoa. Habitualmente gastamos 20 kg em cada pescaria. Imaginem o que
foi hoje a comedoria dos barbatanas. Será que os peixes estavam tão mal
dispostos como o Américo e o Borges? Ou tão tristes ou abatidos como o Cheta e
o Malheiro? Ou tão indiferentes como o Óscar? Ou tão ausentes como o Forte? Sei
lá? Estamos infestados de ignorância!
Há dias de mal-estar! Temos de os aceitar como uma inevitabilidade.
Marina de Leça, 04 de Outubro
de 2014
Luís M. Borges
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