segunda-feira, 6 de outubro de 2014

28. Memórias do Alto Mar



Dia de mal-estar

Dia cinzentão, com o mar a ouvir-se num bater cadenciado. Soava um vento leste fresco. Entrámos no mar aberto com a vaga a lamber o barco e a poalha a humedecer as nossas roupas. Encolhemo-nos na cabina, enquanto o Óscar e o Cheta rumavam para o Cais Sul. De vez em quando um pulo e um baque da embarcação faziam-nos saltar dos assentos.
Quando apoitámos não se viam gaivotas. Interpretei esta ausência como um mau sinal, que depressa se confirmou, pois as ponteiras das canas permaneciam imóveis. Eu gosto de as ver a agitarem-se, nervosas, a voarem à volta do barco. Até às 09h00 contaram-se 5 choupas, 6 fanecas e 5 carapaus pequenos.
- É a melhor coisa a seguir a nada – dizia o Cheta.

Perante esta situação era necessário uma certa aceitação fatalista e a resposta foi o silêncio. Um estranho silêncio por parte dos 5 pescadores, que me impressionou. Calados, a olharem com nostalgia as ponteiras das respectivas canas, à espera dos sinais de toque do peixe, que deveria aceitar com avidez os iscos, que lhes estavam a ser oferecidos. E patavina.
O Óscar habitualmente tão expansivo; o Cheta tão alegre; O Malheiro sempre irónico; o Américo mais que dinâmico e eu sempre tão bem disposto – hoje e ali estavam que nem múmias paralíticas, num velório, como dizia o outro. Comportamento invulgar.

A somar a este barulhento silêncio, o Américo sentiu-se mal da tripa, pelo que depois de um agachamento na proa do barco, baixou à enfermaria para um suave repouso. Porém, aconteceu-me o mesmo. Tive igualmente, em situação de aperto, de me acocorar em esvaziamento no mesmo local. Todos se escangalharam a rir…foi um cortar da melancolia. Ainda bem.
Já a minha esposa me tinha alertado:
- Então tu andas mal por cima (tosse final de uma constipação) e também por baixo (um problema intestinal) e mesmo assim vais à pesca? Tinha razão, mas ela sempre se esquece que a pesca afecta a mente e as emoções do homem.

Decidimos então aproveitar este interregno de boa disposição e também alegrar o mar, apelar à presença de um sol envergonhado, derrotar aquela negrura que nos asfixiava, pelo que tocou a sineta.
- Está na hora do almoço, saia a tripalhada para aquecer e os pratos e os copos.
Foi assim que se compôs um pouco a situação, com o verde a virar nos copos e o feijão a enrolar na língua.
Terminados, ouviu-se então a voz:
- Vou baixar…o engodo. Às duas e meia o peixe vai começar a comer! – Quem foi que disse isto? Adivinhem…

Em boa verdade, foi mesmo assim. Durante uma hora caíram uma série de sargos, choupas, carapaus, cavalas, fanecas, um polvo e uma espécie invulgar nestas paragens, uma palmeta. Contudo, quando tudo estava a ir tão bem, eis que se instalou um vento mais forte e os toques terminaram abruptamente.
- Porca miséria!
- Vamos mudar para o Maio. Lá, as fanecas são a monte. Temos de nos safar com elas…
O Óscar rumou para o tal sítio onde residiam as fanecas. E acertou. Assim se compuseram dois cabazes, pois as ditas cujas eram grandonas e dançavam em rodopio aos pares. Mas também foi questão que durou uma horita. A insistência fanecal acabou igualmente de repente. Eram umas 16h00. Por uma questão de atitude, renunciámos.
- Canas desmontadas e abre para a Marina – Óscar dixit.
- Muito bem. Fogo à peça - Tenho a mania de mandar bojardas.


Já na Marina, um dos trabalhos a que demos mãos, foi o descascar de 10 kg de amêijoa. Habitualmente gastamos 20 kg em cada pescaria. Imaginem o que foi hoje a comedoria dos barbatanas. Será que os peixes estavam tão mal dispostos como o Américo e o Borges? Ou tão tristes ou abatidos como o Cheta e o Malheiro? Ou tão indiferentes como o Óscar? Ou tão ausentes como o Forte? Sei lá? Estamos infestados de ignorância!
Há dias de mal-estar! Temos de os aceitar como uma inevitabilidade.
Marina de Leça, 04 de Outubro de 2014
Luís M. Borges

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