SARGOS
O que é um sargo?
É um peixe muito procurado pelos pescadores lúdicos. Na Ilha do Farol,
a pesca ao sargo assume distinções precisas, quanto à forma como se pesca: à
bóia e ao fundo. São estas as técnicas mais utilizadas por um batalhão de noctívagos,
que chegam ao Farol no último barco, passam a noite e a pescar no molhe e
regressam no primeiro barco da manhã.
Nós, de férias, bem como alguns residentes, temos o privilégio de ter
casa na Ilha e pescarmos a qualquer momento. Há condicionantes, que convém ter
em atenção, pois fazem a diferença. Um deles é a maré, que para ambas as
técnicas importa que seja o mais fraca possível, pescando 2 horas antes e 2
horas depois da preia-mar.
Outro factor importante prende-se com o poente e o nascente, momentos
diria obrigatórios para a pesca de qualquer espécie.
Por último, dezenas de outros itens, que capacitam o pescador a
conseguir excelentes pescarias, como sejam o tipo de material (canas, carretos,
fios, anzóis, iscos, bóias, etc), a experiência do próprio pescador, assim como
as nuances de vida dos sargos, do estado do tempo e do mar e obviamente contar
com alguma sorte.
De referir, que existem várias espécies de sargos, algumas delas
dominantes na Ilha, tais como o sargo-comum, o sargo-safia e o sargo-bicudo. As
restantes espécies aparecem episodicamente.
Pescar nos Hangares
Ao sairmos de casa aquele perfume da Ilha saudou-nos e envolveu-nos. O
sueste não passava despercebido. O desabar da ondulação a cair na praia,
ouvia-se em batimento forte e contínuo do lado do mar.
Sobre a areia dura da ria caminhámos meia hora, até chegarmos ao cais
dos Hangares. Mal chegados, lançámos imediatamente os nossos aparelhos para a
ria. O Adérito, afeito a este tipo de pesca, engatou imediatamente um bom
sargo, dando continuidade durante uma hora a uma pesca contínua, enquanto nós
(eu e o Barbosa) íamos fazendo o que podíamos, olhando tristemente para as
choupinhas sem medida ou para os “cagalhões” de baleia, que os anzóis traziam.
No princípio não percebi qual a razão da tal preferência por parte dos
peixes. Acendeu-se-me então uma luz: tenso de 2 braças, fio 0,20, anzol pequeno
nº 6 Chinu, isco bem preso (caso fosse camarão e se coreana, esta presa pela
parte dianteira – 2 cm), arrastamento ligeiro da chumbada (50 gr) na areia,
lançamentos a uma distância mais precisa (nem muito longe, nem muito perto).
Assim que apliquei este conjunto de procedimentos conseguimos pescar
com eficácia, eu e o Barbosa.
Lembrei-me, que o Adérito já nos tinha informado e em pormenor, das medidas
a tomar para se obter êxito a pescar estes danadinhos dos Hangares. No fundo,
isto é a pesca a funcionar correctamente: quando mais fineza, melhor; quanto
mais precisão, melhor; quanto mais adequação em termos de iscos, melhor e por aí
adiante na estrada do melhor, que leva à eficiência. Há quem diga que já está
tudo inventado! Processos antigos, muito velhos... Eu tinha-me esquecido da
base, da “basesinha”, como diria o nosso Eça de Queirós.
Nós agora, até temos mais uma vantagem, que os antigos não possuíam:
novos e espectaculares materiais de pesca. Mas, atenção: nunca esquecer os
velhos, sólidos e eficazes procedimentos antigos, que resultaram num saber
acumulado de séculos. Temos tendência a confundir tecnologia com sabedoria. Ai
de nós se persistimos nesta confusão. No tempo actual, a tecnologia reforça a
razão da pesca.
Fizemos uma cabazada, no que aos sargos diz respeito, pelo que a areia
dura da ria mais marcada ficou. Fomos mais pesados.
Pescar durante o levante
O levante instalou-se. Corria um vento sueste fraco e o mar estava a
pôr-se a jeito. Os peixes não comiam na ria. No dizer do Nascimento – a ria
está seca! Esta febre de peixes coloca o coração no ponto zero. Na ria, agora,
Deus não estava. Mudou de aquário, para o mar e não era a hora de o
apedrejar…embora reconheça que um dia na Ilha sem pescar seja uma eternidade!
Os peixes saem mesmo da ria. Debandam para o mar. Vão posicionar-se
favoravelmente, no sentido de aproveitarem as condições que o levante lhes irá
proporcionar. Haverá comida em abundância, eles sabem, por experiência e por
pré - programação genética. Vão fartar-se de comer.
O levante no mar algarvio é violento e simultaneamente um espectáculo
digno de se vivenciar. Até onde a vista alcança, o mar desdobra-se em ondas
consecutivas. Altas e ameaçadoras, a fazerem perder o folego. Na costa, o mar
encrespa, arrancando com violência das rochas e da areia, os caranguejos, o
mexilhão e milhares de pequenos peixes apanhados na desorientação. Revolve a
areia, desaloja vermes e bivalves, que são depositados no molhe através das
ondas. Às vezes o molhe fica juncado destes bivalves e as gaivotas aproveitam o
maná. Na água espumosa e revolta, os peixes afadigam-se na recolha e os
pescadores aproveitam esta tendência dos peixes, com os anzóis bem iscados.
Concretamente, o levante acaba por aproveitar a todos, excepto aos
pequenos e desprotegidos seres. Como sempre faz a natureza.
Ali, ao pé dos desenhos a preto, lançámos bóias pesadas (20 gr) e foi
um êxtase de sargos grandes. O mar, violento, não gostou que lhe roubássemos os
seus filhos dilectos. Admoestou-nos com uma molha das grandes, já no final da
pescaria.
Ilha do Farol, Setembro 2014
Luís M. Borges
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