segunda-feira, 13 de outubro de 2014

29. Memórias do Alto Mar



O GALO DOURADO

Toda a santa semana decorreu sob o signo do galo dourado. Trocistas, os 4 amigos do forte até que foram complacentes: lá fizeram o favor ao Forte de escolherem o galo e até houve unanimidade quanto ao modo de o preparar. A cabidela, finalizada no barco pelo Chefe Gourmet Óscar, trouxe imensas benfeitorias ao grupo, a saber:
- O Cheta não quis arroz, só carne;
- O Borges solicitou uma pata e uma asa;
- O Forte a febra do peito;
- O Malheiro quis a eito;
- O Óscar exigiu as duas coxinhas (quem diria?).
Já nos digestivos, manteve-se o romance de renúncia do whisky americano, substituído e bem por aguardente duriense da boa.
Às 14h30 o Cheta mandou o peixe picar. A sargalhada graúda obedece-lhe. Começo a ficar baralhado com esta situação - Até me dão ouras!


Mas, reportando direitinho e correcto este dia de pesca bisonho (o tempo ameaçava alterações do estado do mar), a crónica escreve-se em frases curtas, ao som do coro de “Nossa Senhora da Agonia”. Em quatro mudanças, os sargalhões e as chouponas ativeram-se ao seu destino, em doses de meia dúzia a cada contribuinte. Depois, acabavam por parar, de repente. Desapareciam do pesqueiro? Recusavam-se a comer? Algo os assustou?
Deu-me a ideia, que pequenos grupos adultos destas espécies se deslocavam em processo de migração. Comiam, alguns eram pescados, mas o grupo continuava a deslocar-se. Não paravam, não se fixavam no pesqueiro.
Surgiram 2 teorias: a do Borges, que defendeu a deslocação rápida dos cardumes referidos em busca de alimento fácil para a costa.

Aproximando-se o Inverno e tendo necessidade de acumular energia rapidamente, comer, comer o mais possível, tonava-se uma exigência. No Outono, com a junção de correntes de água quente (a água estava a 20 º C) e fria, as cadeias alimentares aumentam a todos os níveis no oceano, pelo que os peixes acabam por alterar os seus hábitos.
A teoria do Cheta era completamente contrária: o peixe deslocava-se sim, mas em sentido contrário, para o largo, para o alto, para o mais profundo.
A minha tese é teórica, baseando-se em leituras, enquanto a do Cheta resulta dos conhecimentos obtidos por ele ao longo de uma vida repleta de experiência de pesca. Estou quase tentado a seguir a ideia do Cheta. Esta discussão não acabou! De notar, que a grande maioria dos sargos e choupas capturados eram machos. Poucas fêmeas, algumas delas já ovadas.


Assim, neste dia de galo dourado, ninguém acreditava numa boa pescaria. Mas aconteceu.
De referir alguns aspectos:
- O Cheta pescou um polvo e precisou de outro. Também matou um congro. Só quase tirou peixe amarelo…Defendia-se ele – Nada é nada!
- O Óscar elogiava os carapauzinhos que em lingadas de três, iam substituindo os sargos. Defendia-se ele – São tão bons!
- O Malheiro estava imparavelmente sargalheiro e para não perder embalagem, recusou-se a inquietar a memória, a tirar fotografias com os troféus – Não!
- O Borges ia pedindo o ganhuço com insistência e exultava – Vem ao papá!
- O Forte, envaidecido por causa do galo dourado, não exibiu as suas emoções. Cantava – Ó Laurindinha…


Justificações. Não fosse o galo dourado e estas fanecas e estes carapaus teriam sido tratados com frieza e descriminação.
- Ó Laurindinha…
Leça da Palmeira, 11 de Outubro de 2014
Luís M. Borges


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