Aos mexilhões e às lapas
Descemos por entre as pedras molhadas do molhe, para a praia pedregosa, onde um velho paredão, destruído por um engenheiro louco, ainda impedia o mar de se estender em ondas até à praia. Ali, o mar esbarrava, quedava-se um pouco. Mais para o seu extremo em direcção ao mar aberto, durante as marés de coeficiente mais baixo, ficavam à vista e à mão os bons mexilhões, as grandes lapas e até umas excelentes ostras.
Munido de um saco de rede, um formão, uma navalha grossa, com sapatos de água e luvas especiais, lá fui palmilhando aquele local recheado de pedras, com muito cuidado para não cair, agarrando-me onde podia, a fim de recolher aqueles frutos do mar. O Adérito ao lado, espreitava um polvo e ao capturá-lo levou com um valente esguicho de tinta preta, acabando por o largar. Lá teve que tomar banho vestido, como no princípio do século vinte, para ver se conseguia esbater a cor negra que se tinha pegado à sua roupa. Houve quem estranhasse tal atitude. Teve obviamente que se explicar:
- Não há melhor processo de
retirar a tinta negra do polvo. Melhor que na lavandaria Estrelinha.
O esforço que tem de se despender
na apanha de mexilhões e lapas é muito. Fica-se esgotado. Primeiro escolher os
maiores exemplares; depois aplicar o formão à lapa com rapidez e exactidão,
caso contrário ela fecha; depois arrancar com a luva as maiores lapas, as quais
quase sempre se encontram em reentrâncias de rochas pouco acessíveis; ainda ter
muito cuidado com o avanço do mar e a ondulação mais forte; por fim o peso dos
sacos e o seu transporte, que dificultam os movimentos.
Numa hora e meia, enchi o sacode
rede de mexilhões e de lapas e ainda tive oportunidade de descobrir uns búzios
e umas ostras.
O Adérito fez o mesmo, mas com
pequenos polvos e ainda caçou uns camarões para servirem de isco à pesca, que
colocou numa caixa com água.
Depois, aliviei do esforço com um
belo banho, mas de calções apropriados, naquela maravilhosa piscina natural.
Não há melhor! Delícia de vida gozada no meio de tudo.
Em casa, tratei de cozer todo
aquele marisco, enquanto o Adérito se afadigava à volta dos polvos e metia no
aquário os camarões a fim de os conservar vivos. Ainda lhe deu para correr à
Somec a enganar mais um polvo, mas grande. Tinha-o lá visto a serandar na
véspera. Com uma sardinha engaiolada numa engenhoca apropriada, o polvão
deixou-se facilmente enganar. Este Adérito surpreende-nos a cada passo.
Depois, sentámo-nos a aperitivar
com mexilhões e lapas, regados com muito limão e cerveja fresca.
O sabor destas iguarias deu-nos
mais alma de pescador, completou-nos, pois não se pesca só com cana e carreto.
Soltem a imaginação e imaginem os nossos antecessores primitivos a agirem
exactamente como nós, nos primórdios do tempo. Só não possuíam fogão, nem
panelas, nem o restante aparato dito civilizacional…Assavam na brasa… Não sei
se tinham limão…
ILHA, Setembro de 2014
Luís M. Borges

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