AS "PIRRUAS"
Calhou-nos um dia daqueles! A suavidade surpreendeu-nos, tal a sua evidência. Vento, ondulação, temperatura e sol conjugaram-se e ofereceram-nos um dia de condições paradisíacas.
Porém…estas condições ficaram por aqui. Os deuses não tiveram asas
para voar mais alto.
Estivemos a pescar na zona do “Valongo”, primeiro no 04 e depois no
00. A corrente era fortíssima, a ponto de terem sido utilizadas chumbeiras de
400 gr, quando habitualmente se aplicam as de 150/180 gr. O resultado foi
catastrófico, pois os aparelhos embicavam e os ensarilhamentos eram constantes,
aos 3 e aos 4 em simultâneo. Muito tempo se passou a fazer “renda”!
- Pirruas, só pirruas…
Comigo, pirruei aí uma trintena de vezes. Numa delas acabei por ajudar
a partir a ponteira da cana do Forte e ter na embarcação 3 chateamentos: o meu,
o do Forte e também o do Cheta. O Malheiro e o Óscar dominaram em beleza o
incómodo das pirruas, considerando normal a situação, embora de vez em quando
acusassem o parceiro. Tive inclusive um desabafo inspirado:
- Atiro-me ao mar, vou a nada para Matosinhos…Assim não pesco, nem
incomodo...Irra!
Com estas anomalias pirruais e com a malta a pescar desde as 08h30, às
11h00 tínhamos apenas meia caixa de peixe, pelo que o ferro foi alado. Rumou-se
para o lugar 00.
Mas antes, já tinha havido discussão: por causa dos coletes de
salvamento.
- Este é o meu…não, este é o teu…onde está o meu? Como se põe esta
beldroega? Que chatice…Que enchumaceira! Com posso pescar assim?
É que a Polícia Marítima andava vigilante e certamente se dispunha e
muito bem, a visitar-nos. Aliás, até aconteceu, não a nós, mas a outra
embarcação.
Assim, todos bonitos e enfeitados, lá aceitámos a incomodidade. Dura
lex…
Em resumo: dia maravilhoso, coletes a estorvar, pirruas a enfadar.
Dava era vontade de um gajo se atirar ao mar…valeram os colegas que não
deixaram! Amigos, grandes amigos…
A espécie que mais saiu foi o carapau. Que senhores de carapaus. Quase
50 cm. Eram carapaus para terem 10 anos de idade. Mais uns sargalhões e uma
meia dúzia de cavalas, de serranos, de fanecas e de “ferraris”. Foi esta fauna
marinha que decidiu anzolar-se, por entre o incómodo das pirruas, com o
silêncio dos aborrecidos e às vezes a exaltação dos emotivos.
Entretanto, neste
parlamento algo irritado, o Malheiro decidiu cozinhar. Grande expectativa, pois
o Malheiro não informou ninguém do tipo de menu que iria apresentar. Guardou
até um férreo segredo, pois esperava fazer um brilharete, surpreender
positivamente a malta. Tal não se verificou – saiu um triste, descolorido e mal
apaladado arroz de marisco. Consequências: o Óscar recusou-se…pelo que limpou 3
latas de atum; eu, foi de prato pequeno; o Forte e o Cheta fizeram o frete e o
Malheiro perdeu o apetite com o desgosto. Derramou a sua incredulidade face ao
fracasso, em mais um copo de verde. No final brindei com cálice, à Cristo!
Encerrámos às 17h00, com a pescaria espelhada nos olhos. Afora as
pirruas, poderia ter sido uma daquelas pescarias.
Contudo, tenho de fazer o “mea culpa”, porque me senti culpado. Acho
que aconteceram mais pirruas do que deviam, porque fui eu o causador.
Essencialmente. Primeiro, não gosto de pescar com chumbadas mais pesadas que
150/180 gr; segundo, invado os lugares do Cheta e do Malheiro e ainda faço
incursões nos do Óscar e do Forte; terceiro, as pirruas são quase
sempre desfeitas, com enorme paciência e desvelo, pelos meus outros
companheiros; quarto, confio na sorte, pois acho que com jeitinho saco os
peixes, não me importando que sejam os outros a despirruarem; quinto, fico
chateadíssimo, faço um teatrozito e com tal desfaçatez, julgo que os meus
companheiros me desculpam; sexto, porque sou do piorio, fico contente quando
eles deixam os pesqueiros livres, porque pirruaram, e então eu pesco os peixes
das zonas deles, descansadinho e sem adversários. Isto não se faz e nem sequer
se deve pensar.
Não haja dúvida: fui o carrasco do dia – mais de 30 pirruadas e ainda
uma ponteira partida!
Foi demais!
Leça da Palmeira, 25 de Outubro
de 2014
Luís M. Borges