Adérito Alves
Adérito Alves já se emancipou da profissão de médico, embora ainda a pratique.
Transformou-se naquilo que eu apelido de um “técnico superior do lazer”. Do
lazer estimulante da pesca lúdica, na qual se empenha permanentemente. Os
sargos chegam-se a ele com frenesim; as douradas brilham mais de amarelo quando
lhe pegam no anzol; os robalos picam-no incessantemente; as anchovas atrevem-se
a desafiá-lo; as bailas dançam para ele em demasia e até os cangulos procuram
fintá-lo.
Para toda esta diversidade escamosa, o Adérito conhece perfeitamente
os melhores locais, as horas adequadas, os iscos mais apelativos e aplica os
materiais e as técnicas de pesca mais inovadoras e eficazes.
Tem ainda a grandeza de se saber dar aos amigos sem sobranceria nem
imposições, informando-os, ensinando-os e estimulando-os a bem pescar. Até cede
a sua casa e disponibiliza a viatura, sem quaisquer exigências.
Para além disto, é um homem simples, afável e até humilde, o que
revela grandeza de carácter.
Tenho muitas histórias de pasmar com o Adérito, algumas delas dignas
de registo e invulgares. A história que mais me marcou foi passada na Ria,
quando num belo dia fomos pescar mucharras, olhos-de-boi, douradas e robalos no
barco do seu tio Zé. A pescaria estava a dar, com o Adérito a levar a
dianteira, o tio a persegui-lo e eu a arfar lá muito atrás. Os peixes eram
palmeirotes. Eis senão quando a minha cana ganhou vida, começando a vergar
furiosamente.
- É uma dourada e das boas – diz o tio Zé.
O Adérito olhava o meu trabalhar muito calado, atento e expectante.
Com cuidado, fui chamando a mim a dourada, até que consegui fazê-la chegar ao
barco onde o xalavar a recolheu. Era uma dourada quase quileira, linda como o
poente da ilha. Fizeram-se ouvir parabéns e a felicidade espalmava-se nos
rostos.
No dia seguinte, o Adérito abeirou-se de mim no molhe e disse-me:
- Borges, tenho de lhe confessar uma coisa. Ontem, enquanto trabalhava
a dourada, desejei que ela lhe fugisse. Esta noite senti-me mal, por ter tido
esse pensamento. Decidi confessar-lhe o meu injusto e desleal desejo, a fim de
ficar de bem com a minha consciência.
Fiquei mudo. Quebrei literalmente…
A partir deste momento almejei algum dia poder ser tão nobre como o
Adérito.
Ilha do Farol, Setembro
de 2014
Luís M. Borges
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