quinta-feira, 18 de setembro de 2014

18. b) ILHA 2014



Adérito Alves

 
Adérito Alves já se emancipou da profissão de médico, embora ainda a pratique. Transformou-se naquilo que eu apelido de um “técnico superior do lazer”. Do lazer estimulante da pesca lúdica, na qual se empenha permanentemente. Os sargos chegam-se a ele com frenesim; as douradas brilham mais de amarelo quando lhe pegam no anzol; os robalos picam-no incessantemente; as anchovas atrevem-se a desafiá-lo; as bailas dançam para ele em demasia e até os cangulos procuram fintá-lo.
Para toda esta diversidade escamosa, o Adérito conhece perfeitamente os melhores locais, as horas adequadas, os iscos mais apelativos e aplica os materiais e as técnicas de pesca mais inovadoras e eficazes.

Tem ainda a grandeza de se saber dar aos amigos sem sobranceria nem imposições, informando-os, ensinando-os e estimulando-os a bem pescar. Até cede a sua casa e disponibiliza a viatura, sem quaisquer exigências.
Para além disto, é um homem simples, afável e até humilde, o que revela grandeza de carácter.
Tenho muitas histórias de pasmar com o Adérito, algumas delas dignas de registo e invulgares. A história que mais me marcou foi passada na Ria, quando num belo dia fomos pescar mucharras, olhos-de-boi, douradas e robalos no barco do seu tio Zé. A pescaria estava a dar, com o Adérito a levar a dianteira, o tio a persegui-lo e eu a arfar lá muito atrás. Os peixes eram palmeirotes. Eis senão quando a minha cana ganhou vida, começando a vergar furiosamente.
­­- É uma dourada e das boas – diz o tio Zé.

O Adérito olhava o meu trabalhar muito calado, atento e expectante. Com cuidado, fui chamando a mim a dourada, até que consegui fazê-la chegar ao barco onde o xalavar a recolheu. Era uma dourada quase quileira, linda como o poente da ilha. Fizeram-se ouvir parabéns e a felicidade espalmava-se nos rostos.
No dia seguinte, o Adérito abeirou-se de mim no molhe  e disse-me:
- Borges, tenho de lhe confessar uma coisa. Ontem, enquanto trabalhava a dourada, desejei que ela lhe fugisse. Esta noite senti-me mal, por ter tido esse pensamento. Decidi confessar-lhe o meu injusto e desleal desejo, a fim de ficar de bem com a minha consciência.


Fiquei mudo. Quebrei literalmente…
A partir deste momento almejei algum dia poder ser tão nobre como o Adérito.
Ilha do Farol, Setembro de 2014
Luís M. Borges

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