domingo, 7 de setembro de 2014

15. Memórias do Alto Mar


Para que são precisas 10 mãos, se 8 chegam?

 
Setembro. Dia cinzento. Tinha chovido durante a noite. As previsões do estado do mar faziam recear. Os cinco pararam junto ao portão, a ponderar. O Cheta dizia:
- Está uma calma derretida lá fora!
- Vamos ver. O pesqueiro é perto. Lá decide-se.
Estas afirmações do Óscar ditaram a decisão, pelo que em pouco tempo já arrostávamos um mar “malhoco”, uns aguaceiros e um vento a soprar na mediania.
Na “Violante” apoitámos esperançados, todos olhando para as nuvens negras, que se aproximavam. No barco não se podia pescar de pé. A tralha acumulada no convés (na tolda) atrapalhava e os gestos habituais tornavam-se mais difíceis de efectuar. Tirar um balde de água ou ir à cabine exigia cuidados redobrados.

Começou a faina às 07h30 e para júbilo dos marítimos, os peixes confirmaram a sua presença. Choupas e sargos caíam em catadupa no barco. A alegria manifestou-se em frases de estímulo e de satisfação. As nossas amigas gaivotas argênteas miravam e de vez em quando alçavam voo até à embarcação na mira de caçarem um daqueles peixes voadores. Chegaram a pegar uma das muitas fanecas grandes do aparelho do Cheta.
O Malheiro atrasava-se. Com a sua já costumada calma olímpica, perdeu muito tempo a preparar os estralhos.
Até às 09h00 foi assim, com duas caixas cheias de belos espécimes de escama e dois baldes de grandes fanecas, até que após, acabaram por acontecer algumas ocorrências incomuns:
- O Cheta partiu a cana;
- O Malheiro partiu também a cana;
- O Borges perdeu dois peixes mais que quileiros, bem como o Cheta;
- O Américo resmungava por não ter pescado ainda nenhuma “patela”;
- O Óscar, bem, o nosso campeão, estava em baixo. Silêncio e olhar triste…Também é o único a trabalhar, pois os restantes são uns reformados da treta!
- O mascato não nos visitou;
- Antes do almoço, sofremos as agruras de um forte aguaceiro. Ficámos molhadinhos como roupa acabada de lavar.
Houve quem afirmasse, que tudo isto se devia, ao “olho de caco”. Seria?

Mas, diga-se, ninguém se queixou. Rapaziada rija, amantes do enfrentamento face à natureza agreste, plenos de rusticidade e de força anímica e física, muito acima da média.
- Um chuveirito destes? Que é isso? Venha outro!
Aliás, nem demos conta desta humidade colada à pele, pois o Cheta foi de novo protagonista: guindou com extremo cuidado um peixe-galo de 2 kg. Ah valente! O arroz de peixe-galo estava garantido.
Gosto disto! Horas maravilhosas plenas de vida pura, que se passam nesta in finitude de azuis e de cinzentos, de sol a romper, de mar a ondular, de vento a cruzar, de gaivotas e de golfinhos a ilustrar, de companheiros a rir de tudo e de nada. Até fizeram uma desfeita ao Cheta: quiseram que ele pescasse uma garrafa cheia de água. Pescou-a…

Chegou depois o momento ZEN do Óscar: aprontou uma massa de coelho, sem paralelo na história dos sabores. Esta minha gente, gente da minha amizade e da minha consideração, cozinha maravilhosamente bem. Onde aprenderam? Serão dons?
A tarde melhorou. O sol desfez nuvens e exigiu ao vento e ao mar que abrandassem. O peixe começou a rarear. Tentaram-se outros pesqueiros. A nulidade desfez dúvidas e perante a ameaça de nevoeiro e da descoberta da avaria do GPS, decidiu-se e bem, rumar a bom porto. O Cheta monitorizou o mar, na detecção de bóias e na orientação do rumo. “Não se via palmo diante do nariz. Lá fora os barcos, como cegos, só se guiavam pelo som. O mar era um misterioso fantasma que os envolvia. Cerração cada vez mais mole e espessa… (Raúl Brandão, Os Pescadores).” Felizmente, tudo decorreu com eficácia, com o Óscar a pilotar.

Fez-se o quinhão, numa paragem frente ao paredão, cabendo uma boa provisão a cada peixeiro.
Na Marina, o encerramento comportou a mesma actividade de sempre: limpeza do barco. Esta parte é a mais chata. Mas tem de ser feita! Como fui o último a entrar na equipa, foram-me atribuídas as tarefas de limpar as alcatifas de rede e as canas, bem como ajudar a dar material a guardar. É pouco trabalho! Mas dá para não aceitar a desculpa do preguiçoso:
- Para que são precisas 10 mãos, se 8 chegam para fazer todo o serviço?
Leça da Palmeira, 06 de Setembro de 2014
Luís M. Borges


Nenhum comentário:

Postar um comentário