A guerra do mascato
Dois factos merecem realce especial: a participação do Forte, acusado
de ter faltado ultimamente aos treinos; a estreia da cana e do carreto novos do
Malheiro.
Foram estes os dois motes iniciais, de uma pescaria efectuada na “Violante”,
distante umas 7 milhas da Marina.
Quanto a espécies capturadas, a primeira a dar sinal foi a faneca, em
intensidade redobrada. Rapidamente a caixa deixou de poder comportar mais fauna
fanequeira.
Na sequência, entrou a gorazada, ou seja, lingadas comportando
pequenos gorazes, aos três em simultâneo.
- É pena que não tenham 1 kg cada um. – dizia o Cheta.
- Por um lado é bom sinal, significa que a reprodução desta espécie
foi bem sucedida. Mas têm de crescer! Por outro lado é uma praga, pois não
deixam comer o peixe grande – comentava o Forte.
E assim se lançaram à água dezenas de pequenos gorazes, à medida que
iam sendo capturados e tendo em atenção o máximo cuidado na sua desferragem.
Outra particularidade, foi a insistência com que o Óscar pescava “cagonas”,
isto é, bogas-do-mar. E grandes. Foi eleito “O Rei das Cagonas”. Passámos assim
a contar com dois reis na Equipa, com o “ O Rei dos cagalhões chumbados” – o Cheta.
De destacar, que este peixe não se aproveita, pois contamina todo o
peixe existente na caixa, dadas as suas características de valente cagão, daí a
designação. O bicho borra-se mesmo todo e cheira mal.
Estas cagonas, depois de mortas ainda serviram para diversão com as
gaivotas, como a seguir se contará.
De resto, saíram uns bons sargos e choupas, carapaus médios e cavalas,
um ruivito e quatro serranos.
No que diz respeito às prestações piscatórias das 5 excelências, a
verdade seja dita, apenas o Forte se apresentou com uma expectativa maior que
os seus colegas: estava a contar pescar peixe graúdo, dado o calibre dos fios
do aparelho, que inicialmente aplicou em acção de pesca: 0,37 e 0,32 (este no
estralho). Conseguiu assim nas primeiras horas evitar a captura de sargos e
choupas, os tais peixes de referência da malta.
Foi criticado pelo Óscar, com a anuência dos restantes, com a frase
mais ouvida:
Resultou. O Forte ouviu, calou e mudou de aparelho – com finura
adequada (0,35 e 026), passando a ser também eficaz em sargos e choupas.
- Faz a diferença – sentenciava o Cheta.
Chegou entretanto a hora da mastigação, com o Borges a lembrar:
- Nunca mais é meio-dia!
O Malheiro logo arrumou a sua bonita cana, a fim de pôr o avental e o
boné de “Chefe”, visando a preparação de um Bacalhau Dourado.
Maravilha das maravilhas! Em três tempos ficou pronto o petisco, para
gáudio dos utentes, os quais acabaram com o falatório para se dedicarem em
exclusividade e se concentrarem, na degustação de tão saboroso pitéu. Aqui se
expressa um elogio ao Malheiro e se recomenda: sempre que for a vez dele ou
traz “favas com chouriço” ou faz “bacalhau dourado”. Isto está a aprimorar, ai
está, está…
Arrumada a mesa e recolhida a louça, a campanha regressou à faina.
O dia esplendorava, envolvendo em carícia o barco e os seus ocupantes.
O mar ondulava, em jeito de embalar.
A pequena brisa, refrescava os corpos tostado pelo calor do sol.
Foi neste contexto fascinante, que surgiu um mascato. Surgiu abruptamente,
ao mergulhar ruidosa e violentamente, a cinco metros do barco, no meio da algaraviada
de uma vintena de gaivotas, que pacientemente esperavam que lhes calhasse
alguns restos, provindos dos pescadores: pão, resto de comida, isco
desaproveitado, algum pequeno peixe que caísse…
O reboliço começou, quando o Óscar pescou mais uma boga, bastante
grande, a qual depois de morta foi lançada à gula das gaivotas. Luta violenta. Vi
uma delas pegar na boga com o bico e tentar engoli-la. Não conseguiu engoli-la
totalmente, pois a boga era demasiado grande para a sua goela, tendo ficado com
o rabo de fora. Acto contínuo, o mascato atacou a gaivota, tendo conseguido com
uma bicada feroz, arrancar-lhe a boga do gasnete e papá-la ele de imediato.
Incrível!
Entretanto, o mascato ficou por ali, à frente do bando das gaivotas, a
nadar calmamente, a olhar para nós. De vez em quando mergulhava a cabeça e o seu
longo e largo pescoço, a ver o que acontecia por debaixo de água. Esperto o gaijo,
pois estávamos a pescar fanecas com fartura, nessa altura. Ora ver tanto peixe
a sair da água (três e quatro lingadas em simultâneo, cada uma delas com 2 e 3
fanecas) a brilhar e a debater-se preso nos aparelhos, acabava por ser um
grande estímulo e ao mesmo tempo quase uma provocação insuportável, com a fome
a incomodar. O mascato continuava a olhar, as gaivotas gritavam a sua
incapacidade e desejo, excitadas, enquanto de vez em quando o mascato lá
mergulhava a cabeça na água, a ver, a avaliar a situação. Perspicaz o gaijo,
pois ele sabia que as fanecas vinham de baixo, do fundo do mar…
Até que aconteceu o impensável! Quando eu me preparava para alçar uma
boa faneca, sinto na cana um violento puxão. Iço em rapidez e eis que me surge à
superfície o mascato com a faneca presa no bico e a levantar voo. O tipo tinha
mergulhado, fez uma espera à faneca que estava a ser içada por mim e atacou-a
no momento exacto. Confusão das confusões: mascato a voar com o peixe no bico,
gaivotas a tentarem roubar-lhe a faneca, chumbada enrolada à asa do mascato, companheiros
a gritar, que iria partir a cana, eu a fotografar o que podia… Acabaram por ser
as gaivotas a desenvencilhar tudo, possibilitando-me a recolha do fio e da
faneca. Esta estava toda picada, de tanta bicada que tinha levado…Morta e bem
morta e moída, lancei-a para o meio do bando esfomeado, provocando nova guerra.
Sabem quem acabou por comer a faneca? O inteligente, forte e ágil mascato, pois
claro.
Já na ressaca desta novela e perto da Marina, o Óscar e o Forte
procederam à habitual distribuição equitativa de todo o pescado, calhando a
cada um 10 pontos.
O dia acabou para mim, com oferta de peixe ao Adérito e ao Vaz de
Carvalho. Este convidou-me para o jantar, que foi de arroz malandro de tomate e
fanecas fritas. Que delícia. Eram 00h30 quando puxei o lençol.
Leça da palmeira, 30 de Agosto
de 2014
Luís M. Borges
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