O dia dos quatros
Neste dia 13 de Setembro, dia de S. João Crisóstomo, o Malheiro faltou
ao treino. Rins! Em sua substituição calhou-nos o Albino…primo do Óscar.
Tudo começou assim, percorridas aí umas 3 milhas:
- Oh Albino, estás bem? - O Óscar preocupava-se com o primo, que se apresentava
algo amarelado, embora tentasse disfarçar.
- Estou, estou…ggggggggggg…, enquanto vomitava borda fora.
- “Ai que enjoo me dá o açúcar do desejo!” – Dizia o Cheta.
- Eu cá… como, como e nunca enjoo – referia o Óscar.
- Sabem o que é um vómito? É tudo que sai, dor pungente no estômago,
zunido nos ouvidos, travo amargo na boca, tonturas – sentenciava o Forte.
- Eu chamava já o médico, o otorrinolaringologista – declarava o
Borges.
Perante este sentenciamento, o pobre do Albino desistiu de pescar,
tendo-se ido deitar à proa do barco, pelo que ficámos 4 na luta, justamente no sítio
da Violante, que a sonda justificava com bastante peixe.
O início da pesca foi, diria, decepcionantemente positivo, para a
maioria dos pescadores. O mar começou a despejar-nos cavalas. Tínhamos caído
justamente no meio de um cardume de sardas e de cavalas de porte médio. Vinham
os aparelhos completamente carregados destes peixes sôfregos, que, quer fosse a
descer, no fundo ou a subir, atacavam com fúria e rapidez os iscos contidos nos
anzóis. Impressionante!
Mas, o pior, é que os “estorninhos” e as “berdelas”, como lhes chamam
os espanhóis, têm o mau hábito de, ao sentirem-se picados e presos, derivarem
para os lados, enredando irremediavelmente as linhas, provocando uma confusão
dos diabos.
O Forte só dizia: - Corta, corta… - E lá se iam mais umas retenidas à
vida, para desespero dos enleados.
Levantámos ferro em jeito de pressa às 08h00, de modo a
experimentarmos outro pesqueiro distante 4 milhas para sul – o Cais. Foi mau
demais, para desânimo total – a praga estendia-se até ali. Estoicamente, ainda
aguentámos até às 09h00, na convicção de que os “escamas” pudessem impor-se à
turba e nos proporcionassem uma pesca sossegada e de qualidade. Qual quê? A
população “scomber” era em barda, pelo que de novo nos pusemos na alheta, desta
vez para mais longe, não sem antes termos tentado por pouco tempo, mais uma
paragem aleatória, a meio caminho, a ver o que dava. Breve, retomámos a viagem.
Apoitados no Valongo, a orquestra começou a tocar outra música: principiaram
desta vez a tombar dezenas de serranos e de carapaus grados. Vá lá, o tango
agora era diferente, embora o Cheta não quisesse acertar o passo:
- Só me sai disto! – Referindo-se aos serranos.
Diga-se, que estes peixes, também são mal aceites. Não têm tamanho e
são pesados a guindar do fundo, pois têm a mania de abrir a bocarra, no acto de
alar. E não é que, de um momento para o outro e para admiração geral, os sargos
e as choupas começaram a dar-nos os bons dias! E não é que a coisa se começou a
compor! Até se ferrou um bom besugo.
- Uma vintena destes fazia-nos o dia. – Palavras acertadas do Óscar.
E foi neste cenário, que chegámos à hora de tocar a sineta a reunir:
vitela assada de Lafões, batatinhas, arroz branco e esparregado. Que luxo. O
vinho Rosé correu, as apreciações positivas abundaram (dirigidas ao Forte), o
Albino negou-se, o Cheta repetiu, o Borges cortou o queijo e o bolo e o Óscar
fez o café e disponibilizou os digestivos. Com tanta satisfação reunida, o mar a
descansar, as gaivotas a observar, o vento a arfar e o sol a abrasar,
brindou-se à vida. Que beleza!
Recomeçámos a labuta, que se prolongou até às 17h00, desta vez sem aselhices.
As caixas ficaram compostas, com grande quantidade de carapaus matulões a
encimarem o lote. Curioso, que as bonitas fanecas pouco se mostraram. Não se
sabe bem porquê, mas estes deliciosos e rodopiantes peixes, hoje tinham-se
feito rogados. Uma meia dúzia a cada um – que fome de fanecas.
Rumámos então à Marina, percorrendo as 13 milhas velozmente, pois o
mar estava via rápida.
Acabou por ser mais um dia de gabarito – chamar-lhe-ia o dia dos
quatros: 4 caixas de peixe; 4 pescadores; 4 poitadas; 4 espécies dominantes
(cavalas, serranos, sargos e carapaus).
Este dia piscoso vai dar para recordar. E se há vida para além da
morte, dêem-me muitos dias iguais a este! Que assim seja!
Leça da Palmeira, 13 de
Setembro de 2014
Luís M. Borges
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