Entardeceres suaves
A pesca lúdica é para mim uma actividade que liberta, que compromete a
amizade, que reforça o companheirismo, que aviva a alegria.
Este ano fui passar 10 dias à Ilha do Farol, a convite do Adérito, que
costuma alugar lá uma casa em Setembro, a fim de passar férias com a família.
Sobram-lhe sempre uns dias em que fica sozinho e ele não gosta. Veio também o
Barbosa.
Para mim, a Ilha é o encerramento ideal da pesca estival e também
porque nunca rejeito, antes incentivo, uns bons dias de actividade lúdica em
grupo, umas conversas animadas comendo sargos grelhados e nas tagarelices à
volta de velhas façanhas de pesca.
Costumamos enfrentar-nos a olhar fixamente bóias vermelhas, a medir os
sargos uns dos outros com cobiça, a querer sempre sentir os puxões das choupas
através da cana sob um Sol/Setembro ainda fogo, a arrostar um vento já “frappé”
a pedir agasalho, naquele molhe estrada de todos, por entre fragões pés de
galinha, onde lá no seu términus o farol conta barcos que navegam na barra, a
olhar embebecidos aquele mar mistério eterno, uma atracção afectiva. Buscamos a
integração através da predação, como se de um acto bíblico se tratasse.
Muitas vezes, quando sozinho, eu costumo seguir estes dias sentado no
muro do molhe, para me poder dar em entardeceres suaves à melancolia do
existir, de cana na mão e esperança no olhar.
O nosso Éden
Nesta Ilha vale o sol derretido, a brisa mansinha, o mar à volta,
aquelas gaivotas mirones e um veleiro silencioso que se recorta na ria. Sei
absorver esta suavidade e harmonia, é o meu corpo a fazê-lo, com uma forte e
agradável consciência de prazer.
Nesta Ilha, naturalmente, caminho sempre leve sobre a areia, banho-me
fácil nas águas, respiro fundo o ar perfumado, alimento-me simples à mesa,
durmo sonos esquecidos no leito, sonho na dimensão do que fica, converso ágil
como uma criança e pesco a rir.
É isto a Ilha para mim e para os meus companheiros.
Ilha do Farol, Setembro 2014
Luís M. Borges
Nenhum comentário:
Postar um comentário