quinta-feira, 18 de setembro de 2014

19. c) ILHA 2014



José Barbosa

 
Se há menino mais bonito é o Barbosa, vulgarmente apelidado de “JotaBB”, com o seu avental amarelo “tutti-frutti”, colher de pau na mão esquerda e alguidar na outra.
Com o seu passo miudinho e rápido, à noite gosta de deambular pela casa, de copito de vinho meio cheio na mão, a falar alto, a rir-se por nada e a ironizar com tudo e todos. 




Se os petiscos falassem, sem dúvida que escolheriam o Barbosa para mestre cozinheiro, pois trata os legumes com o desvelo de um hortelão e as carnes e peixes com o cuidado de um “chef gourmet”.
Faz isto pelos amigos e companheiros. Quer vê-los felizes, a degustarem o arroz de polvo, a petiscarem a bifana, a trincarem a patanisca de bacalhau, a saborearem as amêijoas à Bolhão Pato ou a sorverem a sopa de legumes.
Este Barbosa é a nossa “gueixa”…tã…tã…tã…tã…
E o miúdo ria-se.

Mas sabe pescar, lá isso sabe. Tal como na cozinha, o tipo de pesca dele é para a sensibilidade. Linhas finas, bóias leves, canas versáteis, como as de rio. Mas os sargos, as viúvas e sobretudo as cavalas saltam-lhe para o colo.Eu admiro-o.
Foi denominado o campeão das cavalas. E o miúdo ria-se…



Ilha do Farol, Setembro de 2014
Luís M. Borges



18. b) ILHA 2014



Adérito Alves

 
Adérito Alves já se emancipou da profissão de médico, embora ainda a pratique. Transformou-se naquilo que eu apelido de um “técnico superior do lazer”. Do lazer estimulante da pesca lúdica, na qual se empenha permanentemente. Os sargos chegam-se a ele com frenesim; as douradas brilham mais de amarelo quando lhe pegam no anzol; os robalos picam-no incessantemente; as anchovas atrevem-se a desafiá-lo; as bailas dançam para ele em demasia e até os cangulos procuram fintá-lo.
Para toda esta diversidade escamosa, o Adérito conhece perfeitamente os melhores locais, as horas adequadas, os iscos mais apelativos e aplica os materiais e as técnicas de pesca mais inovadoras e eficazes.

Tem ainda a grandeza de se saber dar aos amigos sem sobranceria nem imposições, informando-os, ensinando-os e estimulando-os a bem pescar. Até cede a sua casa e disponibiliza a viatura, sem quaisquer exigências.
Para além disto, é um homem simples, afável e até humilde, o que revela grandeza de carácter.
Tenho muitas histórias de pasmar com o Adérito, algumas delas dignas de registo e invulgares. A história que mais me marcou foi passada na Ria, quando num belo dia fomos pescar mucharras, olhos-de-boi, douradas e robalos no barco do seu tio Zé. A pescaria estava a dar, com o Adérito a levar a dianteira, o tio a persegui-lo e eu a arfar lá muito atrás. Os peixes eram palmeirotes. Eis senão quando a minha cana ganhou vida, começando a vergar furiosamente.
­­- É uma dourada e das boas – diz o tio Zé.

O Adérito olhava o meu trabalhar muito calado, atento e expectante. Com cuidado, fui chamando a mim a dourada, até que consegui fazê-la chegar ao barco onde o xalavar a recolheu. Era uma dourada quase quileira, linda como o poente da ilha. Fizeram-se ouvir parabéns e a felicidade espalmava-se nos rostos.
No dia seguinte, o Adérito abeirou-se de mim no molhe  e disse-me:
- Borges, tenho de lhe confessar uma coisa. Ontem, enquanto trabalhava a dourada, desejei que ela lhe fugisse. Esta noite senti-me mal, por ter tido esse pensamento. Decidi confessar-lhe o meu injusto e desleal desejo, a fim de ficar de bem com a minha consciência.


Fiquei mudo. Quebrei literalmente…
A partir deste momento almejei algum dia poder ser tão nobre como o Adérito.
Ilha do Farol, Setembro de 2014
Luís M. Borges

17. a) ILHA 2014



Entardeceres suaves

 
A pesca lúdica é para mim uma actividade que liberta, que compromete a amizade, que reforça o companheirismo, que aviva a alegria.
Este ano fui passar 10 dias à Ilha do Farol, a convite do Adérito, que costuma alugar lá uma casa em Setembro, a fim de passar férias com a família. Sobram-lhe sempre uns dias em que fica sozinho e ele não gosta. Veio também o Barbosa.
Para mim, a Ilha é o encerramento ideal da pesca estival e também porque nunca rejeito, antes incentivo, uns bons dias de actividade lúdica em grupo, umas conversas animadas comendo sargos grelhados e nas tagarelices à volta de velhas façanhas de pesca. 

Costumamos enfrentar-nos a olhar fixamente bóias vermelhas, a medir os sargos uns dos outros com cobiça, a querer sempre sentir os puxões das choupas através da cana sob um Sol/Setembro ainda fogo, a arrostar um vento já “frappé” a pedir agasalho, naquele molhe estrada de todos, por entre fragões pés de galinha, onde lá no seu términus o farol conta barcos que navegam na barra, a olhar embebecidos aquele mar mistério eterno, uma atracção afectiva. Buscamos a integração através da predação, como se de um acto bíblico se tratasse.

Muitas vezes, quando sozinho, eu costumo seguir estes dias sentado no muro do molhe, para me poder dar em entardeceres suaves à melancolia do existir, de cana na mão e esperança no olhar.




O nosso Éden

Nesta Ilha vale o sol derretido, a brisa mansinha, o mar à volta, aquelas gaivotas mirones e um veleiro silencioso que se recorta na ria. Sei absorver esta suavidade e harmonia, é o meu corpo a fazê-lo, com uma forte e agradável consciência de prazer. 

Nesta Ilha, naturalmente, caminho sempre leve sobre a areia, banho-me fácil nas águas, respiro fundo o ar perfumado, alimento-me simples à mesa, durmo sonos esquecidos no leito, sonho na dimensão do que fica, converso ágil como uma criança e pesco a rir. 
É isto a Ilha para mim e para os meus companheiros.
Ilha do Farol, Setembro 2014
Luís M. Borges

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

16. Memórias do Alto Mar



O dia dos quatros

 
Neste dia 13 de Setembro, dia de S. João Crisóstomo, o Malheiro faltou ao treino. Rins! Em sua substituição calhou-nos o Albino…primo do Óscar.
Tudo começou assim, percorridas aí umas 3 milhas:
- Oh Albino, estás bem? - O Óscar preocupava-se com o primo, que se apresentava algo amarelado, embora tentasse disfarçar.
- Estou, estou…ggggggggggg…, enquanto vomitava borda fora.
- “Ai que enjoo me dá o açúcar do desejo!” – Dizia o Cheta.
- Eu cá… como, como e nunca enjoo – referia o Óscar.
- Sabem o que é um vómito? É tudo que sai, dor pungente no estômago, zunido nos ouvidos, travo amargo na boca, tonturas – sentenciava o Forte.
- Eu chamava já o médico, o otorrinolaringologista – declarava o Borges.

Perante este sentenciamento, o pobre do Albino desistiu de pescar, tendo-se ido deitar à proa do barco, pelo que ficámos 4 na luta, justamente no sítio da Violante, que a sonda justificava com bastante peixe.
O início da pesca foi, diria, decepcionantemente positivo, para a maioria dos pescadores. O mar começou a despejar-nos cavalas. Tínhamos caído justamente no meio de um cardume de sardas e de cavalas de porte médio. Vinham os aparelhos completamente carregados destes peixes sôfregos, que, quer fosse a descer, no fundo ou a subir, atacavam com fúria e rapidez os iscos contidos nos anzóis. Impressionante!
Mas, o pior, é que os “estorninhos” e as “berdelas”, como lhes chamam os espanhóis, têm o mau hábito de, ao sentirem-se picados e presos, derivarem para os lados, enredando irremediavelmente as linhas, provocando uma confusão dos diabos.
O Forte só dizia: - Corta, corta… - E lá se iam mais umas retenidas à vida, para desespero dos enleados.

Levantámos ferro em jeito de pressa às 08h00, de modo a experimentarmos outro pesqueiro distante 4 milhas para sul – o Cais. Foi mau demais, para desânimo total – a praga estendia-se até ali. Estoicamente, ainda aguentámos até às 09h00, na convicção de que os “escamas” pudessem impor-se à turba e nos proporcionassem uma pesca sossegada e de qualidade. Qual quê? A população “scomber” era em barda, pelo que de novo nos pusemos na alheta, desta vez para mais longe, não sem antes termos tentado por pouco tempo, mais uma paragem aleatória, a meio caminho, a ver o que dava. Breve, retomámos a viagem.
Apoitados no Valongo, a orquestra começou a tocar outra música: principiaram desta vez a tombar dezenas de serranos e de carapaus grados. Vá lá, o tango agora era diferente, embora o Cheta não quisesse acertar o passo:
- Só me sai disto! – Referindo-se aos serranos.

Diga-se, que estes peixes, também são mal aceites. Não têm tamanho e são pesados a guindar do fundo, pois têm a mania de abrir a bocarra, no acto de alar. E não é que, de um momento para o outro e para admiração geral, os sargos e as choupas começaram a dar-nos os bons dias! E não é que a coisa se começou a compor! Até se ferrou um bom besugo.
- Uma vintena destes fazia-nos o dia. – Palavras acertadas do Óscar.
E foi neste cenário, que chegámos à hora de tocar a sineta a reunir: vitela assada de Lafões, batatinhas, arroz branco e esparregado. Que luxo. O vinho Rosé correu, as apreciações positivas abundaram (dirigidas ao Forte), o Albino negou-se, o Cheta repetiu, o Borges cortou o queijo e o bolo e o Óscar fez o café e disponibilizou os digestivos. Com tanta satisfação reunida, o mar a descansar, as gaivotas a observar, o vento a arfar e o sol a abrasar, brindou-se à vida. Que beleza!

Recomeçámos a labuta, que se prolongou até às 17h00, desta vez sem aselhices. As caixas ficaram compostas, com grande quantidade de carapaus matulões a encimarem o lote. Curioso, que as bonitas fanecas pouco se mostraram. Não se sabe bem porquê, mas estes deliciosos e rodopiantes peixes, hoje tinham-se feito rogados. Uma meia dúzia a cada um – que fome de fanecas.
Rumámos então à Marina, percorrendo as 13 milhas velozmente, pois o mar estava via rápida.
Acabou por ser mais um dia de gabarito – chamar-lhe-ia o dia dos quatros: 4 caixas de peixe; 4 pescadores; 4 poitadas; 4 espécies dominantes (cavalas, serranos, sargos e carapaus).
Este dia piscoso vai dar para recordar. E se há vida para além da morte, dêem-me muitos dias iguais a este! Que assim seja!
Leça da Palmeira, 13 de Setembro de 2014
Luís M. Borges