sexta-feira, 3 de outubro de 2014

27. l) ILHA 2014


Manjares

JotaBB - O Chefe Gourmet
 
Encerro estas crónicas, visitando o reino dos sabores, que tão bem se conjugou com a maravilhosa Ilha do farol.
Claro que falarei do rei, que nos tornou mais acomodados à sua mestria de Chefe Gourmet.
O nosso “JotaBB” até se excedeu em primores, apresentando delícias ímpares. Ainda tenho o sabor na boca dos seus filetes de polvo, dos sarrajões de escabeche, das ostras ao natural, do robalo grelhado, da sopa de peixe, dos sargos fritos, dos mexilhões em tomatada, tudo sempre acompanhado de saladas variadas, batatas a murro, sopas de legumes, vinho branco gelado, saladas de fruta…
O Barbosa tem amor pela primorosa confecção de belos pratos.



Já afirmava Bernard Shaw: “Não existe amor mais sincero do que aquele pela comida”.
Farol, Setembro 2014
Luís M. Borges

26. j) ILHA 2014


Sarrajões e mermas

 

 O meu grande amigo Amadeu, todos os anos decide convidar-me a ir pescar com ele.
 Apanhou-me na Somec e rapidamente rumou para o largo.
Desta vez fomos perseguir sarrajões e mermas. Os cardumes destas duas espécies mourejavam frente à Ilha, a cerca de 3 milhas. Curricámos das 08h00 às 11h30, tendo conseguido efectuar 8 capturas.





 Merma
 Sarrajão
Os sarrajões eram pequenos e não tinham boca para as amostras. Às vezes, até as cortavam pelo rabo.
Quanto às mermas, eram um pouco maiores.
Entretanto o calor foi esparramando, tonando-se insuportável, ao mesmo tempo que os tunídeos desapareciam, pelo que decidimos rumar ao Grupo Naval de Olhão.

 Equipa Vencedora
Havia o almoço comum a que tínhamos de comparecer. Esta pescaria com o Amadeu e o Manuel era uma participação na 3ª Tertúlia dos Atuns. Foi uma tertúlia simpática, com 9 embarcações e cerca de 30 concorrentes, sinónimo da existência de um clima onde a amizade e a colaboração se tornaram notórios.
Classificação geral: 1º Avatar; 2º Docas; 3º Electrão
É importante, sob o ponto de vista desportivo, que o GNO organize estes eventos, com dimensão realista, adequada à situação económico-social do país.
Quem nada faz, faz nada. Nada é nada. O Clube e a sua direcção estão no rumo certo.
Ilha, Setembro 2014
Luís M. Borges
.

25. i) ILHA 2014


Douradas



Naquele molhe, houve vezes em que estavam apontadas ao céu dezenas de canas. Perfiladas, como se de canhões se tratasse. Armas preparadas para apanharem as fantásticas douradas.
Nós, falhámos rotundamente, quanto à pesca desta espécie, pois a pesca à dourada é de espera. É passiva. Nós, consideramo-nos pescadores activos. Quando envelhecermos mais, talvez a debilidade nos permita mudar de ideias.
Mas acabámos por tentar uma vez. Deu-nos a cobiça. Assim, num dia de mar apropriado, armámos 5 canas e lançámos…Foi maré de limos. Foi maré negra. Durante quase toda a manhã os anzóis iscados com casulo vinham cobertas com um limo verde e pegajoso. A nossa espectativa escureceu… Derrotados, recolhemos as canas e emudecemos.







Nesse mesmo dia, na Somec, quando eu e o Barbosa pescávamos por diversão umas “viúvas”, eis que dois colegas lograram capturar duas enormes douradas. Pesavam mais de 3,5 kg cada.
Limitámo-nos a assistir e a aplaudir a mestria dos pescadores, fixando os principais momentos em fotografia. Como compensação e para nosso deleite dourado!

Farol, Setembro 2014
Luís M. Borges


24. h) ILHA 2014



SARGOS

O que é um sargo?

É um peixe muito procurado pelos pescadores lúdicos. Na Ilha do Farol, a pesca ao sargo assume distinções precisas, quanto à forma como se pesca: à bóia e ao fundo. São estas as técnicas mais utilizadas por um batalhão de noctívagos, que chegam ao Farol no último barco, passam a noite e a pescar no molhe e regressam no primeiro barco da manhã.
Nós, de férias, bem como alguns residentes, temos o privilégio de ter casa na Ilha e pescarmos a qualquer momento. Há condicionantes, que convém ter em atenção, pois fazem a diferença. Um deles é a maré, que para ambas as técnicas importa que seja o mais fraca possível, pescando 2 horas antes e 2 horas depois da preia-mar.
Outro factor importante prende-se com o poente e o nascente, momentos diria obrigatórios para a pesca de qualquer espécie.
Por último, dezenas de outros itens, que capacitam o pescador a conseguir excelentes pescarias, como sejam o tipo de material (canas, carretos, fios, anzóis, iscos, bóias, etc), a experiência do próprio pescador, assim como as nuances de vida dos sargos, do estado do tempo e do mar e obviamente contar com alguma sorte.
De referir, que existem várias espécies de sargos, algumas delas dominantes na Ilha, tais como o sargo-comum, o sargo-safia e o sargo-bicudo. As restantes espécies aparecem episodicamente.
Pescar nos Hangares
Ao sairmos de casa aquele perfume da Ilha saudou-nos e envolveu-nos. O sueste não passava despercebido. O desabar da ondulação a cair na praia, ouvia-se em batimento forte e contínuo do lado do mar.
Sobre a areia dura da ria caminhámos meia hora, até chegarmos ao cais dos Hangares. Mal chegados, lançámos imediatamente os nossos aparelhos para a ria. O Adérito, afeito a este tipo de pesca, engatou imediatamente um bom sargo, dando continuidade durante uma hora a uma pesca contínua, enquanto nós (eu e o Barbosa) íamos fazendo o que podíamos, olhando tristemente para as choupinhas sem medida ou para os “cagalhões” de baleia, que os anzóis traziam.
No princípio não percebi qual a razão da tal preferência por parte dos peixes. Acendeu-se-me então uma luz: tenso de 2 braças, fio 0,20, anzol pequeno nº 6 Chinu, isco bem preso (caso fosse camarão e se coreana, esta presa pela parte dianteira – 2 cm), arrastamento ligeiro da chumbada (50 gr) na areia, lançamentos a uma distância mais precisa (nem muito longe, nem muito perto).
Assim que apliquei este conjunto de procedimentos conseguimos pescar com eficácia, eu e o Barbosa.
Lembrei-me, que o Adérito já nos tinha informado e em pormenor, das medidas a tomar para se obter êxito a pescar estes danadinhos dos Hangares. No fundo, isto é a pesca a funcionar correctamente: quando mais fineza, melhor; quanto mais precisão, melhor; quanto mais adequação em termos de iscos, melhor e por aí adiante na estrada do melhor, que leva à eficiência. Há quem diga que já está tudo inventado! Processos antigos, muito velhos... Eu tinha-me esquecido da base, da “basesinha”, como diria o nosso Eça de Queirós.
Nós agora, até temos mais uma vantagem, que os antigos não possuíam: novos e espectaculares materiais de pesca. Mas, atenção: nunca esquecer os velhos, sólidos e eficazes procedimentos antigos, que resultaram num saber acumulado de séculos. Temos tendência a confundir tecnologia com sabedoria. Ai de nós se persistimos nesta confusão. No tempo actual, a tecnologia reforça a razão da pesca.
Fizemos uma cabazada, no que aos sargos diz respeito, pelo que a areia dura da ria mais marcada ficou. Fomos mais pesados.
Pescar durante o levante
O levante instalou-se. Corria um vento sueste fraco e o mar estava a pôr-se a jeito. Os peixes não comiam na ria. No dizer do Nascimento – a ria está seca! Esta febre de peixes coloca o coração no ponto zero. Na ria, agora, Deus não estava. Mudou de aquário, para o mar e não era a hora de o apedrejar…embora reconheça que um dia na Ilha sem pescar seja uma eternidade!

Os peixes saem mesmo da ria. Debandam para o mar. Vão posicionar-se favoravelmente, no sentido de aproveitarem as condições que o levante lhes irá proporcionar. Haverá comida em abundância, eles sabem, por experiência e por pré - programação genética. Vão fartar-se de comer.
O levante no mar algarvio é violento e simultaneamente um espectáculo digno de se vivenciar. Até onde a vista alcança, o mar desdobra-se em ondas consecutivas. Altas e ameaçadoras, a fazerem perder o folego. Na costa, o mar encrespa, arrancando com violência das rochas e da areia, os caranguejos, o mexilhão e milhares de pequenos peixes apanhados na desorientação. Revolve a areia, desaloja vermes e bivalves, que são depositados no molhe através das ondas. Às vezes o molhe fica juncado destes bivalves e as gaivotas aproveitam o maná. Na água espumosa e revolta, os peixes afadigam-se na recolha e os pescadores aproveitam esta tendência dos peixes, com os anzóis bem iscados.
Concretamente, o levante acaba por aproveitar a todos, excepto aos pequenos e desprotegidos seres. Como sempre faz a natureza.
Ali, ao pé dos desenhos a preto, lançámos bóias pesadas (20 gr) e foi um êxtase de sargos grandes. O mar, violento, não gostou que lhe roubássemos os seus filhos dilectos. Admoestou-nos com uma molha das grandes, já no final da pescaria.
Ilha do Farol, Setembro 2014
Luís M. Borges

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

23. g) ILHA 2014


Aos mexilhões e às lapas


Descemos por entre as pedras molhadas do molhe, para a praia pedregosa, onde um velho paredão, destruído por um engenheiro louco, ainda impedia o mar de se estender em ondas até à praia. Ali, o mar esbarrava, quedava-se um pouco. Mais para o seu extremo em direcção ao mar aberto, durante as marés de coeficiente mais baixo, ficavam à vista e à mão os bons mexilhões, as grandes lapas e até umas excelentes ostras.



Munido de um saco de rede, um formão, uma navalha grossa, com sapatos de água e luvas especiais, lá fui palmilhando aquele local recheado de pedras, com muito cuidado para não cair, agarrando-me onde podia, a fim de recolher aqueles frutos do mar. O Adérito ao lado, espreitava um polvo e ao capturá-lo levou com um valente esguicho de tinta preta, acabando por o largar. Lá teve que tomar banho vestido, como no princípio do século vinte, para ver se conseguia esbater a cor negra que se tinha pegado à sua roupa. Houve quem estranhasse tal atitude. Teve obviamente que se explicar:
- Não há melhor processo de retirar a tinta negra do polvo. Melhor que na lavandaria Estrelinha.

O esforço que tem de se despender na apanha de mexilhões e lapas é muito. Fica-se esgotado. Primeiro escolher os maiores exemplares; depois aplicar o formão à lapa com rapidez e exactidão, caso contrário ela fecha; depois arrancar com a luva as maiores lapas, as quais quase sempre se encontram em reentrâncias de rochas pouco acessíveis; ainda ter muito cuidado com o avanço do mar e a ondulação mais forte; por fim o peso dos sacos e o seu transporte, que dificultam os movimentos.
Numa hora e meia, enchi o sacode rede de mexilhões e de lapas e ainda tive oportunidade de descobrir uns búzios e umas ostras. 

O Adérito fez o mesmo, mas com pequenos polvos e ainda caçou uns camarões para servirem de isco à pesca, que colocou numa caixa com água.
Depois, aliviei do esforço com um belo banho, mas de calções apropriados, naquela maravilhosa piscina natural. Não há melhor! Delícia de vida gozada no meio de tudo.
Em casa, tratei de cozer todo aquele marisco, enquanto o Adérito se afadigava à volta dos polvos e metia no aquário os camarões a fim de os conservar vivos. Ainda lhe deu para correr à Somec a enganar mais um polvo, mas grande. Tinha-o lá visto a serandar na véspera. Com uma sardinha engaiolada numa engenhoca apropriada, o polvão deixou-se facilmente enganar. Este Adérito surpreende-nos a cada passo.

Depois, sentámo-nos a aperitivar com mexilhões e lapas, regados com muito limão e cerveja fresca.
O sabor destas iguarias deu-nos mais alma de pescador, completou-nos, pois não se pesca só com cana e carreto. Soltem a imaginação e imaginem os nossos antecessores primitivos a agirem exactamente como nós, nos primórdios do tempo. Só não possuíam fogão, nem panelas, nem o restante aparato dito civilizacional…Assavam na brasa… Não sei se tinham limão…

ILHA, Setembro de 2014
Luís M. Borges