quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

113. MEMÓRIAS DO MAR

VIVER NOS BRAÇOS DA ILHA

1.Ria mais que formosa


O mapa é elucidativo  acerca da grandeza da Ria Formosa. A própria designação caracteriza-a muito bem, dado ser um dos mais belos lugares de Portugal, na sua especificidade. Vivi 15 dias por aqui.

2. O desenho do Farol


A Ilha do Farol insere-se neste espaço maravilhoso, justamente o mais a sul de Portugal continental.
É  servida por carreiras fluviais que a ligam a Faro e a Olhão.A sua mancha edificada é mínima, sendo habitada permanentemente por meia dúzia de pessoas e tendo o seu pico de ocupação no período estival.
Os paradigmas desta Ilha são o imponente farol de Sta Maria, a bela praia de areia branca e o concorrido molhe.





De 15 a 30 de Setembro pesquei, nadei, comi, dormi e convivi com o meu amigo Adérito. Foram 15 dias de muito sol, água salgada, ar puro e muitos peixes.

3.Mestre Sabino


Há muitos anos que conheço Mestre Sabino. É um velho senhor da Ilha, respeitado no mundo da pesca. Um pescador carismático.
Já quanto a carisma, outros profissionais da pesca artesanal designados como “Os filhos da Culatra”, não se importam muito com dignidade profissional. Até colocam redes no meio do canal e a partir das rochas do molhe, com as autoridades feitas e de olhos fechados.
Outros pescadores são os de tipo lúdico. É nestes que me insiro, praticando a pesca no molhe com o meu amigo Adérito.

4. O admirável mundo novo


Dizem que o encanto e o sossego da Ilha está a acabar. Porquê?
São aos milhares, invadindo tudo. Atulham os barcos da carreira, fazem bichas nas bilheteiras, enchem os restaurantes locais, inundam a praia, passeiam no molhe, insinuam-se mostrando superioridade, ostentam uma simpatia falsa e dinheiro. É demasiado: estas bactérias voam, nadam e têm pezinhos…
Também acho que a nossa querida Ilha do Farol irá perder todas as suas virtudes com esta avalanche turística, com esta marabunta.

5. Adérito, o pescador atleta


A casa, que o Adérito aluga anualmente na Ilha do Farol, encontra-se implantada no local certo. Tem todas as benfeitorias à volta: A Associação, o Restaurante “À-do-João”, a praia e o molhe a dois passos, bem como a doca. 
Tem igualmente óptimas condições de alojamento, com serventias adequadas ao fim para que é alugada.
É em Setembro, que o Adérito divide o mês: os primeiros 15 dias para a família e amigos íntimos; os últimos 15 dias para a pesca comigo. Esta gentileza anual do Adérito comove-me, bem identificativa da força da amizade.
E corre e pesca que se farta…dou um exemplo:
- Borges, vou correr um bocado.
Passadas que foram duas horas apresenta-se com meia dúzia de sargos (um deles com mais de 1 kg). 


O que será que faz correr tanto e pescar tão bem o Adérito? Penso que sei, mas não digo!

6. Ilha Geometria 

Quadrado 


Nada de especial aconteceu no Decathlon ao ter adquirido uma mochila com assento. Que poderia aliás ter acontecido? Andava há bastante tempo a matutar no meu conforto com 4 imagens a martelarem-me insistentemente: - Sentadinho no molhe - Cana em riste - Sorriso aberto - Relaxamento total. 


Mas, o meu conforto não se limitava a esta cena quadrada do banco. Havia mais geometria, se havia… 

Duas linhas paralelas 


Eu e o Dr Adérito corremos com as canas paralelas. Nem podia ser de outro modo, pois o molhe assim nos proporciona esse efeito. O molhe é um longo paredão com duas rectas e um cotovelo sensivelmente ao meio. Ambos pescamos para os mesmos lados juntos (mar ou ria), sejam sargos, cavalas, bem como outras espécies. 


Em ocasiões bem definidas impostas por marés, horas e ventos, o Adérito vai sózinho tentar pescar robalos, bailas e anchovas, enquanto eu tento a pesca fácil com bóia às “viúvas”, às taínhas e até às “picas”. Quando assim acontece, a geometria torna-linear.


Triângulos 


Há momentos em que se arranjam triângulos: triângulos de peixes. Fotos, triângulos de conchas, triângulos de coisas vulgares, triângulos de pessoas… Eu e o Adérito somos muito triangulares, para além de paralelos ou lineares. Insistimos na triangulação quando vamos à Associação ver futebol com um amigo e afogamos os desaires futebolísticos com 3 cálices de Amêndoa Amarga.

Círculos 




Aparecem constantemente quando comemos. Comecemos pelos pratos recheados de bela comida de uma variedade intrigante. Fotos. Reparem bem nas imagens. O círculo que mais me encanta chama-se o “Círculo robalo”, seguido do “Círculo sargo” ou do “Círculo anchova”, até do “Círculo biqueirão”, camarão, etc. Depois, vêm os “Círculo do copo”, da chávena… Refira -se ainda os Círculos dos tachos, das panelas e das frigideiras, muito importantes… 

Retângulos 


A cama. A minha cama onde repouso das fadigas agradáveis da pesca. A mesa. A nossa mesa onde nos deliciamos com petiscos e onde organizamos e preparamos os materiais de pesca. Outras geometrias Isto de se ver o mundo através da geometria tem muito que se lhe diga. Euclides foi primeiro, vindo depois Descartes e muitos outros até ao presente. Matéria interessante. 

7. Olho de peixe


Os peixes ocuparam todos os nossos alvores e entardeceres, porque é nestas alturas que eles “comem tudo e não deixam nada”. Assim fosse na sociedade humana. Viriam bem presos nos anzóis…

E como pescávamos?


- Era ao fundo com chumbadas de 60/70 grs, canas e carretos fortes, fios multi e mono e iscos variados; Era à bóia pesada (25/30/40 grs) a 10/20/30 metros de profundidade- Era à bóia ligeira (5/10 grs); Era ao “spinning” com amostras e pingalins.

E que espécies? 




Era o incrível peixe-porco, essa notável espécie pré-histórica; Era o feioso charroco, com o seu grunhir caraterístico; Era a inocente tainha, presa sem dó nem piedade, nos momentos vagos; Era a impertinente e voraz dobrada (mais conhecida por “viúva”), a antecipar-se no ataque aos iscos; Era o desejado sargo, um príncipe do molhe, ansiosamente desejado pela maioria dos pescadores; Era a requintada dourada (a tal espécie de que gosta de comer à mesa), a fina flor da Ilha; Eram os amados robalos e bailas, para quem a disciplina horária, obrigava os pescadores a cumprir horários; Era a violenta anchova, detentora do troféu “melhor lutadora”, exclusiva de pescadores atentos e arrojados; Era a grandeza da corvina e terror das tainhas, só alcançável por pescadores de elite; E muitas mais espécies. Seria fastidioso enumerá-las.


8. Filetes de peixe

O arroz malandro de tomate e pimento encaixa muito bem com filetes de peixe-porco.




Ei-lo imponente e estranho ainda vivo; ei-lo vestido de tule; ei-lo nu e finalmente transformado em gostosos filetes. A pesca tem disto. Este peixe deu esta telenovela em 4 episódios, um exemplo cabal da realidade transformada.
Como será a novela das Chamuças?


Ainda não me referi ao vinho…alentejano…a condizer com o contexto. Este, bebido que seja mais um copito, também nos transforma.

9. Viagem no tempo


Pedi emprestada uma máquina do tempo. Viajei até ao Farol em 2019, a pensar nos braços da Ilha, aquela que me envolve.
Se lá fui por breves momentos é porque lá irei de novo no próximo ano. É a verdade antecipada.

Ilha do Farol, 17 a 31 de Outubro de 2018
Luís M. Borges


112. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

ALJEZUR 

O OCHI foi pescar

1.Contexto

Em Aljezur pesca-se, para além de se comer bem e de se poder fazer praia. Certamente, que um robalo pescado cedinho, recebe honras de rei na mesa de qualquer plebeu. Mas, neste período do ano, não existem em Aljezur plebeus, só turistas e alugantes  de casas, pelo que se não comerem robalo, comerão carapau, ou sardinha ou até cavala. 
O Sónia quis ir de férias para esta bonita terra e foi acompanhado pelo genro e sogra. O Ochi também foi. Acontece, que o genro sou eu, o tal pescador e a sogra a Licas. A minha Sónia aprecia a beleza das praias. A Licas bronzeia-se. Já o Charpei dedica-se essencialmente a uns prolongados repousos, a exigências de basta comida à horinha certa e a três  percursos de passeata a marcar território. 

2. Seres humanos?

Durante as minhas andanças por Aljezur reparei que havia dois tipos de cães a passearem-se: os que passeavam de coleira e trela e os que passeavam de coleira mas sem trela, ou seja em liberdade obedecida. Igual aos dois tipos de seres humanos existentes neste planeta. 
Noutra andança, verifiquei que os aljezurenses queixavam-se dos preços altos das “coisas”, mas a maior parte deles alugava as suas casas e quartos a preços exorbitantes. É a pobreza meu amigo, a pobreza...
Na andança da vertigem de se fazer praia, constatei a verdade. Aqueles esqueletos, os supra adiposos, os mal construídos, as bonitas e os jeitosos, os velhos e os novos, mostravam-se todos tal e qual, apresentando-se com uma naturalidade estranha. 
Em casa deles fecham as janelas, as cortinas e as persianas. Dizem-se recatados…
Naquelas andanças pelos restaurantes, consegui descobrir o ardil: Comida biológica apresentada segundo uma genuína tradição local. Que furor! 
Eu não serei um gajo biológico e não terei a minha maneira de ser? Qual é a novidade?
Nas andanças ditas culturais, ouvi pessoas a dizerem que em Portugal já visitaram mais de 150 igrejas e mais de 30 castelos. Chixa, é demais, hem? 

3. Relatos

E visitaram quantas vezes bibliotecas, museus e algumas “ilhas” da cidade onde moram? E visitaram a ponte centenária do rio poluído da aldeia deles?
Na minha andança favorita, a da pesca, só constatei segredos e êxitos desmesurados. Segredos dos locais secretos e das técnicas de pesca e gabanços de grandes capturas. 
Aquelas canas grossas e muitos peixinhos do tamanho de maços de cigarro, dizem tudo. É outra vez a miséria meu Caro?
Mas, as coisas que mais me encantaram foram: 
- A nomenclatura: Malavada, Maria Vinagre, Vale de Alhos, Cerca dos Pomares, Vale da Nora das Árvores, Barranco da Vaca, Espinhaço de Cão, Pincho, etc. Fora de série.
- A beleza: primeiro Odeceixe e a sua harmonia de casinhas brancas – um presépio. Depois as praias – paraísos terrenos (Carrapatelo, Arrifana...). Por último o ar e a luz – a pureza no seu máximo esplendor. Até acho que a maior parte dos portugueses não merecem ter estes milagres, pela insensibilidade que demonstram.

4. As gentes

Na ida, parámos num café, já próximos de Aljezur na estrada 120. Esfomeados. Que havia para comer? 
- Só sandes de presunto, queijo ou chourição - respondeu-me a jovem mulher com uma criança ao colo detrás do balcão a sorrir. Teve que ser e não foi pela fome, foi pela naturalidade. Brindei com uma ginginha maravilhosa (da Serra da Extrela).
Quando vimos a casinha aceitámos com resignação, sobretudo o íngreme calçadão e ficámos desiludidos com uma vizinha octagenária, que começou a vociferar connosco ( mas, compreendemos, demência…)
Fomos então dar uma volta depois de termos arrumado os trecos. Descemos com cuidado a inclinada ruela e chegados à zona do Mercado Municipal recebemos com amor e carinho a saudação duma alemã já entradota, que chamou Porco ao nosso cão Ochi. Deu para entender que a doidice também morava aqui.
Entabulei com a dona do café uma conversa informativa acerca de produtos locais e onde os poderia comprar (mais à frente esmiuçarei este tema), tendo ficado agradavelmente surpreendido com a abertura e simpatia da senhora. 
Já tive indicações sobre pesca. O informador pescou só 2 sargos. Disse que ao amanhecer é melhor. Obrigado. Essa, eu sei..

5. Às compras

De lista com o tablete. Sou moderno, hem!
Nos primeiros itens da lista constava o peixe, seguido de fruta, legumes e pão. Fomos ao Mercado Municipal. Gostei. Pequeno, agradavelmente organizado e dotado de produtos locais de alta qualidade. O peixe entusiasmou-me. Desde peixes enormes como os meros, corvinas, pargos, passando pelas moreias, sargos, douradas, robalos, cantarilhos, salmonetes, sardinhas, cavalas, carapaus, até aos mariscos tais como os percebes, amêijoas, mexilhões, lapas, navalheiras e longueirões a maravilhosa sensação das espécies  frescas e selvagens agarrava-nos. Não resisti a comprar um robalo e uma dourada com um quilo cada. 
Depois fui aos legumes e à fruta. Batata doce, coentros, salsa, manjericão, alface, orégãos, ameixas pretas, melancia e melão, figos, foram os produtos da terra escolhidos. Felizes, ao lado comprámos pão de Rogil. 
Por último, visitámos o Intermarché a fim de adquirismos carne, massa, arroz, fiambre, queijo, vinho, enfim…aquelas coisas corriqueiras. Muito grande esta superfície e alinhada de turistas. Só não havia palha...

6. As praias

Lindas, únicas, inesquecíveis. Vento forte quanto baste, água fria sem solução, restaurantezinhos agradáveis e com boa comida, difíceis os acessos e impossível o estacionamento. Gostei destes desafios.
A praia que me apaixonou foi a de Zabial. 

7. O pão 

O pão,  a batata doce, os tremoços,  as azeitonas, etc, compradas no mercadinho tradicional...


...de Agosto de 2018
Luís M. Borges

terça-feira, 11 de setembro de 2018

111. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



“APESAR DOS APESARES”…*


Apesar dos apesares


Neste sábado, pesquei em várias realidades, porque não fomos à pesca. Com um mar de aquário e condições meteorológicas difíceis de igualar, NÃO FOMOS À PESCA.

Mesmo assim decidi ir pescar, mas em várias realidades.




1.Realidade inventada




Com que prazer observar fotografias de enormes peixes, nos mais variados mares: peixes-vela, atuns…

Não me interessou, se foi verdade que eu os pesquei, preferindo a fábula de os ter pescado. O meu interesse era inventar - que pesquei enormes peixes - e sentir aquela paixão…


E continuei…



2. Realidade aumentada



Aumentei o tamanho dos peixes, ampliei os pormenores, a força destes monstros, como fez Hemingway no seu célebre livro “O homem e o mar”. Pequenos detalhes passaram a ser grandes pormenores.

Senti-me bem, senti-me mais pescador, senti mais o mar.

Depois…



3. Realidade mediática



Necessitei de imaginar as notícias nos jornais, as reportagens nas TVs, as entrevistas, a fama…por ter conseguido pescar tão grandes peixes.


E ainda…



4. Realidade virtual



Utilizando a tecnologia, peguei nos meus óculos de realidade virtual, criei um mundo da pesca visual imaginário, com as minhas próprias leis e normas. Que óptimo! Passei horas a deleitar-me.

Porém…


5. Realidade física e objectiva


A única realidade, que não ignorei…


Acordei para o mundo autêntico, aquele que os nossos sentidos verdadeiramente apreendem, sem qualquer tipo de artifício.

Menorizei esta realidade. Não lhe liguei. Sabem porquê? Porque não fui realmente pescar neste dia excepcional.


E vinguei-me...


*Esta calinada foi proferida por Sofia Ribeiro. Achei interessante.


Senhora da Hora, 08 de Agosto de 2018

Luís M. Borges

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

110. MEMÓRIAS DO ALTO MAR


CODORNIZES


1.Quatro + um

Estas “galinhas pequeninas”, como lhes chamava a minha filha Sónia quando era pequena, apareceram maravilhosamente apresentadas no barco neste dia de pesca, a partir de uma proposta surpreendente…por parte do Forte. Mas, a odisseia que se seguiu para a concretizar merece ser apresentada, pois teve organização aprimorada e rigorosa…a quatro. Vou contar:

- Eu, Borges, encomendei-as na quinta-feira no Talho do Londres da Senhora da Hora, tendo-as ido levantar na sexta feira às 09h00. Comprei 16 codornizes.

- O Cheta prontificou-se a ir comigo a Ermesinde entregar as codornas em casa do Óscar, à sua simpática sogra. Eram 10h00.

- Neste mesmo dia, após chegar do emprego, o Óscar temperou-as e cozinhou-as com aquele seu esmero habitual.

- No barco o Forte pagou-as, pois era a vez dele de apresentar o almoço.

Quanto ao 5º elemento da equipa, o Malheiro, deve ter pensado:

- Codornizes? Mas isso tem alguma coisa de comer? 


Disse que queria incorporar a equipa realizadora, pois ficar de fora nem pensar, afirmando de seguida no gozo, que as iria comer e apreciar.

2. Os maestros


Sair para o alto mar em dia em dia de dádiva da natureza, não se iguala a nada. Naquela meia luz antes do alvorecer, voavam as gaivotas em silêncio, ainda no sonho do dia; o horizonte ainda se ocultava em indefinição, mas a terra onde vivia a humanidade, brilhava escura ponteada de luzes estalejantes; o mar, esse portento do planeta, distendia-se indolente e acolhedor à nossa volta; o aroma da maresia, entrava-nos pelas narinas, fresco como um desejo sôfrego; a temperatura oferecia-se a todos os seres que fossem delicados, como um beija-flor; os sons, esses maestros que dão timbre ao silencio, viram parar o vento, o marulhar das ondas, os gritos dos pássaros, o trabalhar do motores dos navios e até as vozes dos pescadores. Nada de sons. Neste dia o maestro não regia concerto algum.

3. A desdita com remédio


Mais adiante, quando o sol já se tinha imposto, cinco seres humanos continuavam a fazer-se à pesca. Malogrados nessa intensão, disfarçavam como podiam a desdita, em conversas de galhofa. Estavam bem-dispostos, apesar de não haver “caça”, talvez influenciados pelos tesouros de harmonia natural que os rodeava. Esta capa influenciadora, dizem que limpa a cabeça, desanuvia tristezas, faz esquecer problemas e até ajuda a curar maleitas. 

4. O mar só dá o que tem


De quando em vez (desculpem esta expressão) alguém proclamava peixe. O Cheta fez três sargos em simultâneo; o Borges trouxe uma pata-roxa; o Óscar a maior choupa; o Forte um grande sargo e o Malheiro 3 cavalas.

Em discórdia moderada, com a confusão de estralhos enrodilhados às vezes a três, gerava-se basta opinião. O Cheta lamentava as retenidas perdidas, o Borges insistia no corte de tesoura, o Óscar só queria ajudar a desmalhar (ou não tivesse trabalhado na confeção), o Forte pegou num fio e o Malheiro (o prevaricador) acusava-me a mim e ao Cheta como culpados da crise. Com mais ou menos bulício e falatório, lá se iam resolvendo as contendas.


Mas peixe é que não aparecia. Havia pouco. De quatro poitadas encheram-se duas caixitas.

Refira-se como opinião pessoal, que estes 5 pescadores elitistas, se abdicassem deste estatuto, talvez tivessem tido a oportunidade de também poderem gabar-se na Marina (como ouvi outros a gabarem-se) de terem enchido caixas de fanecas, carapaus e fanecas.

Os ditos elitistas, ou seja, NÓS os 5, queremos só escamas. Mais nada. Ora, têm de se convencer do seguinte:

- O mar só dá o que tem.

5. Escutamos os peixes. Falta falar com eles.


Era uma vez um pescador, que se gabava de perceber a linguagem dos peixes. Por conseguinte, quando ia pescar no seu barquito para o alto mar, passava horas a ouvi-los falar, esquecendo-se até de pescar, tal o seu vício em escutar os seres marinhos.

Convidei-o a embarcar connosco no Fosmar. Ele aceitou com entusiasmo.

Apoitados numa das marcas, pedi ao Óscar:

- Vou pedir ao António que nos diga que peixes estão no fundo. Desligue a sonda. O Óscar assim fez.

O António, abriu a porta traseira do barco, deitou-se com a cabeça junto à água e pediu silêncio. Passados 5 minutos começou a rir-se e eu perguntei-lhe porque se ria. Ele respondeu se queríamos que ele retransmitisse as conversas dos peixes. Todos anuíram.

Daí a instantes, começou a narrar a conversa, que estava a ouvir entre os peixes.

- És tão lento – dizia o carapau ao sargo.

- És demasiado pequeno e insignificante – afirmava a choupa ao serrano.

- Tens de fugir de mim – alertava o congro à faneca.

- Não me roubes a minha comida – ameaçava o pargo à boga.

- És tão estúpida – insultava o goraz a pequena sardinha.

- Por que és tão lindo? – murmurava o besugo ao “peixe-piça”.

- Amo-te – desabafava o polvo para o caranguejo.

- Olá, posso também conversar convosco? Era o tubarão.

O António gritou: - Não é que fugiram todos.

Esta conversa foi uma revelação. Fragmentou-me. A partir deste dia irei tentarei  perceber esta nova dimensão, com a ajuda do Santo António. Talvez esta intenção esteja para lá dos meus limites.



Sra da Hora, 01 de Setembro de 2018

Luís M. Borges




quarta-feira, 22 de agosto de 2018

109. MEMÓRIAS DO ALTO MAR


Fandango


Foi em Viana...
1.Aljezur


Fui pescar com praias nos olhos. Com as praias de Aljezur. Naquelas areias beijes, naquelas arribas negras, naquelas rochas ficcionistas, naquele ar puro, naquelas águas refrescantes. Dez dias de pura delícia.
Neste dia, o alto mar nada tinha de especial a não ser bandos de mascatos e de paínhos. O calor também era o de Agosto. Portanto, só  me restava acomodar-me à rotina.

2.Gorazes


Sim. Fomos aos divinos, a ver se davam. Só apareceram os cretinos dos carapaus em fúria desmedida. Porque eram mais rápidos, não deixavam que os gorazes chegassem aos iscos, atacando num frenesim inabitual os anzóis bem dotados com nacos de sardinha.


Contudo, quando se distraíam, la vinham uns gorazes. O Malheiro foi exemplar. Enquanto nós os quatro, a pescarmos na ré, concentrávamos os iscos e por consequência a carapauzada, o Malheiro na proa, livre da peste grisalha ia atraindo a elite…Foi ele que possibilitou levarmos para casa 3 gorazes cada um.

3. O guincho 


Avariou. Içar 200 metros de âncora, pedra e cabo, acabou por queimar o aparelho. Valeu a bóia. Não foi um acidente, foi uma ocorrência, pois o Óscar nem se incomodou.
Isto da pesca no profundo traz problemas novos.

4. Dia de bife grelhado 



O Cheta decidiu e bem comprar uns bifes da cernelha. Só disse ao talhante que queria bifes tenros, mais nada, pelo que se comeram bifes à maneira e gostosos. A massa consolidou e o verde branco fresquinho foi quebrando o calor.
Da próxima,  sairão umas codornizes. Palavra do Forte. Assim será.  Há umas nuances, nesta importante e agradável promessa, que serão na altura própria registadas. Gostei sinceramente da atitude: ou comem todos ou não come alguém um dia destes, ou então cada um trará a sua própria marmita. Claro que tal nunca irá acontecer, a da marmita e a da não come alguém um dia destes.

5. O calor cansa 


Refrescar

Sinceramente. Cansaram-me os carapaus com a insistência. Mas mais me cansou o calor duro. Nem uma brisa a suavizar. Todos nós nos protegemos com untadelas e chapéus de abas largas anti UV. Contudo, mesmo assim, tais defesas não evitaram a tostadela, de vermelhos que ficámos e com receio das consequências. Ainda bem que neste mar alto nada arde, caso contrário, teríamos 5 tochas a brasear, tipo Monchique.

6. No chão 


Lindas...

Sapatilhas e alcatifa não rimavam. Umas cor de laranja, outra negra. Umas novas, outra a desfazer-se. Umas objecto de atenções e de críticas venenosas,  outra perante a necessidade urgente de substituição, objecto de indiferença. 

Rotinhas...rotinhas…

Perguntei ao Malheiro, se não leiloavam alcatifas. Respondeu que não, só sapatilhas, roupa e relógios.  Este leilão da Polícia é demasiado restritivo.
E assim foi “No chão” o titular de extremos.

Marina de Leça, 15 de Agosto de 2018
Luís M. Borges




terça-feira, 21 de agosto de 2018

108. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

Pesca científica

1.Serenidade


Sentei-me no sofá da minha sala. Distraí-me com uma série de pequenos afazeres, ouvi música clássica, admirei o meu cão enrolado…mas, sobre a pescaria marcada para o dia seguinte nem lembrei. Uma estranha e invulgar tranquilidade, que até condicionou, presumo, o meu suave e antecipativo acordar (acordei exactamente às 04h18, ou seja, 2 minutos antes de o despertador digital se ter pronunciado).

- Que extraordinária sincronização vivencial – pensei eu – Estará tudo bem comigo?

2. Mulheres gordas e louras


Ao chegar às 05hh0 à Marina de Leça, verifiquei que havia por ali, um trânsito inusitado de turistas. A malta dos veleiros ou não lhes apeteceu dormir ou tinham ido para os copos. Mulheres gordas e loiras, homens altos e magros a linguajarem em alemão, inglês e francês, circulavam afoitos pelos passadiços e em frente à Recepção da Marina.

Desinteressei-me imediatamente pelas mulheres gordas e louras, quando o Óscar, o Cheta e o Malheiro, estacionaram os seus carros à entrada do portão de acesso ao nosso cais.

3. Uma pesca…nhã, nhã, nhã


Navegámos e pescámos em cinzento. Sabem, aquela cor que indefine tudo, mesmo a pesca. Durante a primeira hora, apanharam-se uns peixitos, em quantidade inadequada às pretensões dos quatro exigentes pescadores: uns carapaus cinzentos, umas choupas cinzentas e os habituais serranos e algumas fanecas (estes espécies a pintarem a tela verde em fundo cinzento). 


Zarpámos dali.

4. Queijo fatiado


Ovos cozidos, bolinhos de bacalhau, fiambre e queijo fatiado. Portanto, margem para se tentar estabelecer o equilíbrio entre vários produtos de origem animal diferentes: galinha, bacalhau, porco e vaca. Eu ataquei literalmente os bolinhos do Óscar e os meus ovos. Sobrou muito queijo fatiado. Fartura a mais na dispensa, carência nas caixas de peixe.


Foi isto que se levou desta poitada – um pequeno almoço pleno de calorias e muito queijo fatiado – pois de pesca, como perguntaria o curioso: - “viste-la?”


Zarpámos de novo, embora regressando ao local da primeira poitada, que ao menos deu, quando lá estivemos, qualquer coisita.

Valeu. Primeiro, começaram as fanecas gordas, na sequência umas choupas e até dois ou três sargos. Não se fizeram rogadas as sardas, daquelas valentes pelo tamanho, para contentamento meu e do Malheiro e arrelia do Óscar.


O tempo ia-se mantendo igual a si próprio, naquela indefinição descolorida.

5. A luz brilhou na escuridão



Era meio dia quando o Óscar começou a descascar batatas. Às 13h00 saiu um coelho estufado, logo empratado, com aquele aroma tão tradicional e com um aspecto apetitoso. Quase a chegarem as 14h00 fumegou um café, que por eventual distração estava a passar despercebido. Estranhei…parece-me que acabar uma boa refeição sem o confortante cafezinho é injusto. Talvez que não havendo café, se torne inviável e desajustado estar a comer queijo e doces como sobremesa, para além, diria, de se profanar um cálice de whisky. As coisas não funcionam quando falta a magia da luz. Atitudes cinzentas a condizerem com o estado do tempo e talvez até a influenciarem-nas.

6. O máximo divisor comum


A maior faneca

O Óscar lá teve de fazer mais uma vez o sacrifício de dividir a peixarada capturada, em quatro doses.

- Duas para aqui; mais uma para ali; levas uma mais pequena desta vez; levas agora um peixe maior…

No final da operação “Divisão” estava como sempre tudo certo e de acordo. O Óscar é o “Máximo” a dividir comumente o pescado. Assim, quando chego a casa, conto o número de espécies que me couberam e multiplico por quatro, sabendo o número total de peixes capturados. Também fico a saber quantas peças por espécie se pescaram. Os diversos tipos de  peso também ficam registados.


A verdadeira matemática nunca se afasta da realidade e da verdade. Digam lá, se a pesca científica, não é um facto.

Leça, 13 de Julho de 2018

Luís M. Borges