Sentei-me no sofá da minha sala. Distraí-me com uma série de pequenos
afazeres, ouvi música clássica, admirei o meu cão enrolado…mas, sobre a pescaria
marcada para o dia seguinte nem lembrei. Uma estranha e invulgar tranquilidade,
que até condicionou, presumo, o meu suave e antecipativo acordar (acordei
exactamente às 04h18, ou seja, 2 minutos antes de o despertador digital se ter
pronunciado).
- Que extraordinária sincronização vivencial – pensei eu – Estará tudo
bem comigo?
2. Mulheres gordas e louras
Ao chegar às 05hh0 à Marina de Leça, verifiquei que havia por ali, um
trânsito inusitado de turistas. A malta dos veleiros ou não lhes apeteceu
dormir ou tinham ido para os copos. Mulheres gordas e loiras, homens altos e
magros a linguajarem em alemão, inglês e francês, circulavam afoitos pelos
passadiços e em frente à Recepção da Marina.
Desinteressei-me imediatamente pelas mulheres gordas e louras, quando
o Óscar, o Cheta e o Malheiro, estacionaram os seus carros à entrada do portão
de acesso ao nosso cais.
3. Uma pesca…nhã, nhã, nhã…
Navegámos e pescámos em cinzento. Sabem, aquela cor que indefine tudo,
mesmo a pesca. Durante a primeira hora, apanharam-se uns peixitos, em
quantidade inadequada às pretensões dos quatro exigentes pescadores: uns
carapaus cinzentos, umas choupas cinzentas e os habituais serranos e algumas
fanecas (estes espécies a pintarem a tela verde em fundo cinzento).
Zarpámos dali.
4. Queijo fatiado
Ovos cozidos, bolinhos de bacalhau, fiambre e queijo fatiado.
Portanto, margem para se tentar estabelecer o equilíbrio entre vários produtos
de origem animal diferentes: galinha, bacalhau, porco e vaca. Eu ataquei
literalmente os bolinhos do Óscar e os meus ovos. Sobrou muito queijo fatiado. Fartura
a mais na dispensa, carência nas caixas de peixe.
Foi isto que se levou desta poitada – um pequeno almoço pleno de
calorias e muito queijo fatiado – pois de pesca, como perguntaria o curioso: -
“viste-la?”
Zarpámos de novo, embora regressando ao local da primeira poitada, que
ao menos deu, quando lá estivemos, qualquer coisita.
Valeu. Primeiro, começaram as fanecas gordas, na sequência umas
choupas e até dois ou três sargos. Não se fizeram rogadas as sardas, daquelas
valentes pelo tamanho, para contentamento meu e do Malheiro e arrelia do Óscar.
O tempo ia-se mantendo igual a si próprio, naquela indefinição
descolorida.
Era meio dia quando o Óscar começou a descascar batatas. Às 13h00 saiu
um coelho estufado, logo empratado, com aquele aroma tão tradicional e com um
aspecto apetitoso. Quase a chegarem as 14h00 fumegou um café, que por eventual distração
estava a passar despercebido. Estranhei…parece-me que acabar uma boa refeição sem
o confortante cafezinho é injusto. Talvez que não havendo café, se torne
inviável e desajustado estar a comer queijo e doces como sobremesa, para além, diria,
de se profanar um cálice de whisky. As coisas não funcionam quando falta a
magia da luz. Atitudes cinzentas a condizerem com o estado do tempo e talvez
até a influenciarem-nas.
6. O máximo divisor comum
A maior faneca
O Óscar lá teve de fazer mais uma vez o sacrifício de dividir a
peixarada capturada, em quatro doses.
- Duas para aqui; mais uma para ali; levas uma mais pequena desta vez;
levas agora um peixe maior…
No final da operação “Divisão” estava como sempre tudo certo e de
acordo. O Óscar é o “Máximo” a dividir comumente o pescado. Assim, quando chego
a casa, conto o número de espécies que me couberam e multiplico por quatro,
sabendo o número total de peixes capturados. Também fico a saber quantas peças por
espécie se pescaram. Os diversos tipos de peso também ficam registados.
A verdadeira matemática nunca se afasta da realidade e da verdade.
Digam lá, se a pesca científica, não é um facto.
Leça, 13 de Julho de 2018
Luís M. Borges




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