terça-feira, 21 de agosto de 2018

108. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

Pesca científica

1.Serenidade


Sentei-me no sofá da minha sala. Distraí-me com uma série de pequenos afazeres, ouvi música clássica, admirei o meu cão enrolado…mas, sobre a pescaria marcada para o dia seguinte nem lembrei. Uma estranha e invulgar tranquilidade, que até condicionou, presumo, o meu suave e antecipativo acordar (acordei exactamente às 04h18, ou seja, 2 minutos antes de o despertador digital se ter pronunciado).

- Que extraordinária sincronização vivencial – pensei eu – Estará tudo bem comigo?

2. Mulheres gordas e louras


Ao chegar às 05hh0 à Marina de Leça, verifiquei que havia por ali, um trânsito inusitado de turistas. A malta dos veleiros ou não lhes apeteceu dormir ou tinham ido para os copos. Mulheres gordas e loiras, homens altos e magros a linguajarem em alemão, inglês e francês, circulavam afoitos pelos passadiços e em frente à Recepção da Marina.

Desinteressei-me imediatamente pelas mulheres gordas e louras, quando o Óscar, o Cheta e o Malheiro, estacionaram os seus carros à entrada do portão de acesso ao nosso cais.

3. Uma pesca…nhã, nhã, nhã


Navegámos e pescámos em cinzento. Sabem, aquela cor que indefine tudo, mesmo a pesca. Durante a primeira hora, apanharam-se uns peixitos, em quantidade inadequada às pretensões dos quatro exigentes pescadores: uns carapaus cinzentos, umas choupas cinzentas e os habituais serranos e algumas fanecas (estes espécies a pintarem a tela verde em fundo cinzento). 


Zarpámos dali.

4. Queijo fatiado


Ovos cozidos, bolinhos de bacalhau, fiambre e queijo fatiado. Portanto, margem para se tentar estabelecer o equilíbrio entre vários produtos de origem animal diferentes: galinha, bacalhau, porco e vaca. Eu ataquei literalmente os bolinhos do Óscar e os meus ovos. Sobrou muito queijo fatiado. Fartura a mais na dispensa, carência nas caixas de peixe.


Foi isto que se levou desta poitada – um pequeno almoço pleno de calorias e muito queijo fatiado – pois de pesca, como perguntaria o curioso: - “viste-la?”


Zarpámos de novo, embora regressando ao local da primeira poitada, que ao menos deu, quando lá estivemos, qualquer coisita.

Valeu. Primeiro, começaram as fanecas gordas, na sequência umas choupas e até dois ou três sargos. Não se fizeram rogadas as sardas, daquelas valentes pelo tamanho, para contentamento meu e do Malheiro e arrelia do Óscar.


O tempo ia-se mantendo igual a si próprio, naquela indefinição descolorida.

5. A luz brilhou na escuridão



Era meio dia quando o Óscar começou a descascar batatas. Às 13h00 saiu um coelho estufado, logo empratado, com aquele aroma tão tradicional e com um aspecto apetitoso. Quase a chegarem as 14h00 fumegou um café, que por eventual distração estava a passar despercebido. Estranhei…parece-me que acabar uma boa refeição sem o confortante cafezinho é injusto. Talvez que não havendo café, se torne inviável e desajustado estar a comer queijo e doces como sobremesa, para além, diria, de se profanar um cálice de whisky. As coisas não funcionam quando falta a magia da luz. Atitudes cinzentas a condizerem com o estado do tempo e talvez até a influenciarem-nas.

6. O máximo divisor comum


A maior faneca

O Óscar lá teve de fazer mais uma vez o sacrifício de dividir a peixarada capturada, em quatro doses.

- Duas para aqui; mais uma para ali; levas uma mais pequena desta vez; levas agora um peixe maior…

No final da operação “Divisão” estava como sempre tudo certo e de acordo. O Óscar é o “Máximo” a dividir comumente o pescado. Assim, quando chego a casa, conto o número de espécies que me couberam e multiplico por quatro, sabendo o número total de peixes capturados. Também fico a saber quantas peças por espécie se pescaram. Os diversos tipos de  peso também ficam registados.


A verdadeira matemática nunca se afasta da realidade e da verdade. Digam lá, se a pesca científica, não é um facto.

Leça, 13 de Julho de 2018

Luís M. Borges


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