quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

112. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

ALJEZUR 

O OCHI foi pescar

1.Contexto

Em Aljezur pesca-se, para além de se comer bem e de se poder fazer praia. Certamente, que um robalo pescado cedinho, recebe honras de rei na mesa de qualquer plebeu. Mas, neste período do ano, não existem em Aljezur plebeus, só turistas e alugantes  de casas, pelo que se não comerem robalo, comerão carapau, ou sardinha ou até cavala. 
O Sónia quis ir de férias para esta bonita terra e foi acompanhado pelo genro e sogra. O Ochi também foi. Acontece, que o genro sou eu, o tal pescador e a sogra a Licas. A minha Sónia aprecia a beleza das praias. A Licas bronzeia-se. Já o Charpei dedica-se essencialmente a uns prolongados repousos, a exigências de basta comida à horinha certa e a três  percursos de passeata a marcar território. 

2. Seres humanos?

Durante as minhas andanças por Aljezur reparei que havia dois tipos de cães a passearem-se: os que passeavam de coleira e trela e os que passeavam de coleira mas sem trela, ou seja em liberdade obedecida. Igual aos dois tipos de seres humanos existentes neste planeta. 
Noutra andança, verifiquei que os aljezurenses queixavam-se dos preços altos das “coisas”, mas a maior parte deles alugava as suas casas e quartos a preços exorbitantes. É a pobreza meu amigo, a pobreza...
Na andança da vertigem de se fazer praia, constatei a verdade. Aqueles esqueletos, os supra adiposos, os mal construídos, as bonitas e os jeitosos, os velhos e os novos, mostravam-se todos tal e qual, apresentando-se com uma naturalidade estranha. 
Em casa deles fecham as janelas, as cortinas e as persianas. Dizem-se recatados…
Naquelas andanças pelos restaurantes, consegui descobrir o ardil: Comida biológica apresentada segundo uma genuína tradição local. Que furor! 
Eu não serei um gajo biológico e não terei a minha maneira de ser? Qual é a novidade?
Nas andanças ditas culturais, ouvi pessoas a dizerem que em Portugal já visitaram mais de 150 igrejas e mais de 30 castelos. Chixa, é demais, hem? 

3. Relatos

E visitaram quantas vezes bibliotecas, museus e algumas “ilhas” da cidade onde moram? E visitaram a ponte centenária do rio poluído da aldeia deles?
Na minha andança favorita, a da pesca, só constatei segredos e êxitos desmesurados. Segredos dos locais secretos e das técnicas de pesca e gabanços de grandes capturas. 
Aquelas canas grossas e muitos peixinhos do tamanho de maços de cigarro, dizem tudo. É outra vez a miséria meu Caro?
Mas, as coisas que mais me encantaram foram: 
- A nomenclatura: Malavada, Maria Vinagre, Vale de Alhos, Cerca dos Pomares, Vale da Nora das Árvores, Barranco da Vaca, Espinhaço de Cão, Pincho, etc. Fora de série.
- A beleza: primeiro Odeceixe e a sua harmonia de casinhas brancas – um presépio. Depois as praias – paraísos terrenos (Carrapatelo, Arrifana...). Por último o ar e a luz – a pureza no seu máximo esplendor. Até acho que a maior parte dos portugueses não merecem ter estes milagres, pela insensibilidade que demonstram.

4. As gentes

Na ida, parámos num café, já próximos de Aljezur na estrada 120. Esfomeados. Que havia para comer? 
- Só sandes de presunto, queijo ou chourição - respondeu-me a jovem mulher com uma criança ao colo detrás do balcão a sorrir. Teve que ser e não foi pela fome, foi pela naturalidade. Brindei com uma ginginha maravilhosa (da Serra da Extrela).
Quando vimos a casinha aceitámos com resignação, sobretudo o íngreme calçadão e ficámos desiludidos com uma vizinha octagenária, que começou a vociferar connosco ( mas, compreendemos, demência…)
Fomos então dar uma volta depois de termos arrumado os trecos. Descemos com cuidado a inclinada ruela e chegados à zona do Mercado Municipal recebemos com amor e carinho a saudação duma alemã já entradota, que chamou Porco ao nosso cão Ochi. Deu para entender que a doidice também morava aqui.
Entabulei com a dona do café uma conversa informativa acerca de produtos locais e onde os poderia comprar (mais à frente esmiuçarei este tema), tendo ficado agradavelmente surpreendido com a abertura e simpatia da senhora. 
Já tive indicações sobre pesca. O informador pescou só 2 sargos. Disse que ao amanhecer é melhor. Obrigado. Essa, eu sei..

5. Às compras

De lista com o tablete. Sou moderno, hem!
Nos primeiros itens da lista constava o peixe, seguido de fruta, legumes e pão. Fomos ao Mercado Municipal. Gostei. Pequeno, agradavelmente organizado e dotado de produtos locais de alta qualidade. O peixe entusiasmou-me. Desde peixes enormes como os meros, corvinas, pargos, passando pelas moreias, sargos, douradas, robalos, cantarilhos, salmonetes, sardinhas, cavalas, carapaus, até aos mariscos tais como os percebes, amêijoas, mexilhões, lapas, navalheiras e longueirões a maravilhosa sensação das espécies  frescas e selvagens agarrava-nos. Não resisti a comprar um robalo e uma dourada com um quilo cada. 
Depois fui aos legumes e à fruta. Batata doce, coentros, salsa, manjericão, alface, orégãos, ameixas pretas, melancia e melão, figos, foram os produtos da terra escolhidos. Felizes, ao lado comprámos pão de Rogil. 
Por último, visitámos o Intermarché a fim de adquirismos carne, massa, arroz, fiambre, queijo, vinho, enfim…aquelas coisas corriqueiras. Muito grande esta superfície e alinhada de turistas. Só não havia palha...

6. As praias

Lindas, únicas, inesquecíveis. Vento forte quanto baste, água fria sem solução, restaurantezinhos agradáveis e com boa comida, difíceis os acessos e impossível o estacionamento. Gostei destes desafios.
A praia que me apaixonou foi a de Zabial. 

7. O pão 

O pão,  a batata doce, os tremoços,  as azeitonas, etc, compradas no mercadinho tradicional...


...de Agosto de 2018
Luís M. Borges

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