1.Ria mais que formosa
O mapa é elucidativo acerca da grandeza da Ria Formosa. A própria designação caracteriza-a muito bem, dado ser um dos mais belos lugares de Portugal, na sua especificidade. Vivi 15 dias por aqui.
2. O desenho do Farol
A Ilha do Farol insere-se neste espaço maravilhoso, justamente o mais a sul de Portugal continental.
É servida por carreiras fluviais que a ligam a Faro e a Olhão.A sua mancha edificada é mínima, sendo habitada permanentemente por meia dúzia de pessoas e tendo o seu pico de ocupação no período estival.
Os paradigmas desta Ilha são o imponente farol de Sta Maria, a bela praia de areia branca e o concorrido molhe.
De 15 a 30 de Setembro pesquei, nadei, comi, dormi e convivi com o meu amigo Adérito. Foram 15 dias de muito sol, água salgada, ar puro e muitos peixes.
3.Mestre Sabino
Há muitos anos que conheço Mestre Sabino. É um velho senhor da Ilha, respeitado no mundo da pesca. Um pescador carismático.
Já quanto a carisma, outros profissionais da pesca artesanal designados como “Os filhos da Culatra”, não se importam muito com dignidade profissional. Até colocam redes no meio do canal e a partir das rochas do molhe, com as autoridades feitas e de olhos fechados.
Outros pescadores são os de tipo lúdico. É nestes que me insiro, praticando a pesca no molhe com o meu amigo Adérito.
4. O admirável mundo novo
Dizem que o encanto e o sossego da Ilha está a acabar. Porquê?
São aos milhares, invadindo tudo. Atulham os barcos da carreira, fazem bichas nas bilheteiras, enchem os restaurantes locais, inundam a praia, passeiam no molhe, insinuam-se mostrando superioridade, ostentam uma simpatia falsa e dinheiro. É demasiado: estas bactérias voam, nadam e têm pezinhos…
Também acho que a nossa querida Ilha do Farol irá perder todas as suas virtudes com esta avalanche turística, com esta marabunta.
5. Adérito, o pescador atleta
A casa, que o Adérito aluga anualmente na Ilha do Farol, encontra-se implantada no local certo. Tem todas as benfeitorias à volta: A Associação, o Restaurante “À-do-João”, a praia e o molhe a dois passos, bem como a doca.
Tem igualmente óptimas condições de alojamento, com serventias adequadas ao fim para que é alugada.
É em Setembro, que o Adérito divide o mês: os primeiros 15 dias para a família e amigos íntimos; os últimos 15 dias para a pesca comigo. Esta gentileza anual do Adérito comove-me, bem identificativa da força da amizade.
E corre e pesca que se farta…dou um exemplo:
- Borges, vou correr um bocado.
Passadas que foram duas horas apresenta-se com meia dúzia de sargos (um deles com mais de 1 kg).
O que será que faz correr tanto e pescar tão bem o Adérito? Penso que sei, mas não digo!
6. Ilha Geometria
Quadrado
Nada de especial aconteceu no Decathlon ao ter adquirido uma mochila com assento. Que poderia aliás ter acontecido? Andava há bastante tempo a matutar no meu conforto com 4 imagens a martelarem-me insistentemente: - Sentadinho no molhe - Cana em riste - Sorriso aberto - Relaxamento total.
Mas, o meu conforto não se limitava a esta cena quadrada do banco. Havia mais geometria, se havia…
Duas linhas paralelas
Eu e o Dr Adérito corremos com as canas paralelas. Nem podia ser de outro modo, pois o molhe assim nos proporciona esse efeito. O molhe é um longo paredão com duas rectas e um cotovelo sensivelmente ao meio. Ambos pescamos para os mesmos lados juntos (mar ou ria), sejam sargos, cavalas, bem como outras espécies.
Em ocasiões bem definidas impostas por marés, horas e ventos, o Adérito vai sózinho tentar pescar robalos, bailas e anchovas, enquanto eu tento a pesca fácil com bóia às “viúvas”, às taínhas e até às “picas”. Quando assim acontece, a geometria torna-linear.
Triângulos
Há momentos em que se arranjam triângulos: triângulos de peixes. Fotos, triângulos de conchas, triângulos de coisas vulgares, triângulos de pessoas… Eu e o Adérito somos muito triangulares, para além de paralelos ou lineares. Insistimos na triangulação quando vamos à Associação ver futebol com um amigo e afogamos os desaires futebolísticos com 3 cálices de Amêndoa Amarga.
Círculos
Aparecem constantemente quando comemos. Comecemos pelos pratos recheados de bela comida de uma variedade intrigante. Fotos. Reparem bem nas imagens. O círculo que mais me encanta chama-se o “Círculo robalo”, seguido do “Círculo sargo” ou do “Círculo anchova”, até do “Círculo biqueirão”, camarão, etc. Depois, vêm os “Círculo do copo”, da chávena… Refira -se ainda os Círculos dos tachos, das panelas e das frigideiras, muito importantes…
Retângulos
A cama. A minha cama onde repouso das fadigas agradáveis da pesca. A mesa. A nossa mesa onde nos deliciamos com petiscos e onde organizamos e preparamos os materiais de pesca. Outras geometrias Isto de se ver o mundo através da geometria tem muito que se lhe diga. Euclides foi primeiro, vindo depois Descartes e muitos outros até ao presente. Matéria interessante.
7. Olho de peixe
Os peixes ocuparam todos os nossos alvores e entardeceres, porque é nestas alturas que eles “comem tudo e não deixam nada”. Assim fosse na sociedade humana. Viriam bem presos nos anzóis…
E como pescávamos?
- Era ao fundo com chumbadas de 60/70 grs, canas e carretos fortes, fios multi e mono e iscos variados; Era à bóia pesada (25/30/40 grs) a 10/20/30 metros de profundidade- Era à bóia ligeira (5/10 grs); Era ao “spinning” com amostras e pingalins.
E que espécies?
Era o incrível peixe-porco, essa notável espécie pré-histórica; Era o feioso charroco, com o seu grunhir caraterístico; Era a inocente tainha, presa sem dó nem piedade, nos momentos vagos; Era a impertinente e voraz dobrada (mais conhecida por “viúva”), a antecipar-se no ataque aos iscos; Era o desejado sargo, um príncipe do molhe, ansiosamente desejado pela maioria dos pescadores; Era a requintada dourada (a tal espécie de que gosta de comer à mesa), a fina flor da Ilha; Eram os amados robalos e bailas, para quem a disciplina horária, obrigava os pescadores a cumprir horários; Era a violenta anchova, detentora do troféu “melhor lutadora”, exclusiva de pescadores atentos e arrojados; Era a grandeza da corvina e terror das tainhas, só alcançável por pescadores de elite; E muitas mais espécies. Seria fastidioso enumerá-las.
8. Filetes de peixe
O arroz malandro de tomate e pimento encaixa muito bem com filetes de peixe-porco.
Ei-lo imponente e estranho ainda vivo; ei-lo vestido de tule; ei-lo nu e finalmente transformado em gostosos filetes. A pesca tem disto. Este peixe deu esta telenovela em 4 episódios, um exemplo cabal da realidade transformada.
Como será a novela das Chamuças?
Ainda não me referi ao vinho…alentejano…a condizer com o contexto. Este, bebido que seja mais um copito, também nos transforma.
9. Viagem no tempo
Pedi emprestada uma máquina do tempo. Viajei até ao Farol em 2019, a pensar nos braços da Ilha, aquela que me envolve.
Se lá fui por breves momentos é porque lá irei de novo no próximo ano. É a verdade antecipada.
Ilha do Farol, 17 a 31 de Outubro de 2018
Luís M. Borges




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