segunda-feira, 5 de outubro de 2015

49. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



A raia cagou nos panados

 
Depois da Ilha, que vos contarei mais tarde, regressado aliás há três dias, eis-me embarcado com os companheiros do costume (menos o Forte),a actuar como se fosse um "robot": com a rotina da partida, com o rumo a tomar, com o mapa do fundo do mar, com o material, com os iscos e com o começo da pescaria.
O mar era uma planura sem fim. Fazia um Outono macio, onde nem o sol crestava.
As lides trouxeram primeiro as fanecas, muitas, todas grandes e gordas. Depois saíram algumas espécies inabituais (uma raia, dois ruivos soberbos e uma pica enorme). Numa terceira fase, dominaram os carapaus e por último (já da parte de tarde) pontuaram os sargos e as choupas.


Pelo meio destas quatro cenas, como vem sendo um bom costume, surgiram o segundo pequeno almoço (presunto, carne assada, panados, pão fresco, azeitonas e minis). Cena curiosa: a raia cagou nos panados do Américo. E mais tarde também surgiu o almoço: papas de sarrabulho, um prémio oscariano, a contrariar o Cheta, em teoria. Quem lhe deu mais na malga foi o Malheiro: quatro doses bem aviadas. É assim mesmo!
Mas, saliente-se, que durante a viagem decorrida desde a Marina ao pesqueiro (das 07 às 08h00), a discussão foi sobre política. Uns a disfarçarem a má consciência com escolhas femininas; outros a argumentarem com lógica útil, uma boa maneira de castigarem a insolência e o logro; um calado, com Deus a seu lado. Uma conclusão: a carcaça de um pão, às vezes, tem mais miolo, que a cabeça da maioria dos portugueses. Infelizmente!





À mistura, um Américo a tossir e a escarrar dejectos de brônquios inflamados. Estas condições deram-lhe duas oportunidades: de mamar o resto do Whisky e ainda de abocar a melhor bagaceira do barco- para limpar a tosse, dizia ele. Em resposta, o Malheiro entoava o hino da alegria "Ai o que o álcool faz a este pobre rapaz" e recontava, a pedido, a anedora do "Pica Miolos".
Reencentrando o discurso, desta vez o Cheta pescou bem. Quando tal acontece, o que é óptimo, o meu casaco verde fica todo lixado. É que ele pesca de pé e eu sentado. Mais, ele pesca atrás de mim. Ora, quando o Cheta traz um, dois ou três peixes, o percurso desta fauna passa-me por cima, primeiro, e depois são desenzolados sobre as minhas costas, pelo que em desespero, os peixes borram-se todos em cima do meu casaco. Sorte malvada! A minha esposa tem-me perguntado:



- Tu pescas de costas? O casaco verde está muito mais sujo atrás do que à frente!
Ao que eu respondo:
- Pronto, está bem. Eu pesco e depois deito os peixes para trás das costas...
Já o Óscar, pesca de frente para o mar. Arranja sempre maneira de lhe sair um peixe singular, para se recrear. Desta vez, foi a tal raia – disse que a pescou pela cona. Chiça...este Óscar é tramado.
Até às 17h00 a animação da malta foi-se tornando evidente. As choupas e os sargos deram connosco e nos intervalos os carapaus competiam. Até com fios velhos encontrados na praia, já causticados pelo sol, pela areia e pela água salgada, foram utlizados com sucesso nesta cruzada de fim de jornada. O cabaz começava a ficar bonito.




A rematar, foi efectuada pelo incansável Óscar a distribuição equitativa do pescado. Teve graça uma raia ao lado de uma pica; foi uma desgraça o conjunto dos serranos e nem de graça foram aceites as bogas!






E assim, se arrumou mais um dia de pesca, diga-se mais um maravilhoso dia de pesca, pleno de encantamento. Foi rir constantemente; foi sentir-me extraordinariamente bem; foi estar muito bem acompanhado,  com amigos sinceros, em jogo de pesca; foi ter a oportunidade de saborear uns mimos gostosos. Só faltou o sorvete!





Uma vez na Marina, arriscaria dizer...tínhamos à nossa espera...um grupo selecto de amigos. Nós gostaríamos, que eles tivessem ido connosco, mas as impossibilidades moram no barco. Pena!
Já em casa, no amanhanço do peixe, a esposa perguntou:
- Porque pescas tantos peixes?
Respondi-lhe:
- Não pesco. Os peixes nadam na minha cabeça. É só orientá-los para os meus anzóis!

Marina de Leça, 3 de Outubro de 2015
Luís M. Borges

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

48. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



1.Tinta negra e carvão

 
Tempo de lulas.
Uma deriva entre Matosinhos e a foz do Douro, no arranca e muda, muito perto da costa.
O palangrote e as toneiras a darem o jeito à forma de pescar, de uma feição simples e prática.
Quase limpinho, com mais ou menos esguicho de tinta negra.
Sol tapado, mar feito lago com vento esquecido.
Foi só uma manhã de cansar o braço, com 16 lulas estendidas na caixa, a lembrarem gelatina.


Quatro luleiros insistentes, quatro masturbadores, mais aqueles seres extraordinários e singulares.
Como num quadro antigo, sem tecnologias de pesca nem roupa apropriada, foram-se revendo as atitudes:
- O Malheiro chegou de calções;
- O Óscar com polo novo;
- O Borges calçando sapatilhas e ostentando uma cana e um carreto;
- O Cheta leve, livre de amêijoas e de engodos.


Depois…às 12h00, a fome falsa em cadência exigente e o barco em lentidão imposta, acostaram na Marina, em acto de encerramento, dando-se por acabada esta meia verdade de um dia de pesca diferente, tendo nós depois ido manjericar umas costelinhas grelhadas e derreter um verde branco.
Foi caro! Bom, em Leça da Palmeira, as churrasqueiras grelham com carvão.

2. Mais tentáculos
Neste segundo dia, fomos de novo à procura das tão apreciadas lulas.
O Forte chegou no seu carro, um meio desportivo preto. Vinha todo ele armadilhado – com a cana dos gorazes roxa e o carreto Ultrega (aquela máquina). Fransi!
- As lulas gigantes vivem noutras funduras!


Viu-se obrigado a pescar ao palangrote, como eu, aliás.
Pescaram-se 17 lulas, com o Malheiro a pontuar alto, fazendo negaça ao Óscar do dia anterior. E com toneiras de saldo, do Decathlon e gritando a desvalorização das mais caras.
O mar manteve-se; o sol foi namorar; o vento desistiu.
Foi mais uma manhã de cefalópodes, tendo sempre nos olhos, a identidade do nosso passatempo preferido.


Uma posta de bacalhau assado na brasa e 4 batatas a murro selaram a jornada num restaurante local.
Gostei! Se gostei. Gostaram todos! Se gostaram.
Num dia destes, o Óscar irá alugar o barco, a jovens turistas inglesas. Elas apreciam a técnica do palangrote? Também quero ir…
3. Lulas e fanecas


Neste 3º episódio de pesca às lulecas, tivemos o prazer de não estarmos sós. Longe da exclusividade, este mar e esta manhã suportaram uma grande quantidade de embarcações, a praticarem o mesmo ofício. Só em frente à Casa Branca, isto no mar de V. N. Gaia, contámos 25, todas elas dotadas de vários pescadores a animarem braços que subiam e desciam em ritmo constante com as toneiras.
Já antes, frente à praia da Luz. Tínhamos espetado nos bicos acerados das nossas toneiras, 4 lulas graúdas. Porque pararam de se magoar, decidimos rumar para além da Foz do Douro. Foram mais 3, sem grande euforia.
Por volta das 11 horas, repetimos o primeiro sítio e caíram mais duas.


Foi então, que num assomo de diversificação, os 3 pescadores da popa pegaram nas respectivas canas e nas “chapas” encheram uma caixita de fanecas, carapaus e cavalas.
Estávamos igualmente acompanhados por 4 pequenos barcos, todos eles a fanecar.
O sol, o mar, a ondulação, o vento e a nossa boa disposição estavam como os dedos de uma mão.


Foi uma manhã agradável, uma manhã em dois momentos, pelo que acabámos por descobrir novas potencialidades para sábados desgarrados. A minutos da Marina a pesca também decide ser produtiva, acrescendo o efeito almoço, uma desobrigação, a qual muitas vezes repetida como obrigação, se tona difícil de gerir, por falta de condições. Vamos lá aceitar, que um barco não é um restaurante e muito menos uma sala de jantar.


Ainda se pode considerar, nesta arenga da substituição de sítio para pescar, a questão crucial ou importante das despesas inerentes.
Quanto à qualidade e quantidade dos exemplares capturados, com certeza será minimalista, embora esta questão a considere eu, diria, menor. Os outros meus colegas não sei!


Nestes termos, fazer de vez em quando uma pesquinha por estes sítios mais próximos, menos profundos e distantes, seja a lular ou a peixar, poderá tornar-se interessante. Podem representar interregnos físicos e mentais. Quantas vezes, por manifesta má vontade do mar ou por ocupações pessoais inultrapassáveis, dedicar uma manhazita a curtir, já faz a diferença para 15 dias de jejum.


Portanto, estas pescarias à lula abriram horizontes, quebraram rotinas – “Matosinhos, terra de horizonte e mar”!
Leça, 31 de Agosto, 2 e 5 de Setembro de 2015
Luís M. Borges

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

47. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

Superlua


O Malheiro acredita, que existe uma influência no comportamento dos seres vivos, provocada pela conjugação dos astros. Ora, justamente nesta data de 29 de Agosto de 2015, sábado, estava a acontecer um fenómeno astral designado por SuperLua. Li algures, que a cultura associa este tipo de eventos a desastres naturais, como sejam sismos, vulcões e tempestades.

Mas, obviamente, que existem outras explicações, uma delas totalmente contrária, assumida por uma astróloga denominada Rosita Iguana (http://rositaiguana.com), que intitula este fenómeno de “Uma Super Lua cheia em Peixes”. Admite mesmo, que esta Lua em Peixes nos conduz a um estado alterado de consciência e nos eleva para além do real. Fantasia ou realidade?
Pois bem, o Malheiro vaticinava, que neste sábado a pesca iria ser fraquíssima, justamente por influência da SuperLua
Enganou-se. O Malheiro apostou na teoria errada. A pescaria, não tendo sido daquelas de pasmar, acabou por ser razoável: deu 4 em 5, quer dizer, quatro caixas de peixe para cinco pescadores.

Porém, por estranheza assim considerada, aconteceram algumas bizarrias, das quais se realçam as mais significativas:
- Avaria no para-brisas do barco, o que dificultou sobremaneira a navegação, dado o nevoeiro cerrado, que se tinha abatido no mar;
- Um mar demasiado sereno, completamente liso, provavelmente assustado com aquela enorme Lua, que ameaçava cair-lhe em cima;
- Uma abundância anormal de “Serranos”, a irritarem os pescadores exigentes do Fosmar;
- “Bodiões-reticulados” enormes, a questionarem a combatividade dos sargos;


- Um reforço alimentar (às 09h30) demasiado impróprio por exagero de sofisticação: ovinhos cozidos de codorniz com molho rosa, espetados em palitos coloridos;

- A descoberta de um amante do basquetebol americano, fã da NBS, vestido a rigor: camisola caviada azul. Por acaso o Cheta teria sofrido a Influência Lunar?
- O Óscar em jeito de “entreteiner”, a insistir constantemente, que não se esquecessem dos rabos… dos peixes, claro!
- O Borges, demasiado agarrado à sua máquina fotográfica, fixando a realidade diversa da vida embarcada (até fotografou botas), esquecendo vezes sem conta e lamentavelmente a cana no descanso, com peixe a debater-se lá no fundo.

Enfim, só faltou um lobisomem, para extravasar na ficção, o rescaldo dos peixes com olhos espantados. 
Ainda bem, que a SuperLua nos obrigou a superarmos neste dia a nossa mediania e a darmos alguma atenção à grandeza e exuberância dos dois planetas, dos quais dependemos.
Leça, 29 de Agosto de 2015
Luís M. Borges

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

46. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O livro das realidades/O livro das possibilidades

 
Sabem, sempre que embarcamos na Marina de Leça rumo ao alto mar, abrimos sempre o livro das possibilidades. Depois, no decorrer da faina e sempre que os peixes resolvem dar atenção ou alhear-se, abrimos o livro das realidades.
Este livro tranca-se quase sempre entre as 16h00 e as 17h00.
Neste dia, 22 de Agosto de 2015, podia ler-se às 07h00 no livro, que pretendíamos efectuar uma pescaria normal. Desta vez éramos somente quatro, pelo que a comodidade na embarcação, com mais largueza e menos impedimentos, certamente que ajudariam a implementar essa possibilidade.
O tempo estava enevoado a tender para chuvaradas. O mar, esse, cavalgava devagar. Se vento houvera, ele tinha escapulido, deixando apenas a recordá-lo uma brisa suave. Portanto, boas possibilidades, em termos de condições ideais, para a prática da pesca de alto mar.

 A Equipa: Óscar, Pedro, Malheiro, Borges

No sítio denominado 04 começaram a sair umas fanecas jeitosas. Lá no fundo, o cardume revelou, que havia concorrência desleal. O balde branco começou a encher-se rapidamente. A realidade começava a afirmar-se, para satisfação do quarteto.
Porém, é sabido que o contentamento descontente (como diria Camões) destes quatro cavaleiros andantes por mares sempre navegados, fazia-se presente na possibilidade de aparecerem outros tipos de capturas, pelo que o afoito Pedro fez descer um engodo mal cheiroso, o qual acabou por resultar. Os carapaus grandalhões motivaram-se, mas certamente defraudados com aquela papa horrorosa, só tiveram uma escolha – atacarem os iscos que aqueles pescadores lhes ofereciam, como alternativa mais saudável, mais saborosa porque fresca, mais bem apresentada, embora em anzóis de luxo. Rapidamente se tornou real um cabaz de grossos e compridos carapaus.
Mas…há sempre um mas…as possibilidades mandam na vida, pelo que a insatisfação dos pescadores, foi assumida com clareza:
- Os sargos, os pargos, os gorazes, as choupas, os besugos, onde param eles? – Questionava o Malheiro, repetindo o Óscar, corroborando o Borges e acenando com a cabeça o Pedro. Houve alguém que afirmou (não me lembro quem), que em breve aqueles estimados peixes, estariam a luzir e a diversificar o cabaz cheio de carapaus. Profecia referida, logo cumprida.
Como foi?
Saliento apenas o mais significativo, dentre o muito que pescaram:
- O Malheiro pescou 2 bons pargos; - O Óscar descarregou enormes choupas; - O Pedro bateu forte nos sargalhões; - O Borges diversificou, até "cagonas" (bogas-do-mar) pescou.


No intervalo desta afirmativa realidade, tocou a sineta para o almoço – uma “punheta” de bacalhau, a qual foi saboreada com requinte. Prato apetecido, vinho bebido, queijo comido, café sumido, whisky repetido. Isto não foi possibilidade. Não. Foi uma autêntica refeição sentida e respeitada.

 A célebre "Punheta" de Bacalhau

Às 16h00 rumou-se para a Marina, pois o isco tinha-se acabado e a quantidade de peixe adequava-se.
A viagem demorou 1 hora. Passou-se este tempo a desferrar. O que é isto? Uma história de pasmar, que passo a contar: Numa altura em que eu desferrava um bom sargo, utilizando obviamente o aparelho denominada desferrador, a cauda do peixe a debater-se bateu na minha mão direita, fazendo saltar para a água o referido instrumento, que imediatamente se afundou. Perante o espanto geral, passados que foram aí uns 5 minutos, não é que o Óscar trouxe preso ao seu fio do carreto o desferrador? Veio, enfiado no fio, pela sua estreita ranhura. Como foi possível? Há coisas estranhíssimas, coincidências espantosas, acertos naturais invulgares, que só a imaginação saberá explicar e a credulidade de quem não presenciou este facto, possa aceitar. O Óscar tem um dom, consegue muitas vezes, o impossível.


O desferrador

 O Mestre Óscar
Já a entrarmos na Marina vimos 2 agentes da Polícia Marítima. Iriam fiscalizar-nos? Não receámos, pois os peixes tinham as medidas regulamentares; as suas barbatanas caudais estavam cortadas; cada pescador não detinha mais de 5 kg de peixe, acrescendo-lhe o maior exemplar; todos levavam as respectivas licenças; o barco, todo ele, apresentava-se conforme a lei exigia.
Quando se cumpre, nada se deve recear, mesmo que as possibilidades de tal acontecer, possam ser desvirtuadas (como nos jogos de futebol com os árbitros).

 Uma Boga-do-Mar. Saíram duas.

Foi um dia bem conseguido de pesca. Às vezes, tudo é possível!

Marina de Leça, 22 de Agosto de 2015
Luís M. Borges