segunda-feira, 7 de setembro de 2015

48. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



1.Tinta negra e carvão

 
Tempo de lulas.
Uma deriva entre Matosinhos e a foz do Douro, no arranca e muda, muito perto da costa.
O palangrote e as toneiras a darem o jeito à forma de pescar, de uma feição simples e prática.
Quase limpinho, com mais ou menos esguicho de tinta negra.
Sol tapado, mar feito lago com vento esquecido.
Foi só uma manhã de cansar o braço, com 16 lulas estendidas na caixa, a lembrarem gelatina.


Quatro luleiros insistentes, quatro masturbadores, mais aqueles seres extraordinários e singulares.
Como num quadro antigo, sem tecnologias de pesca nem roupa apropriada, foram-se revendo as atitudes:
- O Malheiro chegou de calções;
- O Óscar com polo novo;
- O Borges calçando sapatilhas e ostentando uma cana e um carreto;
- O Cheta leve, livre de amêijoas e de engodos.


Depois…às 12h00, a fome falsa em cadência exigente e o barco em lentidão imposta, acostaram na Marina, em acto de encerramento, dando-se por acabada esta meia verdade de um dia de pesca diferente, tendo nós depois ido manjericar umas costelinhas grelhadas e derreter um verde branco.
Foi caro! Bom, em Leça da Palmeira, as churrasqueiras grelham com carvão.

2. Mais tentáculos
Neste segundo dia, fomos de novo à procura das tão apreciadas lulas.
O Forte chegou no seu carro, um meio desportivo preto. Vinha todo ele armadilhado – com a cana dos gorazes roxa e o carreto Ultrega (aquela máquina). Fransi!
- As lulas gigantes vivem noutras funduras!


Viu-se obrigado a pescar ao palangrote, como eu, aliás.
Pescaram-se 17 lulas, com o Malheiro a pontuar alto, fazendo negaça ao Óscar do dia anterior. E com toneiras de saldo, do Decathlon e gritando a desvalorização das mais caras.
O mar manteve-se; o sol foi namorar; o vento desistiu.
Foi mais uma manhã de cefalópodes, tendo sempre nos olhos, a identidade do nosso passatempo preferido.


Uma posta de bacalhau assado na brasa e 4 batatas a murro selaram a jornada num restaurante local.
Gostei! Se gostei. Gostaram todos! Se gostaram.
Num dia destes, o Óscar irá alugar o barco, a jovens turistas inglesas. Elas apreciam a técnica do palangrote? Também quero ir…
3. Lulas e fanecas


Neste 3º episódio de pesca às lulecas, tivemos o prazer de não estarmos sós. Longe da exclusividade, este mar e esta manhã suportaram uma grande quantidade de embarcações, a praticarem o mesmo ofício. Só em frente à Casa Branca, isto no mar de V. N. Gaia, contámos 25, todas elas dotadas de vários pescadores a animarem braços que subiam e desciam em ritmo constante com as toneiras.
Já antes, frente à praia da Luz. Tínhamos espetado nos bicos acerados das nossas toneiras, 4 lulas graúdas. Porque pararam de se magoar, decidimos rumar para além da Foz do Douro. Foram mais 3, sem grande euforia.
Por volta das 11 horas, repetimos o primeiro sítio e caíram mais duas.


Foi então, que num assomo de diversificação, os 3 pescadores da popa pegaram nas respectivas canas e nas “chapas” encheram uma caixita de fanecas, carapaus e cavalas.
Estávamos igualmente acompanhados por 4 pequenos barcos, todos eles a fanecar.
O sol, o mar, a ondulação, o vento e a nossa boa disposição estavam como os dedos de uma mão.


Foi uma manhã agradável, uma manhã em dois momentos, pelo que acabámos por descobrir novas potencialidades para sábados desgarrados. A minutos da Marina a pesca também decide ser produtiva, acrescendo o efeito almoço, uma desobrigação, a qual muitas vezes repetida como obrigação, se tona difícil de gerir, por falta de condições. Vamos lá aceitar, que um barco não é um restaurante e muito menos uma sala de jantar.


Ainda se pode considerar, nesta arenga da substituição de sítio para pescar, a questão crucial ou importante das despesas inerentes.
Quanto à qualidade e quantidade dos exemplares capturados, com certeza será minimalista, embora esta questão a considere eu, diria, menor. Os outros meus colegas não sei!


Nestes termos, fazer de vez em quando uma pesquinha por estes sítios mais próximos, menos profundos e distantes, seja a lular ou a peixar, poderá tornar-se interessante. Podem representar interregnos físicos e mentais. Quantas vezes, por manifesta má vontade do mar ou por ocupações pessoais inultrapassáveis, dedicar uma manhazita a curtir, já faz a diferença para 15 dias de jejum.


Portanto, estas pescarias à lula abriram horizontes, quebraram rotinas – “Matosinhos, terra de horizonte e mar”!
Leça, 31 de Agosto, 2 e 5 de Setembro de 2015
Luís M. Borges

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