segunda-feira, 24 de agosto de 2015

46. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O livro das realidades/O livro das possibilidades

 
Sabem, sempre que embarcamos na Marina de Leça rumo ao alto mar, abrimos sempre o livro das possibilidades. Depois, no decorrer da faina e sempre que os peixes resolvem dar atenção ou alhear-se, abrimos o livro das realidades.
Este livro tranca-se quase sempre entre as 16h00 e as 17h00.
Neste dia, 22 de Agosto de 2015, podia ler-se às 07h00 no livro, que pretendíamos efectuar uma pescaria normal. Desta vez éramos somente quatro, pelo que a comodidade na embarcação, com mais largueza e menos impedimentos, certamente que ajudariam a implementar essa possibilidade.
O tempo estava enevoado a tender para chuvaradas. O mar, esse, cavalgava devagar. Se vento houvera, ele tinha escapulido, deixando apenas a recordá-lo uma brisa suave. Portanto, boas possibilidades, em termos de condições ideais, para a prática da pesca de alto mar.

 A Equipa: Óscar, Pedro, Malheiro, Borges

No sítio denominado 04 começaram a sair umas fanecas jeitosas. Lá no fundo, o cardume revelou, que havia concorrência desleal. O balde branco começou a encher-se rapidamente. A realidade começava a afirmar-se, para satisfação do quarteto.
Porém, é sabido que o contentamento descontente (como diria Camões) destes quatro cavaleiros andantes por mares sempre navegados, fazia-se presente na possibilidade de aparecerem outros tipos de capturas, pelo que o afoito Pedro fez descer um engodo mal cheiroso, o qual acabou por resultar. Os carapaus grandalhões motivaram-se, mas certamente defraudados com aquela papa horrorosa, só tiveram uma escolha – atacarem os iscos que aqueles pescadores lhes ofereciam, como alternativa mais saudável, mais saborosa porque fresca, mais bem apresentada, embora em anzóis de luxo. Rapidamente se tornou real um cabaz de grossos e compridos carapaus.
Mas…há sempre um mas…as possibilidades mandam na vida, pelo que a insatisfação dos pescadores, foi assumida com clareza:
- Os sargos, os pargos, os gorazes, as choupas, os besugos, onde param eles? – Questionava o Malheiro, repetindo o Óscar, corroborando o Borges e acenando com a cabeça o Pedro. Houve alguém que afirmou (não me lembro quem), que em breve aqueles estimados peixes, estariam a luzir e a diversificar o cabaz cheio de carapaus. Profecia referida, logo cumprida.
Como foi?
Saliento apenas o mais significativo, dentre o muito que pescaram:
- O Malheiro pescou 2 bons pargos; - O Óscar descarregou enormes choupas; - O Pedro bateu forte nos sargalhões; - O Borges diversificou, até "cagonas" (bogas-do-mar) pescou.


No intervalo desta afirmativa realidade, tocou a sineta para o almoço – uma “punheta” de bacalhau, a qual foi saboreada com requinte. Prato apetecido, vinho bebido, queijo comido, café sumido, whisky repetido. Isto não foi possibilidade. Não. Foi uma autêntica refeição sentida e respeitada.

 A célebre "Punheta" de Bacalhau

Às 16h00 rumou-se para a Marina, pois o isco tinha-se acabado e a quantidade de peixe adequava-se.
A viagem demorou 1 hora. Passou-se este tempo a desferrar. O que é isto? Uma história de pasmar, que passo a contar: Numa altura em que eu desferrava um bom sargo, utilizando obviamente o aparelho denominada desferrador, a cauda do peixe a debater-se bateu na minha mão direita, fazendo saltar para a água o referido instrumento, que imediatamente se afundou. Perante o espanto geral, passados que foram aí uns 5 minutos, não é que o Óscar trouxe preso ao seu fio do carreto o desferrador? Veio, enfiado no fio, pela sua estreita ranhura. Como foi possível? Há coisas estranhíssimas, coincidências espantosas, acertos naturais invulgares, que só a imaginação saberá explicar e a credulidade de quem não presenciou este facto, possa aceitar. O Óscar tem um dom, consegue muitas vezes, o impossível.


O desferrador

 O Mestre Óscar
Já a entrarmos na Marina vimos 2 agentes da Polícia Marítima. Iriam fiscalizar-nos? Não receámos, pois os peixes tinham as medidas regulamentares; as suas barbatanas caudais estavam cortadas; cada pescador não detinha mais de 5 kg de peixe, acrescendo-lhe o maior exemplar; todos levavam as respectivas licenças; o barco, todo ele, apresentava-se conforme a lei exigia.
Quando se cumpre, nada se deve recear, mesmo que as possibilidades de tal acontecer, possam ser desvirtuadas (como nos jogos de futebol com os árbitros).

 Uma Boga-do-Mar. Saíram duas.

Foi um dia bem conseguido de pesca. Às vezes, tudo é possível!

Marina de Leça, 22 de Agosto de 2015
Luís M. Borges

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