domingo, 12 de abril de 2015

35. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



No intervalo da pesca

Quando o Óscar chega, move-se o meu mundo.
A tela da viagem foi-se preenchendo: Alto do Cavalinho e sandes de presunto, Rali de Jeeps, Mar de nuvens, Mesão Frio, Caldas do Moledo, Régua e rolhas, Intermarché e fígado, 3 pontes recortadas, o rio Douro e finalmente a subir, sempre a subir, Marmelal. O rei D. Sancho I concedeu foral a esta terra em 1194. Este rei viu o quê em Marmelal? E a rainha porque será que mandou construir uma capela, a Capela de Nossa Senhora das Neves? que acabei por visitar a insistência e simpatia da D. Noémia e da D. Carmen. Esplendor: demasiada beleza para tão pequena capela.

Mas o objectivo era o vinho: o Óscar dá o litro por um copo de vinho. Engarrafou-se, engarrafonou-se, enbidou-se, foi-se à beirada do lagar comer a bola de bacalhau e mirou-se com êxtase aquela cor rubi, beberricando de seguida em lenta e demorada apreciação o belo e saboroso vinho do Óscar. O Pai dele, de vez em quando, barafustava a dar sugestões e a orientar pormenores, naquele seu jeito de homem antigo.

Entretanto, noutro espaço, aprimorava-se o almoço, com o empenho das duas patroas, a mais velha e a mais nova. O aroma começou a invadir a adega, até que a frase esperada soou:
- Os rojões estão na mesa.
Logo se acomodaram na mesa da sala de jantar 11 valentes convivas, sedentos e famintos.

Fomos todos depois de bem regados e abastecidos, em excursão e alegre toada tomar café. Foi numa enorme janela panorâmica, plena de Douro, que me expandi de olhares e me senti no cimo da admiração: aquele Douro, aquela paisagem enorme e retalhada, aqueles dois rios (o Douro e o Tedo) a angularem e a conformarem o meu olhar, dando-me expressões de avaliação, perfeitamente adequadas: uma natureza soberba, um excesso de grandiosidade, a mão do homem em socalcos sem fim. Lembraram-me as minhas origens, pois passaram em revisão da memória a minha vivência infantil em Caldas do Moledo, onde pequenino vivi entre a pacatez do rio Douro e a soberba dos montes, a ver lá no cimo Fontelas.



O resto da tarde decorreu nas últimas, pois durante a manhã, o serviço de enchimento quase se tinha concluído.
O regresso foi outro retorno comum. Carregado de vinho, acomodei em casa 50 litros de mil trabalhos, feitos pela conjugação da mãe natureza com a invenção dos homens durienses.

- Quando bebo, saboreio, quando bebo lembro-me, quando bebo saúdo, quando bebo alegro-me.
Já compreendo o porquê do Foral do rei e da Capela da rainha.

Marmelal, 28 de Março de 2015,
Luís M. Borges

segunda-feira, 16 de março de 2015

34. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



A troca

Cantarilho-legítimo

 Somente o dia esplendoroso e o mar carregado de gaivotas nos afagavam.
Alguém praguejava de vez em quando.
O VHF irritava-me. Eram parvoíces sem fim e dicas enganosas, ditas por vozes roufenhas.
Em contrapartida, a malta cultivava o silêncio, aquele silêncio que não sendo “O silêncio dos Inocentes”, mais parecia um silêncio de vitimização.
O sol atiçava o ar, pelo que aligeirámos de roupa, eu e o Cheta.
Pus-me a admirar a minha cana azul. Era bonita!
- Interessa lá a cana ser bonita. Não pesca gorazes.

Américo

 Perto de nós, outra embarcação mourejava. Pouca fauna piscícola vi a brilhar, na recolha dos fios de mão. Até que se enfiaram os cinco na cabina, desaparecendo do convés.
- Foram dormir? Foram almoçar às 11h00? É orgia?
A resposta veio rápida:
- Uma já foi…
Um deles, atirou uma garrafa vazia ao mar e outras se lhe seguiram, num entusiasmo crescente.

Óscar

 O Óscar, entretanto, fez a proposta de mudança, pois gorazes no 0.15, népia. Tinham saído até ao momento meia dúzia de cantarilhos-legítimos, de fanecas e um congro, este pescado pelo Forte.
O 014 acolheu-nos às 11h30, local onde a esperança não residia, isto na opinião de alguns, excepto na do Américo. Afirmava ele, absolutamente peremptório e convicto:
- Eu quero e tenho a certeza, de que vou pescar uns gorazes aqui. Ouçam o que vos digo. Eu tenho muita experiência de pesca aos gorazes.
Entretanto, o Cheta ligava o fogão, para fazer a massa.
- Massa, outra vez? Puxa vida, é sempre massa! 

LBorges

 Acabava eu de fazer este registo crítico, quando rebentou o entusiasmo e se avivaram as almas dos cinco mosqueteiros, com o Américo a gritar, que tinha um goraz.
Lindo, com a pinta a sobressair sobre a cor acobreada do lombo. Era mesmo aquele bichinho que nos faltava. Perto de 1,5 kg de pura adrenalina…
Logo a seguir o Óscar imitou o Américo. Mais uns minutos e soaram as trombetas castelhanas para os meus lados e por último o Cheta tocou a 5ª sinfonia de Beethoven, com o maior de todos. Faltava o Forte cantar “A Laurindinha”. Não cantou!

Cheta

 Metemos mais umas fanecas, outros tantos cantarilhos e uns carapaus. No canto, encolhido e triste, alguém se lamentava. Lamúrias e mais lamúrias. Só faltou, à boa maneira judaica, arranjar o “Muro das Lamentações”. Havia uma tristeza profunda naquele olhar!
Contudo, logo se alegrou o ambiente com o brinde efectuado a favor do Óscar, que na véspera tinha subido mais um degrau na escala da idade. Depois, bem, todos comeram massa com carne! Olarilólé…Neste capítulo, a falta de imaginação é enorme!

Batendo na barriga ao de leve e chupando o derradeiro gole de whisky, o Cheta foi sacudir o engodo na proa. Não resultou. Os gorazes tinham abalado. Só adveio com o congro, guindado com esforço e cuidado pelo Luisinho. Tinha 6,5 kg. O Cheta sacou uma enguia, que devolveu ao oceano.
Passámos até às 17h00 no remanso, valendo ocupação apenas os ensarilhamentos e o arranjo dos congros. Igualmente nos ocupou um quarto de hora, um aleijão do Cheta, com sangue e tudo, quando trabalhava no guincho. 
 No final, após a divisão do pouco peixe existente, veio a consolação do amigo Óscar para com o amigo Forte. A troca: o goraz para o Forte, o congro para o Óscar. Afinal, o muro sempre esteve lá. Eu é que não o vi. Gostei. Foi bonito.
 Na Marina, os comentários convergiam todos no mesmo sentido, por parte dos pescadores de outras embarcações. Ninguém se lembrava de o mar estar a dar tão pouco.
Continuo a perguntar: que conjugação de factores poderá explicar esta manifesta ausência de peixe?
Marina de Leça, 07 de Março de 2015
Luís M. Borges

segunda-feira, 2 de março de 2015

33. Memórias do Alto Mar


Mar seco

Fui acordado pelo despertador digital às 06h00. Ocorrência rara, pois todos os dias acordo às 05h00. Estranhei!
Bebi um chá e abalei para a Marina. Ao chegar, arrotei a tripas do jantar da noite anterior. Fiquei preocupado!
Já no barco, a chuva miudinha obrigou-nos a envergar os fatos impermeáveis. Estremeci de desconforto!
Até às 10h30, a pescaria resumia-se a 3 humildes fanecas. Estava atónito!

Ao som irritante de mestres de outras embarcações, íamos recebendo indicações, de pescarias igualmente frustrantes.
- Mar morto, mar seco, miséria, nada… - berravam eles.
Pela nossa parte, tentámos o possível, a fim de ultrapassarmos a situação: mudar de tipo de aparelhos, de iscos, mais cabo, à deriva, outras marcas… Nada de nada!
 Entretanto, procedu-se ao reforço alimentar
Devo salientar um pormenor, que pode ser importante, no que diz respeito a chegar-se a uma conclusão sobre este fracasso total: os estralhos vinham completamente enrodilhados uns nos outros e no fio donde derivam. As águas no fundo do mar estavam revoltas. Provavelmente sujas, por causa do levantamento violento dos componentes do leito marinho. Águas violentas, revoltas e sujas, costumam assustar os peixes bentónicos.Era evidente, que o fundo do mar estava em turbilhão e assim, os peixes ou tinham dificuldade em detectar os iscos, ou encontravam-se acoitados face a esta violência anormal ou tinham debandado para o largo. Que sei eu?
 Dez tristes fanecas
Porém, não se devem descartar outras razões: lua, maré, correntes marinhas, temperaturas, tempo, altura do ano, algum cataclismo marítimo natural...e as provocadas pelo homem, tais como poluição, pesca predatória criminosa e intensiva... Haverá que investigar, a quem de direito!
Até às 12h30, as lamentações do Cheta foram ouvidas, pelo que safou a grade com 1 faneca; o Óscar deu mostras da sua mestria, pelo que lá conseguiu também pescar outra faneca; o infeliz e azarento Américo brindou-nos com duas; eu com 6, exactamente, não sei como nem porquê. Fui o campeão dos mínimos. Portanto, 10 fanecas. Parece-me que não me esqueci de ninguém! KKKKKKKKKK
O intercomunicador continuava a debitar desistências, frustrações e maldições, pelo que se anuíu rumar à Marina, a qual distava apenas 3 milhas, dado que a rota de poitadas efectuadas, tinha sido orientada nesse sentido.
- Vamos almoçar.



















E fomos! 
Já à mesa, vários colegas de outras embarcações também se solidarizaram connosco, na denúncia deste dia frustrante, cinzento e chuvoso, a verem-nos comer leitão assado. O aroma era divino, por causa do grelhador do Malheiro, que aquecia o leitão.  O ar maritimo estava limpo, não cheirava a peixe. Foi isto, que mitigou os inconvenientes do dia!
Leitão delicioso: Ah, faneca...

Ao chegar a casa, tomei um banho, comi uma excelente sopa bem quente de agrião e deitei-me, adormecendo de imediato.
Que dia estranho e atípico!
OBS: Quem saíu impoluto desta pescaria? Quem foi? O Fortes, claro, o melhor pescador do barco!
Marina de Leça, 28 de Fevereiro de 2015

Luís M. Borges


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

32. Memórias do Alto Mar


A MALA DE CARTÃO

Eu já tinha saudades!
Saudades do vento gelado a entrar de fininho na pele; saudades do linguarejar brejeiro do grupo; saudades do frémito defensivo dos peixes do mar de Matosinhos.
Passado que foi um mês no Brasil, mais concretamente em Salvador da Bahia, com 30 º C de temperatura, de comidas exóticas, de praias de fixar longamente e de mulheres de esquecer o mundo à volta, eis-me de novo no meu cantinho, neste Portugal dos pequeninos.
Mas, dizia, que já tinha saudades deste grupo, que estranhamente se parece com uma ideia tão grande e viva, como se fosse o Brasil. Perante a singularidade destes cinco homens, nada, mas mesmo nada, me poderá afastar desta barcaça de vida activa, desta jangada de prazeres e de folia. Só alguma infelicidade, um azar qualquer de saúde ou o término existencial, me forçarão a desistir.
Que lengalenga! Bisonha e triste! Deixemos isto, pois quero focar-me numa arca especial, nova, que o Malheiro apresentou à malta. Com acrescentos especiais aplicados por ele, tendo em vista a melhor funcionalidade do objeto.

Comecemos pela cor: indefinida, a tender para o castanho e encimada por uma tampa a parecer laranja; a frente tinha incorporada uma argola foleira para meter a cana, provavelmente destinada à prática da pesca à tainha; o mais interessante era o sistema de rodinhas e uma lata, esta destinada a equilibrar e a travar a arca. Simplesmente brilhante este conjunto de ideias! Só que ao 1º teste, a lata dobrou, tendo-se vergado ao peso dos 120 kg do seu proprietário. Arreou, para desespero do próprio e gáudio dos demais.
Perante a galhofa geral, o que mais me impressionou, foi a calma olímpica e o enorme “fair-play” do Malheiro, alinhando com o tom geral dos companheiros. Sorridente, até se prontificou a tirar foto com a esquisita mala. Gostei!
Sobre a pesca e os seus intérpretes, a começar, diga-se, afirme-se, reitere-se, se possível repita-se até à exaustão – o melhor pescador do barco é, sem dúvida alguma, o Forte.
O pescador mais simpático, menos rezingão e que menos festeja a captura de bons escamas é, sem dúvida, o Cheta.
O pescador mais comodista, o que cozinha petiscos fabulosos, pilota a embarcação, pesca que se farta carapaus, conta histórias aciduladas e ainda divide a pescaria é, sem dúvida alguma, o Óscar.
O pescador mais jarreta, que nunca ensarilha com ninguém, que mais caprichou na compra de um colete elegante e ainda não aprendeu a meter o peixe capturado no barco é, sem dúvida alguma, o Borges.
O pescador mais elegante e fotogénico é, sem dúvida alguma, o Malheiro.

Estes cinco, equilibram-se em defeitos e em virtudes, por isso é que o barco navega tão bem e as pescarias são prodígios. Entre o positivo e o negativo de cada um, juntando tudo, a figura geométrica que me ocorre é a de um pentágono. Será este o nosso símbolo da pesca a cinco.
O dia de pesca acabou sereno, com um mar a ajeitar-se e uma temperatura a acomodar-se.
Acreditem, nem nos lembrámos de discutir a questão grega!
Leça da Palmeira, 7 de Fevereiro de 2015
Luís M. Borges

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

31. Memórias do Alto Mar


Mar de Natal

 
1.Sorrirei sempre que a memória me possa exibir as imagens desta pescaria. Catálogo de luxo, com cenas de exuberância e de beleza.
Diria, que estavelmente, as choupas negras e gordas iam-se fazendo aos iscos freneticamente, a juntarem-se aos prateados sargos e aos buliçosos besugos rosa.
Dobravam-se as canas até ao limite e gritavam-se euforias, no acto de içar dois e três peixes enormes, quando assomavam à superfície da água e entravam no barco com jeitinho.

Como raridade, até saiu decreto a adiar a hora do almoço, para quando os peixes se quedassem, pelo que uma hora para além da hora, os 4 barões assinalados iam comendo massa de coelho e simultaneamente iam pescando. É que antes, na senda do aperitivo, como se costuma dizer e fazer, à volta do presunto, do queijo, do paté e do espumante, os sabores só tinham olhos para as ponteiras das canas, constantemente a incomodarem, buliçosas. E parava-se a mastigação e alçavam-se os peixes. Jamais tinha tido oportunidade de aperitivar e almoçar deste modo.
Dizia o Cheta: - Nunca vi coisa igual. Tanto peixe e desta qualidade?
O Óscar premiou-se com o maior besugo (quase 1 kg); o Malheiro com a mais roliça, escura e comprida choupa (1,2 kg); o Cheta com um sargo de forno (1,3 kg) e eu com um carapau de cinquenta. Porém, refira-se por ser verdade e relevante, que estas proezas recordistas não excediam tanto assim as restantes capturas, todas elas proeminentes.
Foi um dia grande, um dia de sol doirado, um dia de aragem fina e leve, um dia com um mar levemente cadenciado.

2.Começámos a pescaria às 08h00 no mar de Valongo e fez-se a poitada com muito cuidado e precisão.
Às 16h00 rumou-se a um Matosinhos brumoso, com a Marina a acolher-nos em silêncio.
Foi o nosso Mar de Natal e um encerramento de 2014 como nenhum. Que 2015 nos favoreça de igual modo!

Leça da Palmeira, 26 de Dezembro de 2014
Luís M. Borges