No intervalo da pesca
Quando o Óscar chega,
move-se o meu mundo.
A tela da viagem
foi-se preenchendo: Alto do Cavalinho e sandes de presunto, Rali de Jeeps, Mar
de nuvens, Mesão Frio, Caldas do Moledo, Régua e rolhas, Intermarché e fígado,
3 pontes recortadas, o rio Douro e finalmente a subir, sempre a subir,
Marmelal. O rei D. Sancho I concedeu foral a esta terra em 1194. Este rei viu o
quê em Marmelal? E a rainha porque será que mandou construir uma capela, a
Capela de Nossa Senhora das Neves? que acabei por visitar a insistência e
simpatia da D. Noémia e da D. Carmen. Esplendor: demasiada beleza para tão
pequena capela.
Mas o objectivo era o
vinho: o Óscar dá o litro por um copo de vinho. Engarrafou-se, engarrafonou-se,
enbidou-se, foi-se à beirada do lagar comer a bola de bacalhau e mirou-se com êxtase
aquela cor rubi, beberricando de seguida em lenta e demorada apreciação o belo
e saboroso vinho do Óscar. O Pai dele, de vez em quando, barafustava a dar
sugestões e a orientar pormenores, naquele seu jeito de homem antigo.
Entretanto, noutro
espaço, aprimorava-se o almoço, com o empenho das duas patroas, a mais velha e
a mais nova. O aroma começou a invadir a adega, até que a frase esperada soou:
- Os rojões estão na
mesa.
Logo se acomodaram na
mesa da sala de jantar 11 valentes convivas, sedentos e famintos.
Fomos todos depois de
bem regados e abastecidos, em excursão e alegre toada tomar café. Foi numa
enorme janela panorâmica, plena de Douro, que me expandi de olhares e me senti
no cimo da admiração: aquele Douro, aquela paisagem enorme e retalhada, aqueles
dois rios (o Douro e o Tedo) a angularem e a conformarem o meu olhar, dando-me
expressões de avaliação, perfeitamente adequadas: uma natureza soberba, um
excesso de grandiosidade, a mão do homem em socalcos sem fim. Lembraram-me as
minhas origens, pois passaram em revisão da memória a minha vivência infantil
em Caldas do Moledo, onde pequenino vivi entre a pacatez do rio Douro e a
soberba dos montes, a ver lá no cimo Fontelas.
O resto da tarde
decorreu nas últimas, pois durante a manhã, o serviço de enchimento quase se
tinha concluído.
O regresso foi outro
retorno comum. Carregado de vinho, acomodei em casa 50 litros de mil trabalhos,
feitos pela conjugação da mãe natureza com a invenção dos homens durienses.
- Quando bebo,
saboreio, quando bebo lembro-me, quando bebo saúdo, quando bebo alegro-me.
Já compreendo o porquê
do Foral do rei e da Capela da rainha.
Marmelal, 28 de Março
de 2015,
Luís M. Borges
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