segunda-feira, 2 de março de 2015

33. Memórias do Alto Mar


Mar seco

Fui acordado pelo despertador digital às 06h00. Ocorrência rara, pois todos os dias acordo às 05h00. Estranhei!
Bebi um chá e abalei para a Marina. Ao chegar, arrotei a tripas do jantar da noite anterior. Fiquei preocupado!
Já no barco, a chuva miudinha obrigou-nos a envergar os fatos impermeáveis. Estremeci de desconforto!
Até às 10h30, a pescaria resumia-se a 3 humildes fanecas. Estava atónito!

Ao som irritante de mestres de outras embarcações, íamos recebendo indicações, de pescarias igualmente frustrantes.
- Mar morto, mar seco, miséria, nada… - berravam eles.
Pela nossa parte, tentámos o possível, a fim de ultrapassarmos a situação: mudar de tipo de aparelhos, de iscos, mais cabo, à deriva, outras marcas… Nada de nada!
 Entretanto, procedu-se ao reforço alimentar
Devo salientar um pormenor, que pode ser importante, no que diz respeito a chegar-se a uma conclusão sobre este fracasso total: os estralhos vinham completamente enrodilhados uns nos outros e no fio donde derivam. As águas no fundo do mar estavam revoltas. Provavelmente sujas, por causa do levantamento violento dos componentes do leito marinho. Águas violentas, revoltas e sujas, costumam assustar os peixes bentónicos.Era evidente, que o fundo do mar estava em turbilhão e assim, os peixes ou tinham dificuldade em detectar os iscos, ou encontravam-se acoitados face a esta violência anormal ou tinham debandado para o largo. Que sei eu?
 Dez tristes fanecas
Porém, não se devem descartar outras razões: lua, maré, correntes marinhas, temperaturas, tempo, altura do ano, algum cataclismo marítimo natural...e as provocadas pelo homem, tais como poluição, pesca predatória criminosa e intensiva... Haverá que investigar, a quem de direito!
Até às 12h30, as lamentações do Cheta foram ouvidas, pelo que safou a grade com 1 faneca; o Óscar deu mostras da sua mestria, pelo que lá conseguiu também pescar outra faneca; o infeliz e azarento Américo brindou-nos com duas; eu com 6, exactamente, não sei como nem porquê. Fui o campeão dos mínimos. Portanto, 10 fanecas. Parece-me que não me esqueci de ninguém! KKKKKKKKKK
O intercomunicador continuava a debitar desistências, frustrações e maldições, pelo que se anuíu rumar à Marina, a qual distava apenas 3 milhas, dado que a rota de poitadas efectuadas, tinha sido orientada nesse sentido.
- Vamos almoçar.



















E fomos! 
Já à mesa, vários colegas de outras embarcações também se solidarizaram connosco, na denúncia deste dia frustrante, cinzento e chuvoso, a verem-nos comer leitão assado. O aroma era divino, por causa do grelhador do Malheiro, que aquecia o leitão.  O ar maritimo estava limpo, não cheirava a peixe. Foi isto, que mitigou os inconvenientes do dia!
Leitão delicioso: Ah, faneca...

Ao chegar a casa, tomei um banho, comi uma excelente sopa bem quente de agrião e deitei-me, adormecendo de imediato.
Que dia estranho e atípico!
OBS: Quem saíu impoluto desta pescaria? Quem foi? O Fortes, claro, o melhor pescador do barco!
Marina de Leça, 28 de Fevereiro de 2015

Luís M. Borges


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