segunda-feira, 16 de março de 2015

34. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



A troca

Cantarilho-legítimo

 Somente o dia esplendoroso e o mar carregado de gaivotas nos afagavam.
Alguém praguejava de vez em quando.
O VHF irritava-me. Eram parvoíces sem fim e dicas enganosas, ditas por vozes roufenhas.
Em contrapartida, a malta cultivava o silêncio, aquele silêncio que não sendo “O silêncio dos Inocentes”, mais parecia um silêncio de vitimização.
O sol atiçava o ar, pelo que aligeirámos de roupa, eu e o Cheta.
Pus-me a admirar a minha cana azul. Era bonita!
- Interessa lá a cana ser bonita. Não pesca gorazes.

Américo

 Perto de nós, outra embarcação mourejava. Pouca fauna piscícola vi a brilhar, na recolha dos fios de mão. Até que se enfiaram os cinco na cabina, desaparecendo do convés.
- Foram dormir? Foram almoçar às 11h00? É orgia?
A resposta veio rápida:
- Uma já foi…
Um deles, atirou uma garrafa vazia ao mar e outras se lhe seguiram, num entusiasmo crescente.

Óscar

 O Óscar, entretanto, fez a proposta de mudança, pois gorazes no 0.15, népia. Tinham saído até ao momento meia dúzia de cantarilhos-legítimos, de fanecas e um congro, este pescado pelo Forte.
O 014 acolheu-nos às 11h30, local onde a esperança não residia, isto na opinião de alguns, excepto na do Américo. Afirmava ele, absolutamente peremptório e convicto:
- Eu quero e tenho a certeza, de que vou pescar uns gorazes aqui. Ouçam o que vos digo. Eu tenho muita experiência de pesca aos gorazes.
Entretanto, o Cheta ligava o fogão, para fazer a massa.
- Massa, outra vez? Puxa vida, é sempre massa! 

LBorges

 Acabava eu de fazer este registo crítico, quando rebentou o entusiasmo e se avivaram as almas dos cinco mosqueteiros, com o Américo a gritar, que tinha um goraz.
Lindo, com a pinta a sobressair sobre a cor acobreada do lombo. Era mesmo aquele bichinho que nos faltava. Perto de 1,5 kg de pura adrenalina…
Logo a seguir o Óscar imitou o Américo. Mais uns minutos e soaram as trombetas castelhanas para os meus lados e por último o Cheta tocou a 5ª sinfonia de Beethoven, com o maior de todos. Faltava o Forte cantar “A Laurindinha”. Não cantou!

Cheta

 Metemos mais umas fanecas, outros tantos cantarilhos e uns carapaus. No canto, encolhido e triste, alguém se lamentava. Lamúrias e mais lamúrias. Só faltou, à boa maneira judaica, arranjar o “Muro das Lamentações”. Havia uma tristeza profunda naquele olhar!
Contudo, logo se alegrou o ambiente com o brinde efectuado a favor do Óscar, que na véspera tinha subido mais um degrau na escala da idade. Depois, bem, todos comeram massa com carne! Olarilólé…Neste capítulo, a falta de imaginação é enorme!

Batendo na barriga ao de leve e chupando o derradeiro gole de whisky, o Cheta foi sacudir o engodo na proa. Não resultou. Os gorazes tinham abalado. Só adveio com o congro, guindado com esforço e cuidado pelo Luisinho. Tinha 6,5 kg. O Cheta sacou uma enguia, que devolveu ao oceano.
Passámos até às 17h00 no remanso, valendo ocupação apenas os ensarilhamentos e o arranjo dos congros. Igualmente nos ocupou um quarto de hora, um aleijão do Cheta, com sangue e tudo, quando trabalhava no guincho. 
 No final, após a divisão do pouco peixe existente, veio a consolação do amigo Óscar para com o amigo Forte. A troca: o goraz para o Forte, o congro para o Óscar. Afinal, o muro sempre esteve lá. Eu é que não o vi. Gostei. Foi bonito.
 Na Marina, os comentários convergiam todos no mesmo sentido, por parte dos pescadores de outras embarcações. Ninguém se lembrava de o mar estar a dar tão pouco.
Continuo a perguntar: que conjugação de factores poderá explicar esta manifesta ausência de peixe?
Marina de Leça, 07 de Março de 2015
Luís M. Borges

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