quinta-feira, 7 de agosto de 2014

4. Memórias do Alto Mar



Luís Borges, o parte-canas

 Luís Borges
Bem! Falar de mim é inapropriado, porque pode fugir-me a caneta para o auto-elogio. É que, nalguns aspectos, até que posso eventualmente merecer elogiar-me…Contudo, depressa arcaria com as consequências: seria apelidado de gabarola, de vaidoso, de mentiroso, e por aí fora… Assim, prefiro muito sinceramente, ser o “parte-canas”. Já irão perceber porquê.
Neste dia, fiz-me ao mar de cana, fio e carreto novos. Que vaidoso, a mostrar o material! Esperava trazer à ré muitos e bons peixes, dotado com estas novas tecnologias.
O Forte não compareceu, pois a sua prestação é quinzenal. Disseram, que tem de tratar da quinta. Muito bem, a agricultura está ao nível da pesca. Deveria ter sido substituído pelo Adérito, mas uma maleita trazida no nariz de Singapura, inviabilizou a sua participação, pelo que foi o Américo que foi à luta.
Com um mar de 1,2 metros de vaga, vento fraco e temperatura a rondar os 20 º C e céu aberto, a pescaria prometia, pelo que embarcámos, extremamente confiantes.
Desilusão, o motor do barco não pegou. “Almas deste e do outro mundo, esqueletos de peixes a boiar, raios e coriscos, gaivotas cagonas”, irra que o azar caiu-nos em cima. Não foram estas as palavras, substituí-as…a bem dos bons costumes orais.
Lá se resolveu o problema, com o terceiro mecânico. O barco ronronou em direcção à vaga, ao bom fundo, ao reino dos barbatanas. Eram 10h30.
Uma vez ancorados, o pessimismo baldou-se e foram tantos e tão grandes os peixes capturados, que receámos a dizimação daquele reino piscícola. Provavelmente, caímos em cima dum concerto, ou dum comício, ou até de um estádio de futebol, pois foi uma pesca de arromba. Inolvidável!
 Carapau
Entretanto, estalou qualquer coisa…Não sei o que se passou, mas o certo é que ao guindar 2 sargos de bom porte, a meia-água, a cana partiu. A minha cana nova da Shimano SeaMaster, linda de se ver e admirar. Espanto geral, com algum gozo à mistura. Realmente, senti-me um “parte-canas”.
- E vão duas, disse eu.
Mas não perdi os peixes, guindei-os à mão, à boa moda antiga.
No final do desafio, os cinco magníficos exultavam de orgulho e de vaidade. A pescaria foi muito boa, sobretudo por causa do gabarito dos exemplares.
Regressámos a cantar em coro “Quem é o pai da criança”. De vez em quando, lá surgia uma desafinação (a voz fugia para o arrôto), certamente por causa da rojoada (confeccionada pelo grande chefe “o parte-canas”).
Leça da Palmeira, 12 de Abril de 2014
Luís M. Borges

3. Memórias do Alto Mar


Cheta, o patriarca
 Cheta
Neste dia de pesca, decidi experimentar uma cana especial, que o meu amigo Rui Gomes me tinha oferecido. Esta cana tinha sido criada especificamente para a pesca nos mares algarvios, destinada à competição desportiva. Era uma cana comprida, muito robusta, com quase 5 metros de comprimento, dotada de ponteiras muito sensíveis.
Depois de ter iniciado a pesca, acabei por parti-la, pois não me adaptava ao seu demasiado comprimento. Gosto de pescar com canas até aos 3 metros, de preferência com 2,7 metros. O Óscar emprestou-me uma cana sua de reserva, com a qual me procurei redimir.
Atrás de mim, o Cheta dava-me orientações, das mais variadas, com aquele seu saber de longa data. Homem experiente, eu procurei acatar os seus importantes conselhos. Como estávamos a pescar a extremos direitos, conjuguei com ele a melhor forma de nos irmos safando, evitando os atrasos resultantes dos enleios de linhas. 

Meio metrados

Foi um dia fabuloso de pesca. Cada um dos 5 esforçados pescadores levou para a família e amigos, a sua arca bem recheada: sargos de encherem a travessa, choupas de duplo palmo, carapaus meio metrados, fanecas de posta. E outras espécies, eu sei lá que vos diga mais. Exaustos mas felizes. Até o arroz de frango cozinhado pelo Malheiro no barco, equiparou o paladar à felicidade.
Um dia fabuloso, com o Cheta orgulhoso a mirar os seus sargos, capturados aos três de cada vez. Acabou por dizer:
- Eu disse-vos. Este sítio é o melhor.
Ninguém o contestou. Falou o patriarca!
Leça da Palmeira, 15 de Março de 2014
Luís M. Borges

2. Memórias do Alto Mar



O Malheiro e o Pão-de-Ló


 O Malheiro
Já referi, que há bastante tempo não efectuava uma pesca de alto mar, Tinha realmente saudades e foi com grande expectativa que reiniciei a actividade lúdica, sobre as vagas do mar de Matosinhos.
A saída da Marina de Leixões efectuou-se às 07h00. O mar neste dia, apresentava-se calmo e favorável à realização da actividade piscatória, de uma forma confortável. Vaga de 1 metro, intensidade da vaga no índice 12, vento fraco, nebulosidade fraca.
Navegámos 2 horas até ao pesqueiro escolhido e apoitámos em cima de um promissor fundo marinho.
O meu lugar no barco ficou definido no canto direito da popa, à frente do Cheta e à direita do Malheiro. No outro canto da proa sentava-se o Óscar e atrás o Forte. Ninguém atrapalhava ninguém, pois o espaço entre pares era suficiente, para exercer eficazmente a acção de pesca.
Foram colocadas na borda do barco as tábuas do isco com amêijoa branca, condimentada com bastante sal, depois de devidamente descascada.
O Cheta ofereceu-me um dos seus aparelhos que juntei à unidade cana e carreto.
Para o fundo imediatamente e logo começaram a sentir-se os excitantes toques, que a cana se encarregava de assinalar. Preso um peixe, comecei a recolher e imediatamente me apercebi, que deveria ser um sargo. Nunca se esquece o que se aprendeu…tinha de ser um sargo…pela forma de bater! E era mesmo…meio quilo de força … um belo exemplar.
Os meus amigos, com toda a sua experiência, não se fizeram rogados e começaram a “pingar” para o barco choupas, sargos, besugos, fanecas e até carapaus.
Aí estão eles
Claro que as piadas começaram a surgir. A boa disposição dos elementos desta equipa é fabulosa, a começar pelo Malheiro. Um homem calmo, sereno, sempre a sorrir, que aceita com naturalidade tudo que seja perda de material e emaranhamentos complicados. Aceita menos quando não consegue pescar tanto como os outros, mas disfarça. Aliás, esta é uma atitude que cai bem em todos. Mas, o melhor do Malheiro, é o seu pendor para o Pão-de-Ló. Como sobremesa, lá abre um pão-de-ló fantástico, e todos o elogiam, ao mesmo tempo que o consomem.
E recomeça-se a pescaria, não sem antes o Cheta, com a sua voz grave avisar
- Os peixes só pegam às 14h30!
Chegámos à Marina por volta das 18h00, com uma bela pescaria.
Valeu!
Leça da Palmeira, 08 de Março de 2014
Luís M. Borges

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

1.Memórias do alto mar



Convite irrecusável


 Os peixes saltam para o barco. Fantástico!

O FORTE e o ÓSCAR, amigos de longa data, convidaram-me e ao Adérito, no sentido de ambos integrarmos a equipa de pesca do FOSMAR (nome da embarcação).
Este convite assumiu um estatuto de absolutamente irrecusável.
Assumido, logo corremos com emoção a comprar material actualizado, daquele que passa pela benzedura na Igreja do Senhor de Matosinhos. O CHETA foi o patriarca.
O baptismo significou para mim um recomeço, relativamente à modalidade de pesca lúdica de alto mar, interrompida por uns anos, por diversas razões. Não deixava de me entusiasmar com a ideia de voltar a sentir a força combativa dos sargos, das choupas, dos besugos, dos gorazes, dos pargos…
Abriu-se o champanhe! Petiscou-se o queijo do “Guilherme”!
Segue-se o Diário de Bordo no Mar, que tem muito pra contar!
Leça da Palmeira, 07 de Março de 2014
Luís M. Borges

domingo, 3 de novembro de 2013

1. NO ANO PASSADO - Praia de Moreiró




1.Conjugação:
Pescar Margotas (nome popular das diversas espécies do Bodião) na praia de Moreiró, só para privilegiados.
Reparem na conjugação de atractivos: ao lado, situa-se a célebre “Praia do Castro de SÃO PAIO: fora do mundo, à beira mar”; a encimar, o acolhedor Bar Moreiró, onde os pratinhos de mexilhão são regra; a circundar, os verdes campos de Labruge, com toda a carga de uma ruralidade inesquecível; finalmente a envolverem, o mar e a praia de Moreiró em si, galardões de infinito e de uma maresia de charme.
Pescar margotas, muitas margotas? É na praia de Moreiró. Por vezes, os salmonetes, os sargos e os robalos também se dispõem, mas são raros. Juntaram-se ali 62 pescadores…
2.Desconjugação:
…para participarem na realização da  III TERTÚLIA DE PESCA PRAIA DE MOREIRÓ onde aconteceu a desconjugação: chuva forte, ondas brancas a embater, capas e botas verdes a enfrentarem, canas ao alto e lançamentos longos. Estes 62 pescadores estavam na praia postados em firmeza e em afrontamento.
Curioso, que os peixes nativos, sobretudo as tais margotas, fizeram-se aos mais variados iscos, que os pescadores lhes apresentaram.
Por volta das 10h30 o vento sul transferiu a sua direcção para noroeste. A chuva parou, o sol entreabriu e as capas verdes desapareceram, guardadas em sacos de pesca. Foi a vez das fotos às margotas, das conversas, das originalidades pessoais, dos carismas piscatórias, das sondagens.
A partir das 12h00 a balança entrou em acção, a caneta registou os pesos e o número de exemplares por concorrente. Ouviram-se elogios, histórias, lamentações e algumas críticas. Acabou por se encher um grande cabaz de margotas no total.
3.Nem conjugação nem desconjugação
Assim foi correndo o tempo até chegar a hora do almoço de confraternização, que se efectuou no Restaurante Rúben II, no centro de Labruge. As “entradas” acalmaram o aguçado apetite, preparando o estômago para uma Feijoada à moda do Porto, devidamente enobrecida por vinhos maduros tinto e verdes branco. Seguiram-se a sobremesa, o bolo de aniversário e por fim as castanhas assadas, regadas a vinho novo de um lavrador local.
Na quentura e no entusiasmo final do almoço procedeu-se à cerimónia de entrega dos prémios, com muitas palmas, muitos vivas, muitos elogios e também muitas ironias. A boa disposição a rimar com confraternização – na EFSA é assim.
Moreiró, 03 de Novembro de 2012
LBorges