O reboliço dos carapaus
O dia de pesca começou em tons
de cinzento, na quase penumbra de um nevoeiro cerrado, que fazia ceguinhos e
desorientados os nossos mestres. Disse "nossos mestres" e disse bem,
pois o Cheta, o Malheiro e o Óscar não se entendiam sobre o rumo a tomar, pois
eram três certezas defendidas em zaragata amigável. Só uma poderia ser a
correcta ou até nenhuma...
O Forte e eu íamos ouvindo
sentados e o Artur (o irmão do Óscar) eriçava-se-lhe a mosca. Ultrapassado que
foi o problema e já em velocidade de cruzeiro, a três milhas da Marina, o Forte
perguntou:- Já saímos da doca?
A mosca queixal do Artur desenriçou-se
e os sorrisos desfizeram um pouco a frieza do nevoeiro.
Mas, continuemos a falar do
Artur, o convidado especial do Óscar, o nosso estimado novo retornado de
Angola. Segundo constou, ele quis acompanhar a equipa, para vivenciar um dia de
pesca. Sofreu as consequências, pois estas vivências necessitam de uma certa
matriz, ou seja, este ilustre acompanhante deveria estar imune ao enjoo.
Portanto, não viu nada, pois baixou à enfermaria em estado de longa duração, não
comeu a feijoada à transmontana preparada pelo irmão e muito menos bebeu. Cá
para mim, que não sou nada desconfiado, fiquei com a impressão que houve
noitada especial. Teria sido a festa de aniversário da filha do Óscar, que abonou
em fartura e em alegria? No final, já na Marina, o Artur comentou assim:
- Pensei que o Cheta pescasse
mais, que fosse melhor pescador
Diria o Cheta, que calado e a
olhar incrédulo para o Artur, pensou: - Calha sempre para mim!
Agora, referindo a pesca,
instalou-se de novo, mal as canas se levantaram, aquele ambiente propício à
convivialidade, que tanto apraz a todos: piadas gostosas, vaidades machistas
contadas ao pormenor, referências "abichanadas" aos mais ínfimos
detalhes (a cor violeta do punho da cana do Forte foi muito notada), apartes
jocosos. E isto tudo à mistura com uma enxurrada de carapaus abonados, daqueles
gordos, de boca grande, dos quais o Óscar tanto gosta: - assados no forno são
uma delícia - (ele diz sempre isto, quando os sargos rareiam), com lutas nada
meigas, pois 2 carapaus destes equivalem em força a 2 sargos médios. Falo em
luta, mas não há porra de luta nenhuma, mais se tratando de captura pura e simples,
com ou sem esforço, caso se trabalhe com carretos eléctricos (preguiçosos,
comodistas) ou com carretos manuais (inadaptados, velhos).
Ainda se fizeram umas choupas,
talvez uma vintena, embora continuasse a insistir a carapauzada, à mistura com
fanecas. Uma cobra negra também quis associar-se, pelas mãos do Forte.
Leça, 01 de Agosto de 2015
Luís M. Borges
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