quarta-feira, 12 de agosto de 2015

44. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O reboliço dos carapaus

 O dia de pesca começou em tons de cinzento, na quase penumbra de um nevoeiro cerrado, que fazia ceguinhos e desorientados os nossos mestres. Disse "nossos mestres" e disse bem, pois o Cheta, o Malheiro e o Óscar não se entendiam sobre o rumo a tomar, pois eram três certezas defendidas em zaragata amigável. Só uma poderia ser a correcta ou até nenhuma...
O Forte e eu íamos ouvindo sentados e o Artur (o irmão do Óscar) eriçava-se-lhe a mosca. Ultrapassado que foi o problema e já em velocidade de cruzeiro, a três milhas da Marina, o Forte perguntou:- Já saímos da doca?

A mosca queixal do Artur desenriçou-se e os sorrisos desfizeram um pouco a frieza do nevoeiro.
Mas, continuemos a falar do Artur, o convidado especial do Óscar, o nosso estimado novo retornado de Angola. Segundo constou, ele quis acompanhar a equipa, para vivenciar um dia de pesca. Sofreu as consequências, pois estas vivências necessitam de uma certa matriz, ou seja, este ilustre acompanhante deveria estar imune ao enjoo. Portanto, não viu nada, pois baixou à enfermaria em estado de longa duração, não comeu a feijoada à transmontana preparada pelo irmão e muito menos bebeu. Cá para mim, que não sou nada desconfiado, fiquei com a impressão que houve noitada especial. Teria sido a festa de aniversário da filha do Óscar, que abonou em fartura e em alegria? No final, já na Marina, o Artur comentou assim:
- Pensei que o Cheta pescasse mais, que fosse melhor pescador
Diria o Cheta, que calado e a olhar incrédulo para o Artur, pensou: - Calha sempre para mim!

Agora, referindo a pesca, instalou-se de novo, mal as canas se levantaram, aquele ambiente propício à convivialidade, que tanto apraz a todos: piadas gostosas, vaidades machistas contadas ao pormenor, referências "abichanadas" aos mais ínfimos detalhes (a cor violeta do punho da cana do Forte foi muito notada), apartes jocosos. E isto tudo à mistura com uma enxurrada de carapaus abonados, daqueles gordos, de boca grande, dos quais o Óscar tanto gosta: - assados no forno são uma delícia - (ele diz sempre isto, quando os sargos rareiam), com lutas nada meigas, pois 2 carapaus destes equivalem em força a 2 sargos médios. Falo em luta, mas não há porra de luta nenhuma, mais se tratando de captura pura e simples, com ou sem esforço, caso se trabalhe com carretos eléctricos (preguiçosos, comodistas) ou com carretos manuais (inadaptados, velhos).


Falando em carretos, eis entretanto que aqui o "Je" começou a lamentar-se, acusando o seu carreto de fraco, de perro, de difícil no puxar do peixe, de impedimento em dar à manivela, tendo como pano de fundo repetidas ofertas de utilização dos carretos de reserva existentes no barco, que rejeitou por casmurrice. O Óscar sugeriu óleo W 40, que logo foi aplicado, tendo resultado quase imediatamente. Conclusão: irresponsabilidade total cá do artista, desleixo, incúria, pois a manutenção do material é regra básica. Esquecer-se de olear o carreto? Fraco pescador...








Bem, o Malheiro lá tirou a maior choupa do barco como sempre, o Forte foi o melhor do barco como sempre, o Cheta deixou escapar à superfície um sargo de tamanho invulgar (foi acusado de displicência, por se recusar a utilizar o galripo), o Luís pescou um goraz pequeno (a quebrar a monotonia chicharral e a renovar as espectativas) e o Óscar apresentou-nos uma feijoada à transmontana, carregadinha de chispe. Ah, o Artur continuou encolhido a dormir na cama de casal do barco, certamente a sonhar com núpcias?

Ainda se fizeram umas choupas, talvez uma vintena, embora continuasse a insistir a carapauzada, à mistura com fanecas. Uma cobra negra também quis associar-se, pelas mãos do Forte.
De vez em quando, soavam as sugestões de mudança: larga cabo, puxa cabo, mete engodo, agita engodo, quase tudo feito para o esforçado Cheta aplicar. Daqui louvo este denodado homem, que muito admiro e respeito, em paridade obviamente com os restantes.
E foi assim, em jeito de comemoração pela vida, em dever cumprido, assumidas que foram a camaradagem e a amizade, em satisfação plena pela capacidade de podermos ainda admirar e sentir a beleza natural deste mar, deste céu, desta brisa, deste sol, deste odor a salgado, destes peixes, que a pesca nos juntou mais uma vez neste conforto único, sempre repetido com prazer, sempre desejado com ânsia.

Leça, 01 de Agosto de 2015
Luís M. Borges

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