segunda-feira, 15 de junho de 2015

40. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Confiança e erro

1.Como gosto de comer uma boa sardinha fresca, assada medianamente em fogo lento, acompanhada com broa de Avintes, uma salada de alface e pimento, um vinho verde tinto e a compor um caldo verde com a respectiva tora.
Mas já não gosto que me falte a sardinha para fazer engodo, da congelada, da mais barata, com certeza da mais gorda, bem chamativa para atrair os peixes.
Aliás o tema sardinha coloca-se sempre nesta altura, pois já se foi o S. António e virão ainda o S. João e o S. Pedro. Nunca percebi bem o que terão tido estes santos a ver com a sardinha. Claro, vão-me responder que é tradição. Pois, mas qual a causa da tradição? Vão-me responder que em Portugal há muita sardinha e que o povo antigamente precisava de se empanturrar barato. Pronto. Aceito a origem das coisas e fico confiante mesmo que esteja tudo errado.

2. Vi milho doce a ser enfiado no anzol em jeito de experiência. Até achei original. Eu também cheguei a pescar sargos nos Açores, com peito de galinha, a que acrescentava mel. As carpas, é que certamente não irão gostar desta concorrência desleal, promovida pelo Lamas.
 
3. Fui acusado de ter errado, pelo Cheta: isco pequeno não dá goraz. Os gorazes são gulosos. O troço tem de ser avantajado para cativar o vermelhinho da pinta negra.
Lá está, e comigo confiante, que um isco de tamanho médio serviria. Repito: “Muitas vezes estamos confiantes, mesmo quando estamos errados”. Na próxima ida aos gorazes, irei botar um bocadão de sardinha no anzol, para não me ficar pelos carapaus e cantarilhos. A gente vai aprendendo…

4.O almoço foi ao sabor de rojões. Deu para restaurar a confiança perdida da equipa. O Cheta deslumbrou com esta especialidade. Uma comida de bom rapaz, saborosa e nutritiva.
Mas houve remoques prévios e críticas. Há sempre.
- O Cheta vai a pé para a Marina, se os rojões não estiverem bons – o Óscar sempre se preocupou com estes pormenores.
- Faltou aqui o fígado… - pareceu-me que foi o Malheiro a fazer este reparo.
- Da próxima trarei mão de vaca com grão-de-bico ou feijão vermelho com chispe… - o Óscar prometeu e irá cumprir.



5.A pesca foi de salta-pocinhas: apoita aqui, muda para ali, tenta acolá. A primeira foi nos Corais, onde ainda se miraram uns sargos e umas choupas. Despois, perante a apatia do mar e o voar silencioso do mascato, foram-se esfumando visões de arcas cheias.






Nos anzóis apostou-se no camarão, na lula, na amêijoa; no tamanho dos iscos grandes, médios e pequenos; nos efeitos ioió e de paradinha. Só os serranos reclamaram a sua presença constante, mas a penderem para o Cheta. Foi o campeão dos serranos!
Às vezes, bailava uma faneca, mas a valsa interrompia-se logo. Bem se esforçou o Malheiro a pescar na proa, mas apenas se lhe aproou o feitio…
Até achei, que o próprio engodo, ajudava a afugentar os peixes!


6.Regressámos, estendidos no pensamento de uma planície vazia, sobre uma superfície azul rasa.
Na passadeira da Marina, por entre mangueiradas dirigidas à sujidade do barco, afirmou-se:
- Até Setembro será sempre assim. O melhor será irmos aos gorazes. Ao menos…pode ser…que…percebem?
Ficámos assim todos confiantes, mesmo que estivéssemos errados.




Leça, 14 de Junho de 2015
Luís M. Borges
Bibliografia: “Pensar, depressa e devagar”, Daniel Kahneman

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