quinta-feira, 2 de julho de 2015

41. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O Deus Neptuno

 
Foi-se longe, longo amarar, à procura do imprevisível goraz, num mar de arestas duras e ravinas ondulantes. As andorinhas-do-mar seguiam a rota da embarcação numa ânsia curiosa, talvez com alguma incredulidade. É que estes 5 aventureiros desafiavam com naturalidade a ameaça insistente de um mar solto e violento. Perante a força e a grandeza daquele mar azul-escuro, aquela ínfima e frágil embarcação seguia para o ponto escolhido, afrontando a má disposição do Deus Neptuno.


Apoitou-se com alguma dificuldade, pois os pescadores pareciam bêbados no convés do barco, quase a caírem em desequilíbrios seguidos. Agarravam-se bem, não fôra o medo de caírem ao mar.
Já em acção de pesca, 4 deles iniciaram o jogo. Uma caixa de esferovite carregada de sardinha com sal grosso, mais me parecia estar a pedir grelha, de tão bonita que estava, mas o seu destino era outro – isco. Aos bocados, filetes desta sardinha eram amarrados, de modo a esconderem bem os anzóis letais. É que o goraz, a mais de 100 metros de profundidade, portanto na escuridão quase absoluta, vê tão bem como um humano num dia claro. Assim, este bocado de sardinha tinha de se apresentar no fundo ao goraz, como que caindo naturalmente lá do alto, meio estraçalhado pelo ataque de predadores ao cardume. Seriam restos da comezaina de algumas tintureiras…

Esta será eventualmente a perspectiva do goraz. Ele recolhe o que vai descendo, inspecciona, cheira e se estes factores o convencerem em termos de realismo, primeiro prova e se lhe agradar acaba por abocanhar. Penso que será assim qua a história acontece lá por baixo…
É evidente que o nosso goraz não se limita a recolher pedaços mortos de peixes, pois é uma espécie omnívora carnívora, alimentando-se de todo o tipo de invertebrados pelágicos, crustáceos, moluscos, ovas, larvas e juvenis de outros peixes.

Enfim, será esta diversidade alimentar, que lhe confere aquele sabor único, quando assado no forno.
Regressemos à “jangada” e aos 5 intrépidos e ousados pescadores lúdicos. Um deles, apresentou baixa devidamente comprovada por atestado visual e empenho da palavra: cor amarela esverdeada, má disposição, desatino olfactivo com manifesta falta de apetite e uma irresistível vontade de dormir. A cana dele foi montada, lá isso foi, mas sem préstimo! Limitou-se a ver pescar, a comentar de vez em quando qualquer cena e a esperar sentado. No final, ainda lhe calhou uma marmita de peixe, uma doação com que se premeia qualquer doentinho. A moralidade desta companha é exemplar. Mas, quem foi este inútil? O Luís Borges, eu aqui presente, o que escreve. Desculpou-se com as comezainas da véspera, poucas horas de sono, quase uma indigestão e arranjando um ar de desgraçadinho, lá convenceu os amigos maduros, mas muito sensíveis a fraquezas alheias, a dispensarem-no.

Quanto aos 4 resistentes, diga-se arrojados pescadores, o Forte estava em convalescença; o Malheiro aterrou literalmente de borco na cama no final da pescaria; o Óscar acabou por ser gabado pela boa forma como enfrentou toda a confusão reinante, tendo efectuado uma viagem de regresso notável em termos de navegação (nem um solavanco) e o Cheta lixou a coluna.
Mas a piorar, o almoço apresentou-se “ligeiro”, muito “adequado” ao estado do mar: nada mais, nada menos, que grão-de-bico com mão de vaca! Ah, persistentes duma figa…
Sobre a pesca, saíram 1 congro, 1 polvo, 4 gorazes, 30 carapaus, 10 cantarilhos, 15 fanecas e 2 ruivos. Não haja dúvida: uma pescaria a condizer com os tempos de crise eterna em que vivemos neste País. Gostei particularmente da expectativa que se viveu, quando o Óscar começou a içar um peso pesado – o tal congro. Todos torciam por um peixe-galo, mas acabou abençoado com 8 quilos de mais violência e a morte imediata da fera, que rosnava e queria morder.




Para encerrar esta crónica, acho que devo expressar um agradecimento: dispensaram-me do serviço de limpeza do barco. Fico a dever aos meus colegas, mais esta atitude cristã de compaixão pelo próximo. Estou convertido!

Leça, 27 de Junho de 2015
Luís M. Borges

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