O Deus Neptuno
Foi-se longe, longo
amarar, à procura do imprevisível goraz, num mar de arestas duras e ravinas
ondulantes. As andorinhas-do-mar seguiam a rota da embarcação numa ânsia
curiosa, talvez com alguma incredulidade. É que estes 5 aventureiros desafiavam
com naturalidade a ameaça insistente de um mar solto e violento. Perante a
força e a grandeza daquele mar azul-escuro, aquela ínfima e frágil embarcação
seguia para o ponto escolhido, afrontando a má disposição do Deus Neptuno.
Apoitou-se com alguma dificuldade, pois os pescadores pareciam bêbados no convés do barco, quase a caírem em desequilíbrios seguidos. Agarravam-se bem, não fôra o medo de caírem ao mar.
Já em acção de pesca,
4 deles iniciaram o jogo. Uma caixa de esferovite carregada de sardinha com sal
grosso, mais me parecia estar a pedir grelha, de tão bonita que estava, mas o
seu destino era outro – isco. Aos bocados, filetes desta sardinha eram
amarrados, de modo a esconderem bem os anzóis letais. É que o goraz, a mais de
100 metros de profundidade, portanto na escuridão quase absoluta, vê tão bem
como um humano num dia claro. Assim, este bocado de sardinha tinha de se
apresentar no fundo ao goraz, como que caindo naturalmente lá do alto, meio
estraçalhado pelo ataque de predadores ao cardume. Seriam restos da comezaina
de algumas tintureiras…
Esta será
eventualmente a perspectiva do goraz. Ele recolhe o que vai descendo,
inspecciona, cheira e se estes factores o convencerem em termos de realismo,
primeiro prova e se lhe agradar acaba por abocanhar. Penso que será assim qua a
história acontece lá por baixo…
É evidente que o nosso
goraz não se limita a recolher pedaços mortos de peixes, pois é uma espécie
omnívora carnívora, alimentando-se de todo o tipo de invertebrados pelágicos,
crustáceos, moluscos, ovas, larvas e juvenis de outros peixes.
Enfim, será esta diversidade alimentar, que lhe confere aquele sabor único, quando assado no forno.
Regressemos à “jangada”
e aos 5 intrépidos e ousados pescadores lúdicos. Um deles, apresentou baixa
devidamente comprovada por atestado visual e empenho da palavra: cor amarela
esverdeada, má disposição, desatino olfactivo com manifesta falta de apetite e
uma irresistível vontade de dormir. A cana dele foi montada, lá isso foi, mas
sem préstimo! Limitou-se a ver pescar, a comentar de vez em quando qualquer
cena e a esperar sentado. No final, ainda lhe calhou uma marmita de peixe, uma
doação com que se premeia qualquer doentinho. A moralidade desta companha é
exemplar. Mas, quem foi este inútil? O Luís Borges, eu aqui presente, o que
escreve. Desculpou-se com as comezainas da véspera, poucas horas de sono, quase
uma indigestão e arranjando um ar de desgraçadinho, lá convenceu os amigos
maduros, mas muito sensíveis a fraquezas alheias, a dispensarem-no.
Quanto aos 4
resistentes, diga-se arrojados pescadores, o Forte estava em convalescença; o
Malheiro aterrou literalmente de borco na cama no final da pescaria; o Óscar
acabou por ser gabado pela boa forma como enfrentou toda a confusão reinante,
tendo efectuado uma viagem de regresso notável em termos de navegação (nem um
solavanco) e o Cheta lixou a coluna.
Mas a piorar, o almoço
apresentou-se “ligeiro”, muito “adequado” ao estado do mar: nada mais, nada
menos, que grão-de-bico com mão de vaca! Ah, persistentes duma figa…
Sobre a pesca, saíram
1 congro, 1 polvo, 4 gorazes, 30 carapaus, 10 cantarilhos, 15 fanecas e 2
ruivos. Não haja dúvida: uma pescaria a condizer com os tempos de crise eterna
em que vivemos neste País. Gostei particularmente da expectativa que se viveu,
quando o Óscar começou a içar um peso pesado – o tal congro. Todos torciam por
um peixe-galo, mas acabou abençoado com 8 quilos de mais violência e a morte
imediata da fera, que rosnava e queria morder.
Para encerrar esta
crónica, acho que devo expressar um agradecimento: dispensaram-me do serviço de
limpeza do barco. Fico a dever aos meus colegas, mais esta atitude cristã de
compaixão pelo próximo. Estou convertido!
Leça, 27 de Junho de 2015
Luís M. Borges
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