O insustentável peso da carência
Fez-se o alvorecer na Marina
de Leça ao som de piares desnecessários de gaivotas, em desagrado pela aragem
fresca, que corria.
Nesta terra de horizonte e mar
via-se que o nevoeiro baixo acolhia, desafiando a proximidade, prometendo uma
navegação cuidadosa. Os olhos da nossa segurança eram os do Cheta e a boa
condução do Óscar.
O mar tinha alteado, a vaga
batia, o barco saltava e caía em estrondo como em buracos de estrada, pelo
desabafo queixoso do Lamas.
Às 07h00 a poita mergulhou no
04 e as canas apontaram no mesmo sentido. Iam à procura dos seres que habitavam
a terra profundamente líquida. Encontraram cavalas em maioria, carapaus a
fartar e bastantes serranos, esses minorcas pesados. De sargos, só de memória,
pois nem um só se imiscuiu no concerto da pescaria. Algumas fanecas
corresponderam.
O Óscar chegou a ajoelhar-se e
a prometer ir a Fátima a pé; o Cheta acreditava na taça para o Sporting; o
Malheiro queria congros; o Lamas desafiava a boa disposição; eu, desculpem lá a
leveza, ia entretanto sentindo o peso dos carapaus. O contexto apresentava-se
insustentável!
Porém, todavia, contudo e
apesar disto tudo, eis que a panela foi ao lume e nas mãos do Óscar apareceu um
pacote de massa. Mais uma vez massa...irra.
Pousei a cana no descanso e
dediquei-me ao repasto e ao reparo: reparei na satisfação do Óscar a encher os
pratos de massa de coelho; apreciei a delicadeza do Cheta a abrir a garrafa de
verde branco; registei o meu pedido de repetição da massaroca e a irritação do
Malheiro, afirmando que este coelho tinha ossos a mais; notei no Lamas um
requinte especial a saborear o pão-de-ló e aquele queijo da serra.
Finda a satisfação
gastronómica, revelou-se novamente a insatisfação piscatória. Decidimos mudar
de poiso.
- Oh vã glória...tri-repetimos
poitadas, sempre com a esperança em alta. A realidade ficou-se em baixa. Esta
era o estado das coisas...nada a fazer, pois os peixes aos costumes disseram
nada.
Pelo que repetimos reparos e
frases inócuas: o mar tinha amansado, o sol ardia de reflexos nas águas do mar,
o vento despediu-se.
Na oitava hora, a nossa
atitude começou a duvidar, instalando um certo desconforto. O profundo
manteve-se indiferente.
E assim, a distribuição
efectuada pelo Óscar foi um acto meramente simbólico: meia dúzia de cavalas e
carapaus a cada um, mais uns tantos contrapesos.
- Oh mar salgado, não me dês
lágrimas, dá-me peixe!
Leça, 31 de Maio de 2015
Luís M. Borges
;
Nenhum comentário:
Postar um comentário