sábado, 13 de junho de 2015

38. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O insustentável peso da carência
 
Fez-se o alvorecer na Marina de Leça ao som de piares desnecessários de gaivotas, em desagrado pela aragem fresca, que corria.
Nesta terra de horizonte e mar via-se que o nevoeiro baixo acolhia, desafiando a proximidade, prometendo uma navegação cuidadosa. Os olhos da nossa segurança eram os do Cheta e a boa condução do Óscar.
O mar tinha alteado, a vaga batia, o barco saltava e caía em estrondo como em buracos de estrada, pelo desabafo queixoso do Lamas.
Às 07h00 a poita mergulhou no 04 e as canas apontaram no mesmo sentido. Iam à procura dos seres que habitavam a terra profundamente líquida. Encontraram cavalas em maioria, carapaus a fartar e bastantes serranos, esses minorcas pesados. De sargos, só de memória, pois nem um só se imiscuiu no concerto da pescaria. Algumas fanecas corresponderam.



O Óscar chegou a ajoelhar-se e a prometer ir a Fátima a pé; o Cheta acreditava na taça para o Sporting; o Malheiro queria congros; o Lamas desafiava a boa disposição; eu, desculpem lá a leveza, ia entretanto sentindo o peso dos carapaus. O contexto apresentava-se insustentável!
Porém, todavia, contudo e apesar disto tudo, eis que a panela foi ao lume e nas mãos do Óscar apareceu um pacote de massa. Mais uma vez massa...irra. 

Pousei a cana no descanso e dediquei-me ao repasto e ao reparo: reparei na satisfação do Óscar a encher os pratos de massa de coelho; apreciei a delicadeza do Cheta a abrir a garrafa de verde branco; registei o meu pedido de repetição da massaroca e a irritação do Malheiro, afirmando que este coelho tinha ossos a mais; notei no Lamas um requinte especial a saborear o pão-de-ló e aquele queijo da serra.
Finda a satisfação gastronómica, revelou-se novamente a insatisfação piscatória. Decidimos mudar de poiso. 



- Oh vã glória...tri-repetimos poitadas, sempre com a esperança em alta. A realidade ficou-se em baixa. Esta era o estado das coisas...nada a fazer, pois os peixes aos costumes disseram nada.
Pelo que repetimos reparos e frases inócuas: o mar tinha amansado, o sol ardia de reflexos nas águas do mar, o vento despediu-se.
Na oitava hora, a nossa atitude começou a duvidar, instalando um certo desconforto. O profundo manteve-se indiferente. 





E assim, a distribuição efectuada pelo Óscar foi um acto meramente simbólico: meia dúzia de cavalas e carapaus a cada um, mais uns tantos contrapesos.
- Oh mar salgado, não me dês lágrimas, dá-me peixe!

Leça, 31 de Maio de 2015
Luís M. Borges


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