"Tanta hora somada a nada"
Ah, mar de Matosinhos, que já
foi mar e que deu peixe. "Tanta hora somada a nada".
A pesca deste dia, foi de novo
absurda, cega para a memória, hermética para a acção, miserável para a jorna.
Uma merda!
Duas dúzias de serranos, meia dúzia
de fanecas e outro tanto de sargos, menos que meia dúzia de carapaus, um besugo
e uma cabra.
Não gosto assim do meu mundo,
pois acho que nem eu o mereço, nem os meus colegas o aceitam. Um dia inteiro
para ver como acabava a tarde. E o mar e os peixes, a abusarem de nós, na
perfídia de uma grande anedota, feita pescaria. Hoje, estou mais pobre, pois
perdi o ritmo, perdi a confiança nos meus conhecimentos, perdi a minha
auto-estima, perdi a boa disposição. Foi quase um amor de perdição, mas sem o
amor. "Merda iminentíssima"!
E depois veio de novo o
inefável Malheiro, com a apresentação de um cozido à portuguesa para o almoço, com
uma cana de Big-Game para os congros e com uma tintureira, pescada ao acaso.
Foi demais!
"Uma espuma de sal
bateu-lhe alto na cabeça, nunca mais foi o mesmo..." Teria sido isto?
Bateu-lhe uma espuma de sal na cabeça?
Dou vivas a estes resignados pescadores, altruístas a rodos, a pensarem que amanhã, num certo dia ou dias, é que se fará o ajuste de contas. Alguém será capaz de rir?
Não, os capítulos da nossa
vida é que fazem o nosso livro. Por enquanto, ainda temos esperança de
continuar a escrever com as nossas canas, magníficos capítulos. O livro será um
êxito.
Marina de Leça, 11 de Abril de 2015.
Luís M. Borges
Bibliografia:
"Servidões" de Herberto Helder
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