domingo, 12 de abril de 2015

36. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Sexta-feira Santa
 
Esteve para ser no sábado. O forte sugeriu a véspera. Verificou-se a unanimidade. Gosto de dias santificados…
Sob o signo de uma Primavera radiosa, o mar correspondeu, não se atrevendo a contrariar a tendência do eterno retorno.

O Pentágono definido e cada um por si, sentiam-se animados. Já distava no tempo a última saída, a qual não teve sequer substância. E para que o pleno fosse de novo alcançado, houve contributos: o Malheiro trouxe a fisga; o Forte a canção religiosa; o Óscar um fio novo; o Cheta as calças azuis e o Borges as iscas de fígado. Pentágono da perfeição!

No rumo definido, enquanto a embarcação cortava a ondulação ligeira, desenvolviam-se histórias lembradas: sobre a tradição da limpeza das casas na Páscoa, exagerada pelas mulheres; sobre as exigências e minúcias das vistorias navais; sobre a caixa do Malheiro, já dotada de chipes; sobre gorazes não pescados pelo Forte; sobre a recente taquicardia, que deu ao Borges…

Parou-se no 04 e logo as novidades se induziram nos olhos e na admiração. A mais relevante foram os flutuadores aplicados pelo Malheiro nos estralhos perto dos anzóis – pedaços de rolha de cortiça. Defendia-se ele assim:
- É para fazer flutuar o isco e o anzol.
- Olha se a rolha pega!

Concerto afinado de risadas. O certo, é que após o almoço, as rolhas de cortiça das garrafas consumidas, foram todas parar ao bolso do Malheiro. Mas, refira-se com seriedade e com vontade de analisar a questão: as únicas choupas e boas, pescadas no barco, foram pescadas por ele (5 delas, lindas e gordas). Os outros, sim os outros, só carapaus…
Depois, vieram os abelhões-peludos. Grandes, não diria ameaçadores, a pousarem nas mãos, canas, iscos e roupa dos admirados pescadores. Alguém gritou:
- Matem esses bichos.
- Não mata nada. São inofensivos. Não têm ferrão.
Já todos permitiam que os bichinhos lhes corressem pelas mãos e à primeira brisa mais forte, acabaram por levantar voo, a procurarem os seus destinos. 

Houve igualmente um cangulo meio bêbado, atonado, caçado pelo Óscar com o camaroeiro.
- Vai dar uns bons filetes.

E ainda depois, apareceram as bogas do mar, as denominadas “cagonas”, pois misturadas aos outros peixes, borram-nos todos, dando-lhes péssimo aspecto e mau gosto. As gaivotas agradeceram.
Esta dádiva lembrou a hora do reforço alimentar, pelo que o Borges apresentou uma tachada de iscas de fígado de cebolada. Três de nós repetiram. O Malheiro e o Forte repudiaram! Gente fina é outra coisa!
Fiquemos por aqui nas novidades…

No lastro destas vivências, a carapauzada ia entrando aos magotes. Carapaus de corpo inteiro, difíceis de tirar, a estremecerem no cabaz em desespero.
De tarde, depois de umas garfadas de bacalhau dourado, abrandou a revoada chicharral e pintaram três gorazes (ás 14h00). A malta esperançou, mas logo se desiludiu. Estoiraram só aqueles foguetes. Não deu para fazer a festa.
Contudo, a festa foi realizada, mas com outra espécie: o congro. O Cheta arrancou dois valentes congros, o Óscar repetiu e pouco depois seguiu-se o Malheiro, este lá na proa para onde tinha emigrado, a fugir das trapalhadas com o Óscar.

Mais para o final das lides, seriam aí umas 17h00, eu dei-lhe bem nos carapaus, outra vez. Mas o regresso era uma urgência, estava na cara exausta do Forte, obviamente o melhor pescador do barco.
Ao som do guincho, foi-se repetindo um refrão, que o Malheiro tinha apresentado, em sua defesa. O Óscar acusava-o de ser ele o responsável pelos emaranhamentos constantes, por causa da utilização de bóias de cortiça nos estralhos.




Recitava ele, contra as iscagens de sardinha, utilizadas pelo Óscar.
- Iscos com sardinha, fazem ventoinha.
E esta, hem? O homem é poeta. Mas, eu gosto.


Marina de Leça, 03 de Abril de 2015
Luís M. Borges


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