terça-feira, 1 de janeiro de 2019

116. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

TRANQUILO



Dá-me lume...Dá-me lume...


Primeiro, acalma-te.
Depois, fica assim
para o resto da vida.
Ron Padgett, Poemas Escolhidos



Pose de Campeão

1.Eu queria que este dia de pesca fosse marcante, "tranquilinho" (como diria uma pessoa minha amiga dada a floreados linguísticos). Desejava, que assim fosse!



Peixes a bulirem


Acrescento, que me considero uma pessoa bastante auto-controlada, do género "emotiva, activa, secundária", ou seja emociono-me facilmente, entrego-me a tarefas executivas organizadamente e penso antes de agir. Estas características tornam-me um ser humano tranquilo, mas não parado, não expressivo, não insensível, não irreflectido, não do género do macaquinho que não quer ver, ouvir e falar.



Febras a mais


2.Assim aconteceu, mas lá está, foi um dia de pesca muito emotivo, bastante activo e sobretudo consciente. Um dia iniciado a frio (vento forte e gelado de leste) e a violência ( mar com ondulação alta e descontrolada). 


O nervosismo da cana


Com o dia andando a coisa melhorou, desaparecendo o vento e normalizando-se o estado do mar, com os peixes a bulirem (bons exemplares), as febras a sobrarem, as zaragatas de fios (foste tu, não fui eu, corta, não corta...eu assumi culpas e desculpas), o vinho a entornar-se, o queijo a cair à água, ninguém a querer fazer café mas a desejarem tomá-lo sob uma pergunta repetida: o bagaço?



Inauguração da arca nova


3.Salientando, sublinho alguns pormenores observados, com aquela bonomia irónica:
A minha ponteira esteve muito nervosa neste dia 
Uma das tesoura (a amarela) foi lançada aos peixes



Um "colete" amarelo. Foi ao fundo!


A tábua dos iscos partiu-se
O tapete rotinho, envergonhado, quis suicidar-se. Foi salvo...
A minha nova arca deixou-se estrear
O Forte a queixar-se (hoje eu faço tudo),



O senhor dos anéis, desculpem, das caixas


O Cheta a lamentar-se (vou apanhar uma gripe),
O Malheiro a gabar-se (chegou o campeão),
O Óscar a procurar besugos (com uma choupa de 2 kg),



Que chatice. Não é um besugo


O Luís a reclamar o maior sargo (coisa rara), 
O Cheta a exultar com o pargo (pequeno…),
O Forte a dizer "duas das 3 caixas são minhas",
Enfim, todos felizes.



Parece-me um besugo gordo

4.Termino com um poema de ALERTA escrito por Fernando Pessoa. Tomem atenção, ok?

Ano Novo

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos


5.Antes de terminar... UM DESEJO MEU:

Que às 24 horas do dia 31 de Dezembro todos os meus amigos tenham assumido o Ano Novo com uma CENOURA deste tamanho.



Cenoura 19

Leça, 22 de Dezembro de 2018
Luís M Borges

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

115. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

FELIZ NATAL




1. Dia 22 de Dezembro


Esperávamos um dia de pesca entusiasmante. Dizia-se, que umas choupas e uns sargos graúdos, iriam proporcionar-nos a felicidade.  Previa-se, um mar mansinho sem vento, segundo o nosso confidente Windguru. Aceitava-se, que o almoço teria a assinatura do Óscar,     uma massa de vitela. 



Sentia-se, que os quatro românticos da pesca, fariam deste dia uma espécie de preparação Natalícia. Mais ou menos, os verbos acertaram: de sargos e choupa fenomenais nada...de mar à feição,  confirmou-se...de massa avitelada, também escapou...de preparação natalícia,  faltou um besugo. Já explico.


2. Faltou um besugo


Às 16h00 foi combinada a recolha de canas e por consequência o encerramento da sessão de pesca. Dividiu-se cristãmente o pescado, acção efectuada em 5 minutos, dada a exiguidade da colecta. Os dois da retaguarda mais o ponta direita (Cheta,Forte e Borges) desmontaram as suas armas com rapidez, cumprindo o protocolo. Mas o Óscar actuou à  revelia e disse:


- Vou pescar uns besugos!

E ria-se...e ria-se…

Risota, claro. Adivinhava-se que iria acontecer "tanga"! Mas não. O Óscar tirou mesmo 2 besugos ao primeiro lançamento e disse:

- Vou tirar mais dois para levarmos cada um o seu. Agora é que os besugos pegam. Eles chegaram.

Tirou os três…

Saíu mais um, para espanto dos descrentes. O homem ria-se. Então o hesitante Forte pegou na cana e no carreto e com imensa convicção disse:


- Vou montar de novo a cana para tirar também uns besugos.

Acabou por desistir…

Entretanto, o Óscar pesca duas choupas e um carapau. O Forte pára a montagem imediatamente. Interessavam-lhe apenas os besugos. Mais uma insistência do Óscar aos besugos mas apenas saíram dois carapaus. Foi quando o Forte desistiu da montagem e o Óscar da insistência.

Dava palpites…

Da "tanga" o Forte não se livrou e de falta de êxito (quanto aos quatro : um para cada) também o Óscar ouviu palavras de injustiça equitativa.
Arrancámos rumo a Leça para cumprirmos um Feliz Natal.


Leça,  22 de Dezembro de 2018
Luís M. Borges

114. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

PASSEIO ALEGRE


1.Feriado 


O feriado aconteceu numa sexta-feira, o que permitiu uma antecipação da sessão de pesca, que habitualmente decorre aos sábados. Obviamente, que também foram tidas em conta as condições favoráveis do estado do mar, pois no sábado não iria acontecer assim, dada a previsão de ventos fortes. Apresentaram-se à chamada quatro de cinco. A baixa do Forte é sempre lamentada por nós e sobretudo por ele, que se entusiasma a pescar. Aquele seu nervo do braço está a portar-se mal. Às 6 horas já circulavam carradas de pescadores pelo passadiço do Marina a fim de aproveitarem a benesse de dia feriado e do bom estado do mar. Havia frenesim no embarcar, o que se compreende.

2. Primeira poitada


Primeiro uns carapaus. Estes seres não nos largam! Foram eles os inauguradores da refrega piscatória. Depois umas bogas, essas inúteis e desprezadas meninas do mar, que se apegaram a nós neste dia. Levavam logo uma surra, no acto de desferrar. Mais tarde umas fanecas amarelinhas, toleradas pela malta, em quantidade suficiente para uma refeição lá em casa. O Cheta sorria… Finalmente, umas belas choupas e uns sargos gordos. Poucos, mas entusiasmantes. Assim se foi fazendo a manhã.



3. Largar cabo


 O Malheiro não gosta de inactividade pesqueira. Prefere sempre o muito ao moderado, a mudança à espera. Acha que o “milagre das rosas” acontece largando mais cabo, pensando que os peixinhos lá em baixo têm morada certa e ignorando que é importante “fazer pesqueiro” através da engodagem, o que pode demorar. Num aspecto ele tem razão: podem realmente os peixes não proliferaram por ali. O Cheta acaba sempre por concluir certeiramente: - Se largamos cabo para sítio melhor e por conseguinte sai peixe, “olarilolé”, que foi boa ideia. Se largamos cabo para pior, “chiça caneco”, que foi má decisão. Nas várias propostas do Malheiro de “vou largar cabo”, só uma delas foi efectivamente certeiro: o que deu origem à pesca dos sargos e umas choupas quileiras. OLARILOLÉ.



4. Talharim 


O Cheta não apreciou o talharim. Com produção Óscar, o talharim viu o seu estatuto de massa de élite enxovalhado. O raio do talharim teimava em cair do prato. Teimava a não se aguentar no garfo. Houve que dissesse que esta moda do talharim devia ter origem chinesa. 


Já o bife grelhado foi muito bem aceite. Eu sugeri que da próxima vez se iria comer sushi de cavala por causa da rejeição do talharim. Os golfinhos, que nadavam por ali certamente ouviram a proposta, pois rodearam-nos de imediato, logo seguidos pelas gaivotas em bando. No final, o VAT69, o paradigma dos deprimidos, fez ultrapassar o imbróglio do talharim e o espectáculo dos cetáceos.

5. Rotina 
 
Pelas 17h00 demos início ao regresso. Às 19h00 entrei em casa, iniciando a rotina do fim de festa: guardar material, separar peixe (para oferecer, congelar e comer); tomar banho; saborear uma sopa e deitar na caminha.


Leça, 05 de Outubro de 2018
Luís M. Borges

113. MEMÓRIAS DO MAR

VIVER NOS BRAÇOS DA ILHA

1.Ria mais que formosa


O mapa é elucidativo  acerca da grandeza da Ria Formosa. A própria designação caracteriza-a muito bem, dado ser um dos mais belos lugares de Portugal, na sua especificidade. Vivi 15 dias por aqui.

2. O desenho do Farol


A Ilha do Farol insere-se neste espaço maravilhoso, justamente o mais a sul de Portugal continental.
É  servida por carreiras fluviais que a ligam a Faro e a Olhão.A sua mancha edificada é mínima, sendo habitada permanentemente por meia dúzia de pessoas e tendo o seu pico de ocupação no período estival.
Os paradigmas desta Ilha são o imponente farol de Sta Maria, a bela praia de areia branca e o concorrido molhe.





De 15 a 30 de Setembro pesquei, nadei, comi, dormi e convivi com o meu amigo Adérito. Foram 15 dias de muito sol, água salgada, ar puro e muitos peixes.

3.Mestre Sabino


Há muitos anos que conheço Mestre Sabino. É um velho senhor da Ilha, respeitado no mundo da pesca. Um pescador carismático.
Já quanto a carisma, outros profissionais da pesca artesanal designados como “Os filhos da Culatra”, não se importam muito com dignidade profissional. Até colocam redes no meio do canal e a partir das rochas do molhe, com as autoridades feitas e de olhos fechados.
Outros pescadores são os de tipo lúdico. É nestes que me insiro, praticando a pesca no molhe com o meu amigo Adérito.

4. O admirável mundo novo


Dizem que o encanto e o sossego da Ilha está a acabar. Porquê?
São aos milhares, invadindo tudo. Atulham os barcos da carreira, fazem bichas nas bilheteiras, enchem os restaurantes locais, inundam a praia, passeiam no molhe, insinuam-se mostrando superioridade, ostentam uma simpatia falsa e dinheiro. É demasiado: estas bactérias voam, nadam e têm pezinhos…
Também acho que a nossa querida Ilha do Farol irá perder todas as suas virtudes com esta avalanche turística, com esta marabunta.

5. Adérito, o pescador atleta


A casa, que o Adérito aluga anualmente na Ilha do Farol, encontra-se implantada no local certo. Tem todas as benfeitorias à volta: A Associação, o Restaurante “À-do-João”, a praia e o molhe a dois passos, bem como a doca. 
Tem igualmente óptimas condições de alojamento, com serventias adequadas ao fim para que é alugada.
É em Setembro, que o Adérito divide o mês: os primeiros 15 dias para a família e amigos íntimos; os últimos 15 dias para a pesca comigo. Esta gentileza anual do Adérito comove-me, bem identificativa da força da amizade.
E corre e pesca que se farta…dou um exemplo:
- Borges, vou correr um bocado.
Passadas que foram duas horas apresenta-se com meia dúzia de sargos (um deles com mais de 1 kg). 


O que será que faz correr tanto e pescar tão bem o Adérito? Penso que sei, mas não digo!

6. Ilha Geometria 

Quadrado 


Nada de especial aconteceu no Decathlon ao ter adquirido uma mochila com assento. Que poderia aliás ter acontecido? Andava há bastante tempo a matutar no meu conforto com 4 imagens a martelarem-me insistentemente: - Sentadinho no molhe - Cana em riste - Sorriso aberto - Relaxamento total. 


Mas, o meu conforto não se limitava a esta cena quadrada do banco. Havia mais geometria, se havia… 

Duas linhas paralelas 


Eu e o Dr Adérito corremos com as canas paralelas. Nem podia ser de outro modo, pois o molhe assim nos proporciona esse efeito. O molhe é um longo paredão com duas rectas e um cotovelo sensivelmente ao meio. Ambos pescamos para os mesmos lados juntos (mar ou ria), sejam sargos, cavalas, bem como outras espécies. 


Em ocasiões bem definidas impostas por marés, horas e ventos, o Adérito vai sózinho tentar pescar robalos, bailas e anchovas, enquanto eu tento a pesca fácil com bóia às “viúvas”, às taínhas e até às “picas”. Quando assim acontece, a geometria torna-linear.


Triângulos 


Há momentos em que se arranjam triângulos: triângulos de peixes. Fotos, triângulos de conchas, triângulos de coisas vulgares, triângulos de pessoas… Eu e o Adérito somos muito triangulares, para além de paralelos ou lineares. Insistimos na triangulação quando vamos à Associação ver futebol com um amigo e afogamos os desaires futebolísticos com 3 cálices de Amêndoa Amarga.

Círculos 




Aparecem constantemente quando comemos. Comecemos pelos pratos recheados de bela comida de uma variedade intrigante. Fotos. Reparem bem nas imagens. O círculo que mais me encanta chama-se o “Círculo robalo”, seguido do “Círculo sargo” ou do “Círculo anchova”, até do “Círculo biqueirão”, camarão, etc. Depois, vêm os “Círculo do copo”, da chávena… Refira -se ainda os Círculos dos tachos, das panelas e das frigideiras, muito importantes… 

Retângulos 


A cama. A minha cama onde repouso das fadigas agradáveis da pesca. A mesa. A nossa mesa onde nos deliciamos com petiscos e onde organizamos e preparamos os materiais de pesca. Outras geometrias Isto de se ver o mundo através da geometria tem muito que se lhe diga. Euclides foi primeiro, vindo depois Descartes e muitos outros até ao presente. Matéria interessante. 

7. Olho de peixe


Os peixes ocuparam todos os nossos alvores e entardeceres, porque é nestas alturas que eles “comem tudo e não deixam nada”. Assim fosse na sociedade humana. Viriam bem presos nos anzóis…

E como pescávamos?


- Era ao fundo com chumbadas de 60/70 grs, canas e carretos fortes, fios multi e mono e iscos variados; Era à bóia pesada (25/30/40 grs) a 10/20/30 metros de profundidade- Era à bóia ligeira (5/10 grs); Era ao “spinning” com amostras e pingalins.

E que espécies? 




Era o incrível peixe-porco, essa notável espécie pré-histórica; Era o feioso charroco, com o seu grunhir caraterístico; Era a inocente tainha, presa sem dó nem piedade, nos momentos vagos; Era a impertinente e voraz dobrada (mais conhecida por “viúva”), a antecipar-se no ataque aos iscos; Era o desejado sargo, um príncipe do molhe, ansiosamente desejado pela maioria dos pescadores; Era a requintada dourada (a tal espécie de que gosta de comer à mesa), a fina flor da Ilha; Eram os amados robalos e bailas, para quem a disciplina horária, obrigava os pescadores a cumprir horários; Era a violenta anchova, detentora do troféu “melhor lutadora”, exclusiva de pescadores atentos e arrojados; Era a grandeza da corvina e terror das tainhas, só alcançável por pescadores de elite; E muitas mais espécies. Seria fastidioso enumerá-las.


8. Filetes de peixe

O arroz malandro de tomate e pimento encaixa muito bem com filetes de peixe-porco.




Ei-lo imponente e estranho ainda vivo; ei-lo vestido de tule; ei-lo nu e finalmente transformado em gostosos filetes. A pesca tem disto. Este peixe deu esta telenovela em 4 episódios, um exemplo cabal da realidade transformada.
Como será a novela das Chamuças?


Ainda não me referi ao vinho…alentejano…a condizer com o contexto. Este, bebido que seja mais um copito, também nos transforma.

9. Viagem no tempo


Pedi emprestada uma máquina do tempo. Viajei até ao Farol em 2019, a pensar nos braços da Ilha, aquela que me envolve.
Se lá fui por breves momentos é porque lá irei de novo no próximo ano. É a verdade antecipada.

Ilha do Farol, 17 a 31 de Outubro de 2018
Luís M. Borges