sexta-feira, 21 de abril de 2017

84. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Barcelos Galaró, por si só, é luxo só. Olha só!

 O galaró (1)

Cabidela

I
Na minha terra o arroz sai malandrinho
E os gostosos grelos tenros são do Amaral.
Mas se em Fontelas se pescasse devagarinho,
O vinho teria de ser, claro, do Marmelal.

 O anzol (2)

Forte e a insaciedade

II
Aos pica-no-chão de Barcelos nunca lhes vi a cor,
Só que o mar é azul e os peixes brilham ao sol.
Somos cinco, somos quatro, todos cheios de amor.
Será que interessa a alguém o tamanho do anzol?

Chupa a pata


Ofende o Borges
.

III
Sai o Cheta, entra o Malheiro, canta o Óscar,
Ri-se o Lamas, ofende o Borges, cala-se o Forte.
Come a coxa, chupa a pata, mastiga devagar,
O tempo consome-se é no Minho, é no Norte.

Porque te ris menina Propícia?

D. Rosa

IV
Está bom D. Rosa, adorámos e foi bastante.
Comeram os olhos e ficou tanto na travessa!
Hora noturna, hora tardia! Que coisa tão irritante.
Ah, o Óscar conduz, traz a gente que regressa.

O Óscar conduz-nos, até...
 
... à beleza dos peixes (3)
V
O primeiro fez-se em Fevereiro de sorte
E repetiu-se em Abril num mar de gorazes.
Quem comeu em demasia? O Borges e o Forte.
Insaciedades de pescador em bocas vorazes!

A baleia assistiu. Que boca voraz! (4)
É para o Encarregado (5)

Leça, 8 de Abril de 2017
Luís M. Borges, vai-te só à cabidela. Kkkkkkkkkkk
Quem ficou com uma cabeça assim? (6)

A fada do Borges e do Forte (7)

OBS: Fotos do Pinterest (1,2,3,4,5,6.7)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

83. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



ANZÓIS PROFISSIONAIS


1.O silêncio da madrugada
Quando saí de casa (às 05h30) o silêncio da madrugada fez-se notar. Só o ladrar de um cão vigilante atravessou o silêncio.
A nascente e a poente ainda lutavam a claridade e a escuridão.
Devagar, o meu Smart depressa chegou à marina, através de um deserto de carros nas vias. Rodou e rodou à vontade.


2.As sentinelas
Ao estacionar, baloiçavam suavemente os mastros-sentinelas dos veleiros, a gradearem a visão do nascer do dia. Os barcos gemiam pela irrequietude do mar e pelo vento fresco que passava.
Já navegando, aquele guindaste tornou-se nítido. Uma estátua. O nosso olhar deteve-se e agradeceu a visão.
Não tardou que o sol rompesse e a magia da manhã tomasse conta de nós.


3. Repetir convicções
Dadas as excelentes prestações piscatórias das vezes anteriores, apoitou-se no primeiro pesqueiro, na convicção de que “eles estivessem lá”. Tal não aconteceu: canas imóveis, carretos mudos, rostos incrédulos, caixas quase virgens. Estava feita uma hora fracassada de pesca, das 07h30 às 08h30.
Logo o Fosmar se movimentou, fazendo-se ao 2º pesqueiro, na rota de nova convicção. E mais outra hora gasta à sujeição do fracasso: eles continuavam a “ não estarem lá”. Um peixe agora, outro depois, nada que fizesse entusiasmar os 4 pescadores.
Nova arrancada em força e terceira convicção presente nos espíritos. Dizia o Cheta:
- Estamos mal habituados.


4. Calmantes
O estado do mar também não ajudava. Com uma vaga de 1,7 m, cuja direcção de sul era contrariada por um vento leste e uma corrente bem pronunciada no sentido contrário, a água apresentava-se crispada, fazendo balançar o barco desordenadamente. Era arriscado os pescadores distraírem-se com o equilíbrio. Ou sentados ou agarrados a qualquer parte do barco, tal permitia um mínimo de segurança, evitando quedas perigosas dentro da embarcação, ou pior, cair ao mar.
Cansava este permanente agarranço e chateava a dificuldade de executar qualquer acto banal.
- Aguenta-te ó Aida. Agarra-te a mim.


5. Pataniscas de sargo
Finalmente. A hora do reforço alimentar tirou o stress aos quatro baloiçantes pescadores.
- Tenho aqui uma surpresa para si – segregava-me o Malheiro.
- O que é?
- Duas pataniscas de sargo.
Bem, depois de provar admiti que gostava, embora a dúvida me tivesse surgido. As pataniscas de sargo, uma invenção do Malheiro, eram excelentes: originais no gosto e com um leve sabor a limão.
- Parabéns Malheiro.
O Cheta e o Óscar ignoraram. Preferiram atirar-se aos ovos cozidos, ao salame e ao presunto.


6. Era meio-dia…
Os sargos acordaram à 11h30. Debateram-se mais com o Óscar e o Malheiro.
A verdadeira competição, se assim lhe pudermos chamar, estabeleceu-se entre essa dupla de estibordo. O Óscar saltava quando arrecadava um par de sargos e o Campeão Regional lembrava, sempre que trazia um graúdo:
- Este é o maior do barco – (não altera o slogan…).
Foi pena este nosso estimado amigo ter de pousar a cana. Dada a hora e as rotinas, a tarefa autenticamente maior, era a feitura do almoço.


7. Meia-desfeita e nabos
E começou a descascar batatas, que logo seguiram para a grande panela, bem como o bacalhau desfiado (esta foi mais uma boa ideia do Malheiro) e o grão.
Quando todos cobiçavam uma verdadeira meia-desfeita tradicional, eis que o Malheiro pergunta:
- Quem gosta de nabos?
- Nabos?...Nabos?...
Estragou tudo.
Que remédio, tiveram os esfomeados pescadores, senão “manjarem” aquela “inteira desfeita” do Malheiro. Para piorar, a salsa e a cebola picadas, que dão aquele sabor especial típico do prato, não faziam parte dos componentes. Este Malheiro inventa p’ra carago!
Mas estava bom: um azeite de alta qualidade compôs o sabor da desditosa “desfeita”.


8. A história do burro
Era uma vez um cigano que propôs aos amigos:
- Aposto 500 euros em como não fazem rir o meu burro.
Os amigos ficaram mudos, até que um jovem aceitou a aposta, pelo que chegou ao pé do burro e segredou-lhe ao ouvido. Imediatamente o burro se começou a rir.
O cigano ficou lixado e teve de pagar a aposta ao jovem.

 (1)
Passados 15 dias o cigano repetiu a proposta:
-Quem fizer chorar o meu burro ganha 1.000 euros.
De novo o silêncio se impôs, até que o mesmo jovem levanta o braço e diz aceitar o repto.
O cigano estava confiante, pois queria repor os 500 euros perdidos. Quem iria fazer chorar o seu burro?
Então o jovem dirige-se de novo ao burro e fala-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que baixa as calças. Ora, para espanto geral, o burro desata a chorar.
No acto de entrega dos 1000 euros ao jovem, o cigano exigiu-lhe:
- Tem de me dizer o que disse ao burro das duas vezes.
O jovem anuiu e explicou-lhe:
- Da primeira vez disse ao seu burro, que a minha picha era maior do que a dele, ao que ele desatou a rir. Da segunda vez, disse-lhe que olhasse e mostrei-lhe a minha picha, ao que ele desatou a chorar. Percebeu?

 (3)
Isto é só para ilustrar, que o Óscar sofre de miopia – os outros só pescam peixes pequenos.
9. Anzol profissional
Tanto rimos, que o ambiente social se tornou fascinante. E para animar ainda mais, os sargos, as choupas e os carapaus, assaltaram literalmente a embarcação. Sabem o que é pescar a 10 mãos?
O Malheiro rejubilava e repetiu vezes sem conta a frase, só para afrontar o Óscar:
- É o maior. Vejam este lindinho e pescado com anzol profissional.
Fiquei curioso. Anzol profissional? Que raio de anzol seria aquele? Parecia a história do burro.
E continuou a repetir a mesma frase, o que me levou a pedir-lhe que me mostrasse o extraordinário anzol, tão pesqueiro que ele era. Era um anzol grande, daqueles antigos, de alumínio. Peguei nele e mirei-o. Visto e revisto, ao entregar-lho, por causa do baloiçar do barco e do peso da chumbeira, o anzol espetou-se e bem no meu dedo. Todos acorreram.


(2)

- Arranjem um alicate para cortar o anzol.
Utilizei a técnica recomendável: não puxei o anzol, empurrei-o espetando-o mais, fazendo sair deste modo a ponta e a farpela. O sangue jorrava. O Óscar então cortou a ponta do anzol e eu puxei a haste restante, ficando o dedo livre do piercing.
- Tragam o álcool e 2 pensos.
Desinfectou-se e apensou-se o dedo.
Conclusão: eu, só tive de imitar um faquir indiano, que dorme em cima de uma cama de pregos, sem se queixar. A dor pode ser perfeitamente controlada pela mente.
Pergunto: pescar demais poderá causar danos cerebrais?



10.Fanecas para o Vaz
A faneca é um peixe amoroso. Primeiro pela cor, de um âmbar matizado. Segundo, pela configuração física, do frágil ao elegante. Terceiro, pela textura e sabor da sua carne, branca e delicada.
Ora, eu tinha uma encomenda, ansiosamente formulada repetidas vezes em conversa corrida, do Vaz de Carvalho:
- Arranja-me umas fanecas?
Assim, movi a minha influência e negociei fanecas junto dos meus simpáticos colegas de pesca. Fui atendido: fiz trocas e recebi ofertas (- Leve-as todas menos a grande – disse o Cheta – é para a Maria).
No dia seguinte, O VC emitia considerações valorativas sobre a real fama da faneca nacional:
-Ah, faneca.






11.A Páscoa em Marmelal
Se por milagre D. Sancho I ressuscitasse, a primeira atitude dele seria cavalgar até ao Marmelal, a aldeia que foralizou, a matar saudades. Dizia o Borges, que o vinho por lá já era excelente nessa altura e o porco assado na brasa (diga-se o javali) um petisco.
Refira-se o convite do Óscar:
- Rojões ao almoço e febras ao jantar. A uma matança ninguém deve faltar.
A Páscoa aproximava-se. 


12. Manutenção ou 15 dias em pousio
No final de cada pescaria o barco fica sempre um nojo: borra-se o chão com café, azeite, vinho tinto, barbatanas de peixe, escamas, restos de isco, vomitado de peixe…; ainda por cima o barco sai riscado por causa das pancadas das chumbeiras no casco do barco…; sujam-se os estofos com as calças imundas…
É sabido, que feita a acostagem na Marina, o barco leva um banho de shampoo, é esfregado, é mangueirado, é seco e fica a brilhar. Óscar, o zelador, não facilita.
Depois há a parte técnica e estrutural: motor, electrónica, sistemas de segurança e salvação, casco, hélice, etc. É preciso, que tudo funcione na perfeição, pois no alto mar o risco é sempre muito grande. Qualquer tipo de avaria é sempre um problema.
Assim, o barco tinha de efectuar uma revisão. Foi para o estaleiro - férias de pesca à vista. São as únicas férias de que não gosto!


Fotos: 1, 2 e 3 -  Pinterest
Sra da Hora, 17 de Março de 2017
Luís M. Borges



domingo, 12 de março de 2017

82. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




Ó Lamas, ainda há chá? 

  
1.Céu de Primavera


Um céu de Primavera a nascer na terra de “Horizonte e Mar”.
Bandos de gaivotas a sobraçarem uma pequena ondulação azul.
Havia perfume no ar e nos rostos germinava uma Primavera em cada vida.
Trocámos uma visita a Serralves para ver as camélias em festa por flores nos anzóis.
Os peixes pescados seriam para uma oblação, ao som da “Sagração da Primavera” de Stravinsky, ou melhor ainda, ao som das “Quatro Estações” de Vivaldi.
Um pequeno vento de afago e de envolvimento a fazer dar a face e a consolar. 

2.Chá, a bebida da cordialidade

 Lamas e a cordialidade

Fomos todos surpreendidos. O Lamas tomou o seu pequeno-almoço às 07h00, rumo ao pesqueiro, enquanto se ia navegando.
- Não comi nada! Sabem!
Abriu uma caixa de pastéis e desenroscou um grande termo com chá quente. Parecia deliciado...
Durante o dia, foi bebendo…chá.
Houve quem referisse tratar-se de chá de hipericão, que serve para tratar o stress e a depressão, a bronquite e a asma, a vesícula biliar e a gastrite, a diarreia e as hemorroidas, a gota e o reumatismo. Um autêntico milagre está planta. Negou que se tratasse de terapêutica e até declamou um poema sobre o chá:
“Bebo em goles apequenados.
Na boca o calor de água perfumada.
O gole prolonga
A indefinição do instante
No perfume retirado
Do gosto amargo
Em gesto de regresso”
Pedro DuBois
Só espero, que o Lamas não tenha feito costume, criando a necessidade entre os pescadores presentes de passarem a beber chá, porque o receituário é vasto. Eu, continuarei a beber a ARGUS preta e a comer uma boa fatia de paio ou um filete de atum, não me deixando tentar por bolos. 

3.O Bardamerdas

 O sportinguista Cheta

Desculpem o termo bardamerdas.
Não gosto da sonoridade nem do significado desta palavra. Há outras expressões mais limpas e expressivas. Por exemplo: vai para o caralho, vai-te foder, etc
Pois foi este o tema da discussão logo a seguir ao chá. O nível desceu do 80 para o 8. Ora, tomar chá é requintado, discutir a bardamerda é ordinário, bronco.
Se eu fosse do PSD ou do CDS proporia a criação de uma Comissão na Assembleia da República a fim de averiguar o assunto. Teria obviamente de ser ouvido o autor da bojarda e bem assim os dois líderes da oposição. Quase todos concordaram com esta proposta, com uma abstenção: o sportinguista Cheta.
Nada mais havendo a declarar deu-se por encerrada esta sessão, porque entretanto, tínhamos chegado ao pesqueiro. 

4. Dois pesqueiros

 O Chefe Ribeiro e o Lamas

Eram 08h00 quando o Chefe ordenou que se baixassem as retenidas.
Demoraram os peixes. Era cedo. Lá apareceram uns quantos. Mas, foram rareando à medida que o sol se ia afirmando.
Perante tão insignificante produtividade, o Chefe Ribeiro propôs mudança de pesqueiro. Quinze minutos depois fundeava-se noutro poiso. E os resultados foram aparecendo. Poucos peixes, mas bons.

 O Borges não bebeu chá

E o Lamas continuava a beber chá. E o Óscar partiu mais uma ponteira. E o Cheta queixava-se da coluna. E o Borges ia tirando fotografias parando a pesca. Tudo sincronizado e a bom ritmo.

5. Ovos de codorniz

 Pão, paio, ovos de codorna

 Cerveja preta

Gosto de ovos em geral. São os ovos de galinha casada os que mais consumo e a seguir os ovinhos de codorna, como dizem os brasileiros. Foram estes últimos os preferidos. O Cheta comeu-os simples, eu e o Óscar com sal e pimenta, mais cerveja preta Argus e o Lamas bebeu chá e comeu "Éclairs". 

 "Éclairs" e chá

6.Gosto desta nobreza
Sua majestade o Sargo
Os sargos e as choupas tinham coroas de rei. Majestáticos. Comoverem-me as vénias e os elogios mútuos.
Entretanto, também a plebe ia esgaravatando: umas fanecas (4), uns serranos (6), umas canárias (2) e sobretudo no anzol de cima umas cavalinhas de palmo, muito magrinhas. Foram-se porém encaixotando, nem que fossem para isco. Comi-as eu em casa. Um primor…

 Cavalinhas

Ainda se apresentaram em cena algumas bogas. Grandes e gordas. As indesejáveis. 

 Boga

Chegou entretanto a hora da caçoila, mas como suas altezas continuavam a insinuar-se, foi-se adiando a comedoria. Eram 13h30 quando, perante uma paragem, todos decidiram debruçar-se para os respectivos pratos. A bebida…não foi chá!

7.O Cheta e a jardineira

 Será que gostou?

Foi jardineira. O Cheta não é o mesmo homem, como quando apresenta rojões. A ingratidão alheia, transformada em esquisitices de gosto (nem todos os camaradas apreciavam esse prato típico), fizeram contudo o Cheta, a contragosto, dedicar-se à jardineira. Estava boa. 
Faltou a rolhinha (alguém se esqueceu), mas sobraram queijo e bolachas de baunilha.

 Ó Lamas, dá-me chá

Foi um almoço sem proveito, porque suas majestades, continuavam a querer ter a nossa vassalagem. Num repente, vi o Óscar pousar o prato e agarrar na cana – Tenho um “príncipe” preso. Ouvi, depois do peixe tirado, o Óscar pedir em voz alta:
- Ó Lamas, dá-me chá.

 E deu...

8. Hora de ponta

 Cheta em estilo

Foi das 16 às 17h00. O isco quase a acabar. Peixes a zunir. Mar de liquidez sossegada e muito azul. Rostos já em brasa e avermelhados. Mais uma hora de ponta. Sagrado coração que tão bem aguentas este esforço. 

 A realeza

E chegou o moleiro. E passaram os golfinhos. E concentraram-se os mascatos. Era hora de regressar.
A divisão fê-la o Óscar. Sobraram umas fanecas e uma cabra (parece que havia uma caldeirada para fazer).
E o belo horizonte foi-se aproximando, cada vez mais definido. Já se via a praia de Matosinhos.
- Ó Lamas, ainda há chá?
- Não. Acabou. Só há chá de sumiço.

 Chá de sumiço

Leça, 9 de Março de 2017.
Luís M. Borges