1.Céu de Primavera
Um céu de Primavera a nascer na terra de “Horizonte e Mar”.
Bandos de gaivotas a sobraçarem uma pequena ondulação azul.
Havia perfume no ar e nos rostos germinava uma Primavera em cada vida.
Trocámos uma visita a Serralves para ver as camélias em festa por
flores nos anzóis.
Os peixes pescados seriam para uma oblação, ao som da “Sagração da
Primavera” de Stravinsky, ou melhor ainda, ao som das “Quatro Estações” de Vivaldi.
Um pequeno vento de afago e de envolvimento a fazer dar a face e a
consolar.
2.Chá, a bebida da cordialidade
Lamas e a cordialidade
Fomos todos surpreendidos. O Lamas tomou o seu pequeno-almoço às
07h00, rumo ao pesqueiro, enquanto se ia navegando.
- Não comi nada! Sabem!
Abriu uma caixa de pastéis e desenroscou um grande termo com chá
quente. Parecia deliciado...
Durante o dia, foi bebendo…chá.
Houve quem referisse tratar-se de chá de hipericão, que serve para
tratar o stress e a depressão, a bronquite e a asma, a vesícula biliar e a
gastrite, a diarreia e as hemorroidas, a gota e o reumatismo. Um autêntico
milagre está planta. Negou que se tratasse de terapêutica e até declamou um
poema sobre o chá:
“Bebo em goles apequenados.
Na boca o calor de água
perfumada.
O gole prolonga
A indefinição do instante
No perfume retirado
Do gosto amargo
Em gesto de regresso”
Pedro DuBois
Só espero, que o Lamas não tenha feito costume, criando a necessidade
entre os pescadores presentes de passarem a beber chá, porque o receituário é
vasto. Eu, continuarei a beber a ARGUS preta e a comer uma boa fatia de paio ou
um filete de atum, não me deixando tentar por bolos.
3.O Bardamerdas
O sportinguista Cheta
Desculpem o termo bardamerdas.
Não gosto da sonoridade nem do significado desta palavra. Há outras
expressões mais limpas e expressivas. Por exemplo: vai para o caralho, vai-te
foder, etc
Pois foi este o tema da discussão logo a seguir ao chá. O nível desceu
do 80 para o 8. Ora, tomar chá é requintado, discutir a bardamerda é ordinário,
bronco.
Se eu fosse do PSD ou do CDS proporia a criação de uma Comissão na
Assembleia da República a fim de averiguar o assunto. Teria obviamente de ser
ouvido o autor da bojarda e bem assim os dois líderes da oposição. Quase todos
concordaram com esta proposta, com uma abstenção: o sportinguista Cheta.
Nada mais havendo a declarar deu-se por encerrada esta sessão, porque
entretanto, tínhamos chegado ao pesqueiro.
4. Dois pesqueiros
O Chefe Ribeiro e o Lamas
Eram 08h00 quando o Chefe ordenou que se baixassem as retenidas.
Demoraram os peixes. Era cedo. Lá apareceram uns quantos. Mas, foram
rareando à medida que o sol se ia afirmando.
Perante tão insignificante produtividade, o Chefe Ribeiro propôs
mudança de pesqueiro. Quinze minutos depois fundeava-se noutro poiso. E os
resultados foram aparecendo. Poucos peixes, mas bons.
O Borges não bebeu chá
E o Lamas continuava a beber chá. E o Óscar partiu mais uma ponteira.
E o Cheta queixava-se da coluna. E o Borges ia tirando fotografias parando a
pesca. Tudo sincronizado e a bom ritmo.
5. Ovos de codorniz
Pão, paio, ovos de codorna
Cerveja preta
Gosto de ovos em geral. São os ovos de galinha casada os que mais
consumo e a seguir os ovinhos de codorna, como dizem os brasileiros. Foram estes
últimos os preferidos. O Cheta comeu-os simples, eu e o Óscar com sal e pimenta,
mais cerveja preta Argus e o Lamas bebeu chá e comeu "Éclairs".
"Éclairs" e chá
6.Gosto desta nobreza
Sua majestade o Sargo
Os sargos e as choupas tinham coroas de rei. Majestáticos. Comoverem-me
as vénias e os elogios mútuos.
Entretanto, também a plebe ia esgaravatando: umas fanecas (4), uns
serranos (6), umas canárias (2) e sobretudo no anzol de cima umas cavalinhas de
palmo, muito magrinhas. Foram-se porém encaixotando, nem que fossem para isco.
Comi-as eu em casa. Um primor…
Cavalinhas
Ainda se apresentaram em cena algumas bogas. Grandes e gordas. As indesejáveis.
Boga
Chegou entretanto a hora da caçoila, mas como suas altezas continuavam
a insinuar-se, foi-se adiando a comedoria. Eram 13h30 quando, perante uma
paragem, todos decidiram debruçar-se para os respectivos pratos. A bebida…não
foi chá!
7.O Cheta e a jardineira
Será que gostou?
Foi jardineira. O Cheta não é o mesmo homem, como quando apresenta
rojões. A ingratidão alheia, transformada em esquisitices de gosto (nem todos
os camaradas apreciavam esse prato típico), fizeram contudo o Cheta, a
contragosto, dedicar-se à jardineira. Estava boa.
Faltou a rolhinha (alguém se esqueceu), mas sobraram queijo e bolachas
de baunilha.
Ó Lamas, dá-me chá
Foi um almoço sem proveito, porque suas majestades, continuavam a
querer ter a nossa vassalagem. Num repente, vi o Óscar pousar o prato e agarrar
na cana – Tenho um “príncipe” preso. Ouvi, depois do peixe tirado, o Óscar
pedir em voz alta:
- Ó Lamas, dá-me chá.
E deu...
8. Hora de ponta
Cheta em estilo
Foi das 16 às 17h00. O isco quase a acabar. Peixes a zunir. Mar de
liquidez sossegada e muito azul. Rostos já em brasa e avermelhados. Mais uma
hora de ponta. Sagrado coração que tão bem aguentas este esforço.
A realeza
E chegou o moleiro. E passaram os golfinhos. E concentraram-se os
mascatos. Era hora de regressar.
A divisão fê-la o Óscar. Sobraram umas fanecas e uma cabra (parece que
havia uma caldeirada para fazer).
E o belo horizonte foi-se aproximando, cada vez mais definido. Já se
via a praia de Matosinhos.
- Ó Lamas, ainda há chá?
- Não. Acabou. Só há chá de sumiço.
Chá de sumiço
Leça, 9 de Março de 2017.
Luís M. Borges



Nenhum comentário:
Postar um comentário