quinta-feira, 12 de outubro de 2017

93. Memórias do alto mar



ARRAIAL DE CARAPAUS

1.Lamento

Desde o dia 29 de Julho que não pisava o mar. Sinceramente, já tinha esquecido a gíria e alguns procedimentos, bem como perdido a habitual normalidade física dos pequenos gestos.
Lá em casa, a arca frigorífica só mostrava espaços vazios, sem peixes à vista. O Cheta lamentava-se do mesmo.

 Agulha (1,958 kg)

Os amigos, já olhavam com desconfiança para mim, pois há muito que não me viam de colete de pesca e de boné. Achavam-me triste. Houve até um deles que me perguntou se tinha perdido o mar e as canas. Quando telefonava ao Óscar e ao Forte, só lhes perguntava pela saúde, embora o meu desejo traísse as palavras.

2.Que Outono? 
O dia começou deste modo 

No sábado o Óscar falou. E disse:
- Segunda às 06h00 na Marina.
Pelo caminho fui pensando nas circunstâncias do clima em Portugal deste Outono. Com uma seca anormal e temperaturas altas impensáveis, receava pelo êxito da pesca. Os rios sem caudais, falta de aluviões, peixes sem alimento, debandada destes para outras paragens. Seria assim? Contudo, colocava-se outra hipótese. Acontecer o contrário: os peixes ficarem nos seus sítios habituais e esfomeados, atacarem com voracidade os iscos, que lhes íamos apresentando. A terceira teoria, seria o surgir de espécies fora do habitual a ocuparem os lugares vazios, dada a mudança de condições marinhas. Enfim…

3. Os carapaus casaram com as bogas

O que se verificou foi uma espécie de mercado de carapaus e bogas. Atolavam o mar e atolaram os cabazes, embora as bogas tenham sido todas rejeitadas para delícia dos mascatos (As gaivotas bem tentavam pegá-las, mas não tinham boca nem pescoço para as engolirem, largando-as. Logo se aproveitavam os mascatos em voo picado rápido e certeiro. Fantásticos mascatos...).
Nesta avalanche contínua, de vez em quando, um sargo ou uma choupa quebravam a metralha carapauzeira e bogueira. 

 Cabaz de carapaus

Depressa se encheram as caixas, depressa acabou o isco, depressa a satisfação abriu sorrisos e depressa se deu a ordem de regresso. Eram 15h30.
Com o mar liso,  o ar sereno, a temperatura cálida e boa disposição pessoal, chegámos de t-shirt à Marina.
No ancoradouro, os mesmos colegas de sempre, a perguntarem, a quererem ver. Atitudes saudáveis!

4. Excepções


O pargo do Óscar

Mas, nesta pescaria singular, onde o carapau foi rei e a boga rainha indesejável, houve lugar a excepções.  Dos quatro pescadores 3 pontuaram, menos eu. Passaram à fase final do campeonato o Óscar com dois pargos, o Cheta com outro e o Malheiro com um congro de 10 kg.

O congro do Malheiro

Dizia o Óscar com ironia sobre o congro:
- É uma porca!

4.1. Sargo pescado vira isco
O congro adora fanecas

O Malheiro decidiu amanhar o seu enorme congro no barco. Querem saber o que este malvado tinha no estômago? Um sargo de para aí uns 400 gr, com um estralho de nylon a sair-lhe pela boca. Pressupôs-se, que um de nós tenha ferrado este sargo e o congro, que rondava por ali à caça, ao detectar que ele estava a debater-se e preso ao anzol e portanto à sua mercê, abocanhou-o imediatamente. Cá em cima no barco, algum de nós sentiu de certeza um forte puxão, ficando de seguida sem o estralho. 
Sabe-se, que o congro aprecia faneca, mas desta vez a este apeteceu-lhe um sargo.

5. Mascatos humanos

Termino com a dose dupla de cabrito e de vitela vindas do restaurante “O Grelhador” pelo Óscar. Nada sobrou. A fome tinha atingido naturalmente os pescadores, pois houve atraso, por causa da freguesia de carapaus…
- Está a dar,  está a dar. Quando parar…comeremos.

 Cabrito assado

Como recordação associada ao nosso almoço, relembro o mascato a engolir com sofreguidão as irritantes amantes do carapau, tal como todos nós a engolirmos o almoço. Parecíamos mascatos. Pela goela abaixo o cabrito (estava uma delícia) quase sem mastigar….kkkkkkkk

6. Distribuição 

No dia seguinte, na minha rua, ao almoço,  só cheirava a carapau assado. Dei praticamente todos os carapaus aos vizinhos e eles decidiram grelhá-los. A minha esposa fez o mesmo. Tanto carapau merecia distribuição. 

 Tanto carapau...

Os três ou quatro sargos que me calharam, marcharam para o forno, na quarta-feira.
Que dia de pesca do “Cara…lho”. Desculpem, do “Cara...pau”.

Senhora da Hora, 09 de Outubro de 2017
Luís M. Borges





92. Memórias da Ilha 2017

ILHA DO FAROL 2017 


1.Há algo no exterior dos peixes
 
Há algo no exterior dos peixes que faz bem ao interior dos seres humanos. Sinto esta verdade simples quando pesco na Ilha do Farol. Não sei explicar. O certo é que pescar “viúvas” dá para empolgar; também pescar uns pequenos “picas-del-rei” provoca imenso prazer; sacar um robalo, uma anchova ou até uma dourada, traz vibração.

Pica-del-rei

Enquanto viajava no Alfa Porto – Faro fui-me descontraindo. E sorria. E sonhava.
Cheguei a Olhão por volta do meio-dia, já liberto de cenas imaginárias e a pensar no horário do Barco da Carreira, que me levaria até à ilha do Farol.

A Ilha do Farol

Apita o combóio, traçando Portugal do Porto a Olhão. Muito turista realmente. Senti que este País já não é dos portugueses. Viagem confortável, sossegada, apenas construída pela vergonha dos WC sem água e consequentemente por merda e mijo em abundância. Neste sentido, julguei-me de novo, mas na Mauritânia…lá onde a merda no aeroporto de Tumbuktu fazia monte na única cagadeira existente.

Turistas

Almocei umas sardinhas e sosseguei as vistas no barco até à ilha. Ah…aquela rapariga debruçada, perna ao léu, fez-me esquecer a magnificência da paisagem.
Cheguei a casa sozinho e descartei a bagagem: roupas para um lado, material de pesca para outro. Depois fui até à Associação ver o FCP e aproveitar para descascar uns amendoins com a frescura duma pretinha.
Finalizei este dia em amena cavaqueira pescal, na confissão dos fracassos e dos êxitos.

2. Cem poemas de Sophia 

Outra versão: Embarcado, fixei o horizonte. Lembrei-me da grande poetisa Sophia e do seu Poema, perante a exuberância natural da Ria Formosa.
(…) A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto (…)

A praia do Farol

Mas, mais referiu a poetisa: que a sua vida era o mar, o seu interior uma atenção voltada para fora, o seu viver escutava; que não trazia Deus consigo mas no mundo o procurava sabendo que o real o mostraria; que não tinha explicações, olhava e confrontava.
Apropriando as frases de Sophia, eu também confrontava enquanto navegava nas águas da ria, o seu sol acolhedor, a brisa do sul e a ilha com o seu farol, apontando ao Céu.

3. Eu pescador me confesso 

Dormi bem, acordei no silêncio. O meu corpo e o meu espírito sentiam a influência da Ilha. Às 07h15, o nosso dinâmico corredor de fundo, mais conhecido por Dr Adérito, já se afanava com as canas na cozinha, enquanto tomava o pequeno-almoço. Saímos para a pesca 15 minutos depois.
O Adérito pescou apenas 3 robalotes, demorando-se para além do horário, que esta espécie de peixes impõe aos pescadores. O que não iria acontecer com as anchovas à hora do almoço,
pois elas entraram na ria trazendo as aves, enquanto almoçávamos os três descontraidamente, elogiando o arroz de peixe.

Bailas e robalos

Com a partida da Dra Eugénia, esposa do Adérito, levantou-se forte ventania, que impossibilitou a minha pesca às “viúvas” na Somec.
Decididamente, neste 1º dia de pesca, os planetas não se alinharam.
No dia seguinte, 19 de Setembro, foi uma manhã à olhanense. A buscar coisas úteis nas bancas do mercado e nas prateleiras do Pingo Doce. Sabem, aquelas coisas que consideramos necessárias e úteis, as quais encheram o carrinho: azeitonas, tremoços, amendoins, vinho, legumes, fruta, pão, sardinhas – a alimentação frugal num relance! A ilha deixa-nos viver mas com limitações.
Entretanto o Adérito, neste jogo a dois (eu em Olhão e ele no Molhe da Ilha), enganou 16 pintarolas (aquela espécie de robalo com pintas – a baila), no amanhecer do molhe, lógico. E mais, pois quando eu cheguei pelas 12h00 tinha ido de novo a ver das anchovas perdidas do dia anterior. O regresso ao passado é muito lindo, mas em filme…embora ainda tenha capturado só uma. Eu, também me vinguei do fracasso antecedente, ao tirar a terreiro uma boas viúvas.

Anchovas à algarvia

Informação importante: no mercado de peixe de Olhão comprei um quilo de biqueirões granjolas, lindos de comer. Foram os protagonistas do nosso almoço, preparados à moda algarvia. Delícia!
A receita é simples: amanhá-los e temperá-los com sal, limão e alho, durante uma hora ou mais e depois passá-los por ovo batido, farinha e fritá-los.



4. Os vazios ocupam um espaço imenso 

Seis sargos de bom tamanho, durante a manhã de quarta-feira, entre as 06h00 e as 09h30, deram-nos os bons dias no 76. Pescado ao fundo com uma chumbeira de 60 gr e camarão descongelado como isco. Foi o nosso jantar deste dia 20 de Setembro. Ambos gostamos de peixe cozido ao vapor, juntamente com bróculo, cenoura e couve-flor, com um molho Receita Poveira.

O Sr Pinto

O peixe deixou de picar justamente às 09h30, quando a vazante virou paragem. Radicalmente. Disso se queixaram o sr Pinto na sua cadeira de rodas e a D. Alice nas pedras. Acabaram por nos dar simpatia, pois também eles foram umas vítimas do vazio que se instalou.
O resto do dia passou-se no remanso.

A D. Rosa

5. Senhora anchova, porque lhe apropriaram o nome? * 

Fizemos neste dia a festa da anchova. Grelhada, com salada de feijão verde, cebola e tomate. Deu para bater ao de levezinho na barriga. Mas, antes, no amanhecer da horinha, o número mágico (76) tinha dado mais umas boas peças (4), por entre o bulício das taínhas a serem perseguidas por enormes corvinas. Impressionante! Notaram/se as douradas, pois desferravam com violência. Concluí mais tarde, que o anzol nº 4 que utilizava, era demasiado pequeno para a boca das douradas. Não pesquei uma! E para cúmulo do azar acabou-se-me o isco. O Adérito foi para a ponta do molhe onde desalinhou a vida de 4 bailas.

Dourada

Este dia de bela vida acabou com um telefonema à minha esposa…Como diria o Fernando Pessoa (outra vez): sou “Casado, fútil, quotidiano…”.
* Existem para aí umas latinhas de conserva de biqueirão. Por que raio lhe chamam “Anchovas”?.

6. “Dêem-me o céu azul e o sol visível…” 

A reler Álvaro de Campos às 04h00. Tenho destes hábitos.
Mas, se houve céu azul e sol visível, os peixes não mostraram a cor nem se mostraram nos anzóis. Só o Adérito mereceu a tristeza dos seus colegas de corrico, pois deixou escapar uma anchova para aí de 5 quilos (segundo eles). Ainda se aborreceu com um palermóide, a que apelidam de francês, por causa da cedência de um camaroeiro.

 Tá o mar fête num cão

Valeu ao almoço uma massada de peixe e à noite uma sopa do mesmo. A digestão fez-se na Associação com o FCP a derrotar o Moreirense.
Mas pesava ao Adérito a perda da referida anchova matulona. Lamentava-se que a culpa foi do nó de ligação do nylon ao multifilamento. Afinal, o céu escureceu e o sol tapou. Alguém gritou para a companheira:
- Oh Maria, estás a ver? Deixa lá, a pesca é assim!

7. Dia de Olhão, Feira, Mercado e Pingo Doce
 
Desrotinar a pesca e verificar a banalidade sentada, calada e absorta em nada, dos passageiros do barco da carreira. E mais, verificar carrinhos, todos com carrinhos e na cabeça a lista de comprasa, certamente.
Sinto simpatia pelas vendedeiras da Feira e do Mercado. Vendem o coração, vendem sempre autêntico e do melhor, vendem sorrisos e legumes…vendem palavras.
Já no Pingo Doce não é assim. Há empregadas. São “colaboradoras” do patrão, defendendo a sua gula financeira. Mas ná variedade de produtos, há promoções, tudo é nacional sempre dentro do prazo de validade e com rótulo de composição (obviamente, por respeito à humanidade). Importa é encher o carrinho e pagar na caixa.

 Mestre Sabino

Nós comprámos o essencial e o acessório. Neste ultimo, até os “tapa-mamilos” e um frango assado. Carregados, demos passagem à marabunta de turistas que demandavam a Ilha, quando embarcámos para o regresso. Disseram-me os locais que os turístas tinham descoberto Olhão e a Ilha do Farol (afinal os descobrimentos não acabaram, mas agora ao contrário). Eles irão colonizar e os olhanenses vão se foder!

 Adérito Alves

Já chegados, e como não podia deixar de ser, fomos pescar. Adérito no molhe e eu no Cais da Somec. Qual quê? Sossego não existia, espaço para pescar não existia, cacofonia existia, barcos a navegar também e até mergulhadores em iniciação. Nesta conjuntura a sociedade escamosa pisgou-se, sobretudo as classes mais desejadas. Capturei meia dúzia de agulhas, outro tanto de “viúvas” e tive de suportar o infantário das irritantes e ladrazinhas de iscos, choupinhas de 10 cm. Foi tudo remetido à água.
Só deu para apanhar um solinho, para bronzear mais um pouco.

8. Dia 24 de Setembro, domingo

Apeteceu-me ir à praia, mas começando a ver aquelas turistas gordas e feias, deixou de me apetecer; lembrei-me de ir pescar, mas olhando a concentração de seres humanos no molhe, do género corricadores, deixou logo de me apetecer; tinha de ir ao café da Associação ler os Emails e tomar um cafezinho, também não me apeteceu por falta de vontade; apeteceu-me não fazer nada!. Pronto. Consegui.

 Eng- Trigueiros

Entretanto, o mar começou com a barulheira. As ondas batiam na areia com estrondo. Estava a avisar que viria aí um sudoeste. É todos os anos assim. Na última semana de Setembro, o mar zanga-se connosco. Mas, como diz o cego ao cão: - Vamos ver! Se haverá ou não sudoeste.
Por volta das 17h00 pegámos nas “armas” e nas “munições” e molhe connosco. O Adérito queria anchovas e as aves prometiam, mas depressa passou o entusiasmo aos robalos de pingalim. Ainda conseguiu três.

 Pingalim 

Quanto a mim, espectador atento, sentei-me numa cadeira branca a acumular sol na pele, a ver os lançamentos. Antes que o escaldão acontecesse, levantei-me e dirigi-me para a ponta do molhe. À bóia, dei com os esquivos dos sargos. Foi meio balde deles. O Adérito chegou, viu e gostou, imitou e bem assim logo acabou enchendo o balde.

 Luís Borges

A anoitecer, o frio obrigou-nos a fazer o caminho de regresso, porque com tshirt só com o Pai Sol.
Resumindo: numa horita fizemos o que S.Pedro nos mandava – pescar.

9. Os grilos da Ilha 

A insónia obriga-me a ler. Comecei a meio da noite com a revista “SPORT, a vida é o melhor desporto”, por indicação do Adérito, que corre como se fugisse do diabo. Diz que gosta e lhe faz bem. Controla tudo ao milímetro com o relógio, a net, a alimentação, o sono, as sapatilhas, etc. Admiro este meu amigo. O texto que li versava Nutrição. Nada que me fosse estranho, embora as indicações se orientassem para a corrida. Não sou adepto, pois acho que é um esforço anti-natural. As minhas corridas são as de andar o mais que puder e de correr o menos possível, evitando prejudicar o equilíbrio, dada a idade. Tenho-me dado bem.
Depois reli os meus “deveres”, ou seja, os meus escritos tipo crónica sobre a Ilha, pegando por último no Álvaro de Campos.
E levantei-me. Sabia que o despertador iria tocar e levantei-me. Porque sabia? Não sei.
Às 05h30 os grilos da Ilha ouviram-nos sair para a pesca e calaram-se.
No regresso do molhe mágico o Adérito não corria, pois os 12 robalos na saca pesavam e eu tal e qual, com 10 sargos crescidinhos, que acreditavam poder chegar a velhos. Julgo eu!

 Sargos

Neste contexto, o céu parecia-nos maior, o mar mais azul e a vida mais leve e agradável. Até que nem era preciso aperceber-nos desta realidade aumentada: o esplendor deste Verão continuado tinha outra expressão na Ilha, quase uma pintura. Os seres humanos que lá vivem nem se apercebem desta maravilha e se se apercebem não sabem tornar-se contentes e felizes.

10º Dia, 26 de Setembro, 3ª feira 

WIFI – 063 549 28
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O WIFI foi instalado na casa. Agora, com esta melhoria técnica, já temos a possibilidade de nos ligarmos ao mundo. Dizem.
Desliguei e pela 1ª vez fui mesmo à praia. Revi aquela praia longa, o mar em remanso contínuo e o sol desejado. Deliciei-me a contemplar:
- “Milady, é um perigo contemplá-la…”. Especifiquemos: montes de turistas louras e de olhos azuis a bronzearem os seus bem torneados corpos.

 Cavacos

Apanham-se na Ilha os célebres “Cavacos”, um marisco semelhante na forma à lagosta, mas mais pequenos. Comprámos um quilo. Comemos uns quantos vendo o jogo FC Porto / Mónaco e bebemos 3 cervejas a festejar e a acompanhar. Os príncipes de Mónaco não comeram nem beberam nada – 0.
Antes deste enorme sacrifício, ainda demos um saltinho nos sítios devidos e a coisa acabou por sair empatada: Adérito – 4 robalos / Borges – 4 sargos.

11. “Z-CLAN” E “PATCHINCO”

Duas amostras tipo “Ronaldo”. O Adérito venera estes pequenos objectos brilhantes e perigosos para os peixes.
Foi o dia em que se ouviu o frio a falar. Saí de manhãzinha de calções e regressei enregelado e sem peixe. Inquietude em absoluta no céu nublado, no vento sibilante, nos peixes ausentes, na desilusão dos pescadores e dos turistas.

 Patchinco

À tardinha, o Adérito ainda insistiu na procura das esmeraldas perdidas, aqueles robalos e aquelas anchovas, a pensar na eficácia das suas amostras. Só pescou nada e como diria o Cheta: - Nada é nada. Patchinco…

12. Robalão 

No Norte, certamente, as nossa esposas já sentiam saudades nossas. Os lugares lá de casa desocupados estão vazios e as nossas presenças são como filmes mudos.
Pensámos em levar-lhes umas prendas: pão alentejano (do autêntico), figos secos (pingo de mel) e talvez uns rábanos. Não sabem o que são rábanos?

 O robalão 

Finalmente. O Adérito ganhou em toda a linha no molhe, pescando um robalo com 2,620 kg e 62 cm de comprimento. Não se ficou por aqui, pois ainda logrou capturar uma enorme Agulha com 1 metro de comprimento.
Foi com parabéns, que o Adérito assumiu o mérito pessoal, posando para o fotógrafo de serviço. Dois peixes exemplares, capturados pela amostra denominada “A assassina”.

 A assassina

13º Dia, com “Mar de fora” 

Último dia de pesca na Ilha, ape nas durante a manhã. Vararem no molhe, virados para a Ria, os corricadores confiavam. E quem pescou o maior peixe da manhã? Não adivinham? Eu digo: o Adérito, com uma Anchova de quase um quilo.

 Anchova

Com a anchova pendurada, o “mar de fora” negava-se a acreditar. Com este tipo de mar, os peixes caem fora.
Toda a tarde e noite (até às 24h00) nós dois só fizemos malas e entubámos canas…Acabara-se a cena anual de férias na Ilha do Farol, naquele contexto de lazer total. As saudades de 2018 já se faziam ouvir.

 Avental improvisado

14º Dia, 30 de Setembro, sábado

Regresso. Primeiro de Táxi Marítimo da Ilha a Olhão. Segundo comprara o almoço – frango assado e camarão do Prata. Terceira comprar as tais prendas para as esposas. Quarto comprar para nós umas coisitas: maçãs Casa Nova e Bravo de Esmolfe, romãs e Folares algarvios. Quinto no rumo para o Porto de carro com almoço em Grândola. Sexto, acertar contas (53,00 euros – gasóleo) mais 43,20 (portagem), portanto 96,20 euros no total, dividido por ambos.
Aquele abraço.

 A poesia da Ilha

Matosinhos, 01 de Outubro de 2017
Luís M. Borges

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

91. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



91. Memórias do alto mar


A última de sábado

1.Mata-cavalos


 Borges: A idade não perdoa

Estive doente praticamente a semana toda. Um folhado de carne estragou-me a máquina. Felizmente, dieta rigorosa e descanso fizeram milagres e na quinta-feira um jantar de rodízio em Barcelos, no Restaurante Toural, protagonizado pelo Forte, acabou por cicatrizar a ferida. Com muita moderação e critério de escolha das carnes, consegui normalizar o meu bem-estar.


Na sexta-feira já funcionava normalmente, pelo que pude preparar o material para a pesca de sábado. Havia um extra de espectativa: a estreia de um novo carreto eléctrico, de tipo ligeiro, comprado na Silstar a um bom preço, o qual me iria propiciar um menor esforço físico, no que à acção de pesca diz respeito. A idade não perdoa! A minha debilidade é notória, evidente no cansaço que se lhe segue em dias seguintes: corpo dorido, vontade de dormir, desmotivação face a tarefas rotineiras. Até que recupere, vai um tempo!


É evidente, que a pesca de alto mar é muito dura, pelo que faço notar só o horário de execução contínuo, salientando somente dois índices: o levantar da cama às 04h00 e o deitar na mesma cama por volta das 23h00. São 19 horas de esforço e de concentração, sem pausas, a começar na viagem de carro até à Marina, embarque, viagem rumo ao pesqueiro (com mar às vezes nada meigo), início da pesca, preparação do almoço, reinício da pesca, levantar ferro, divisão do pescado, viagem de regresso para a Marina, lavagem do barco, viagem de carro para casa, preparação e conservação dos peixes, banho, jantar e finalmente…a tão ansiada caminha.


Vejam bem que eu, um lingrinhas, na casa dos 72 anos, bem merecia ser compreendido. Obviamente, adoro pescar. Nunca desisto. Esforço-me ao máximo por não ficar atrás dos meus colegas de pesca. Contudo, é muito difícil. Tenho uma imensa esperança, que este novo carreto eléctrico, possa adiar a minha reforma da pesca.

2. Maminha

Às vezes a meio da manhã meto o “reforço”, outras vezes ceio, todas as vezes almoço e janto, uma ou outra vez lancho. Mas, ando a tentar descobrir como posso comer pouca comida, aplicar o enigma francês com os queijos e os vinhos, insistir na massa italiana e na pizza, evitar não esquecer os iogurtes gregos nem os cogumelos japoneses e muito menos os legumes e a fruta. Tarefa difícil a de ter escolhido a Smart Food… 

 Cheta: outro momento sagrado

Para o nosso amigo Cheta as refeições são momentos sagrados. Com uma intensidade invulgar, ele faz da comida o açambarcamento do mundo e consequentemente da vida. Para ele, comer, significa apropriar-se da energia vital, que o mundo lhe fornece através da comida e da bebida. Mas não come demasiado. Apenas sente necessidade de se atulhar de comida no início das refeições. É uma espécie de pleno de arranque, à “ferrari”…

 Malheiro: nada o satizfaz

Já o nosso amigo Malheiro, não há quantidade de comida, que o satisfaça. Viu-se no Restaurante Toural. Para ele um empregado é um serviçal, um criado, seguramente um lacaio. Se o dito funcionário não o servir 10 vezes e com deferência e ainda estando permanentemente disponível, zanga-se…

 Óscar: são para a caldeirada

O nosso amigo Óscar, aprecia conservas de sardinha com tomate, sabe como despertar paladares e adora maminha bem passada. Agora com um restaurante é que vão ser elas…

  Forte: sulfatar é bom

O nosso amigo Forte repugna-lhe comer coelho, bebe muita coca-cola e é um afeiçoado de frango de cabidela. De vez em quando (mais vezes do que quandos) tem de faltar ao convívio da pesca e vai sulfatar. Que mania!
Depois deste introito, refira-se que o Cheta apanhou com o “tacho” mais uma vez, no meio de tantos azares. Foi uma espécie de favor ao Óscar (a iniciar trabalho de restauração ali para os lados da Maia) e a mim, que tinha afazeres urgentes. Assim, o Cheta apresentou frango do campo estufado, a fim de se lhe acrescentar a inevitável massa no barco. 


Este prato estava mesmo a meu gosto, pois como me encontrava de “dieta”, convinha-me uma comidinha assim levezinha. Com este cozinhado fiz uma espécie de LAVAGEM ao estômago. Caiu-me bem. A outros nem por isso. Paciência. Quem se queixou que da próxima vez traga faisão, lagosta ou até uma “maminha” de picanha. Quero ver! Prometo avaliar com rigor.

3. Barcos à vista

O “sítio” para onde fomos pescar tinha mel. Rodeavam-nos 3 embarcações de amigos nossos, que quiseram ter para connosco a amabilidade das suas simpáticas presenças. Aprecio imenso estas manifestações de afecto, pois é por demais aborrecido pescarmos sozinhos, só tendo o mar e as gaivotas por companhia.  Houve até oferta de bebidas e de comida, pois a camaradagem é mesmo assim.


Entretanto e à sombra (estava encoberto) destas companhias, íamos entretendo o vício. A pesca tornou-se concretizadora, não em excesso, mas em moderação. Claro, que pescador que se preze, é um ser permanentemente insatisfeito, ou não pertencesse à espécie “Hominidium” (mais…sempre mais e maior…). 


Foi um dia tranquilo: pescar e viver (nós) e não pescar para viver (os necessitados) ou viver para pescar (os alienados).
Encontrei no passadiço da Marina o meu amigo Nestor, que me disse:
- Ficámos a pescar aqui perto. Deu umas fanecas. Descontrair é o que importa.

4. Nós de pesca

Saber fazer nós é essencial. Quantas vezes um nó mal elaborado ou desajustado do fim a que se destina, dá como consequência a perda de um grande peixe.
O Óscar opinou que o nó de ligação entre um fio multifilamento e um fio de nylon deveria ser efectuado como ele descrevia. Agradeci…
Contudo devo salientar que me parece não ser bem assim como ele referiu, tudo dependendo de vários factores a considerar, como sejam os diâmetros dos dois tipos de fio serem iguais ou diferentes, as diferenças de resistência, as respectivas marcas e características, o fim a que se destinam os nós…etc.
Ora vejamos o que rezam os livros e as revistas da especialidade sobre o assunto:

Borges: Este é o meu nó

Resumindo: não existem nós infalíveis. O peixe, o pescador, o material, as condições é que ditam o tipo de nó a efectuar.

5. De sábado para segunda

Aviso: informam-se os 5 utentes da embarcação formar e respectivos amigos, que a partir do mês de Agosto, a habitual saída de pesca semanal que sempre foi ao sábado, passará a efectuar-se às segundas-feiras.

 Óscar: à mesa

Vantagens e inconvenientes: eu deixarei de comer aos domingos peixe; o Forte não terá a desculpa da sulfatagem, mas arranjará outra, de certeza; o Cheta terá dificuldades com o isco; o Malheiro virá ainda com mais apetite e o Óscar descansará, pois será o seu dia de folga. Quem se der ao trabalho que aponte mais vantagens e inconvenientes.
Bem, sem ironia, o que verdadeiramente interessa é que continuemos a ir pescar. Não é assim?

Leça, 29 de Julho de 2017
Luís M. Borges