1.Há algo no exterior dos peixes
Há algo no exterior dos peixes que faz bem ao interior dos seres humanos. Sinto esta verdade simples quando pesco na Ilha do Farol. Não sei explicar. O certo é que pescar “viúvas” dá para empolgar; também pescar uns pequenos “picas-del-rei” provoca imenso prazer; sacar um robalo, uma anchova ou até uma dourada, traz vibração.
Pica-del-rei
Cheguei a Olhão por volta do meio-dia, já liberto de cenas imaginárias e a pensar no horário do Barco da Carreira, que me levaria até à ilha do Farol.
A Ilha do Farol
Turistas
Cheguei a casa sozinho e descartei a bagagem: roupas para um lado, material de pesca para outro. Depois fui até à Associação ver o FCP e aproveitar para descascar uns amendoins com a frescura duma pretinha.
Finalizei este dia em amena cavaqueira pescal, na confissão dos fracassos e dos êxitos.
2. Cem poemas de Sophia
Outra versão: Embarcado, fixei o horizonte. Lembrei-me da grande poetisa Sophia e do seu Poema, perante a exuberância natural da Ria Formosa.
(…) A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto (…)
A praia do Farol
Apropriando as frases de Sophia, eu também confrontava enquanto navegava nas águas da ria, o seu sol acolhedor, a brisa do sul e a ilha com o seu farol, apontando ao Céu.
3. Eu pescador me confesso
Dormi bem, acordei no silêncio. O meu corpo e o meu espírito sentiam a influência da Ilha. Às 07h15, o nosso dinâmico corredor de fundo, mais conhecido por Dr Adérito, já se afanava com as canas na cozinha, enquanto tomava o pequeno-almoço. Saímos para a pesca 15 minutos depois.
O Adérito pescou apenas 3 robalotes, demorando-se para além do horário, que esta espécie de peixes impõe aos pescadores. O que não iria acontecer com as anchovas à hora do almoço,
pois elas entraram na ria trazendo as aves, enquanto almoçávamos os três descontraidamente, elogiando o arroz de peixe.
Bailas e robalos
Decididamente, neste 1º dia de pesca, os planetas não se alinharam.
No dia seguinte, 19 de Setembro, foi uma manhã à olhanense. A buscar coisas úteis nas bancas do mercado e nas prateleiras do Pingo Doce. Sabem, aquelas coisas que consideramos necessárias e úteis, as quais encheram o carrinho: azeitonas, tremoços, amendoins, vinho, legumes, fruta, pão, sardinhas – a alimentação frugal num relance! A ilha deixa-nos viver mas com limitações.
Entretanto o Adérito, neste jogo a dois (eu em Olhão e ele no Molhe da Ilha), enganou 16 pintarolas (aquela espécie de robalo com pintas – a baila), no amanhecer do molhe, lógico. E mais, pois quando eu cheguei pelas 12h00 tinha ido de novo a ver das anchovas perdidas do dia anterior. O regresso ao passado é muito lindo, mas em filme…embora ainda tenha capturado só uma. Eu, também me vinguei do fracasso antecedente, ao tirar a terreiro uma boas viúvas.
Anchovas à algarvia
A receita é simples: amanhá-los e temperá-los com sal, limão e alho, durante uma hora ou mais e depois passá-los por ovo batido, farinha e fritá-los.
4. Os vazios ocupam um espaço imenso
Seis sargos de bom tamanho, durante a manhã de quarta-feira, entre as 06h00 e as 09h30, deram-nos os bons dias no 76. Pescado ao fundo com uma chumbeira de 60 gr e camarão descongelado como isco. Foi o nosso jantar deste dia 20 de Setembro. Ambos gostamos de peixe cozido ao vapor, juntamente com bróculo, cenoura e couve-flor, com um molho Receita Poveira.
O Sr Pinto
O resto do dia passou-se no remanso.
A D. Rosa
5. Senhora anchova, porque lhe apropriaram o nome? *
Fizemos neste dia a festa da anchova. Grelhada, com salada de feijão verde, cebola e tomate. Deu para bater ao de levezinho na barriga. Mas, antes, no amanhecer da horinha, o número mágico (76) tinha dado mais umas boas peças (4), por entre o bulício das taínhas a serem perseguidas por enormes corvinas. Impressionante! Notaram/se as douradas, pois desferravam com violência. Concluí mais tarde, que o anzol nº 4 que utilizava, era demasiado pequeno para a boca das douradas. Não pesquei uma! E para cúmulo do azar acabou-se-me o isco. O Adérito foi para a ponta do molhe onde desalinhou a vida de 4 bailas.
Dourada
* Existem para aí umas latinhas de conserva de biqueirão. Por que raio lhe chamam “Anchovas”?.
6. “Dêem-me o céu azul e o sol visível…”
A reler Álvaro de Campos às 04h00. Tenho destes hábitos.
Mas, se houve céu azul e sol visível, os peixes não mostraram a cor nem se mostraram nos anzóis. Só o Adérito mereceu a tristeza dos seus colegas de corrico, pois deixou escapar uma anchova para aí de 5 quilos (segundo eles). Ainda se aborreceu com um palermóide, a que apelidam de francês, por causa da cedência de um camaroeiro.
Tá o mar fête num cão
Mas pesava ao Adérito a perda da referida anchova matulona. Lamentava-se que a culpa foi do nó de ligação do nylon ao multifilamento. Afinal, o céu escureceu e o sol tapou. Alguém gritou para a companheira:
- Oh Maria, estás a ver? Deixa lá, a pesca é assim!
7. Dia de Olhão, Feira, Mercado e Pingo Doce
Desrotinar a pesca e verificar a banalidade sentada, calada e absorta em nada, dos passageiros do barco da carreira. E mais, verificar carrinhos, todos com carrinhos e na cabeça a lista de comprasa, certamente.
Sinto simpatia pelas vendedeiras da Feira e do Mercado. Vendem o coração, vendem sempre autêntico e do melhor, vendem sorrisos e legumes…vendem palavras.
Já no Pingo Doce não é assim. Há empregadas. São “colaboradoras” do patrão, defendendo a sua gula financeira. Mas ná variedade de produtos, há promoções, tudo é nacional sempre dentro do prazo de validade e com rótulo de composição (obviamente, por respeito à humanidade). Importa é encher o carrinho e pagar na caixa.
Mestre Sabino
Adérito Alves
Só deu para apanhar um solinho, para bronzear mais um pouco.
8. Dia 24 de Setembro, domingo
Apeteceu-me ir à praia, mas começando a ver aquelas turistas gordas e feias, deixou de me apetecer; lembrei-me de ir pescar, mas olhando a concentração de seres humanos no molhe, do género corricadores, deixou logo de me apetecer; tinha de ir ao café da Associação ler os Emails e tomar um cafezinho, também não me apeteceu por falta de vontade; apeteceu-me não fazer nada!. Pronto. Consegui.
Eng- Trigueiros
Por volta das 17h00 pegámos nas “armas” e nas “munições” e molhe connosco. O Adérito queria anchovas e as aves prometiam, mas depressa passou o entusiasmo aos robalos de pingalim. Ainda conseguiu três.
Pingalim
Luís Borges
Resumindo: numa horita fizemos o que S.Pedro nos mandava – pescar.
9. Os grilos da Ilha
A insónia obriga-me a ler. Comecei a meio da noite com a revista “SPORT, a vida é o melhor desporto”, por indicação do Adérito, que corre como se fugisse do diabo. Diz que gosta e lhe faz bem. Controla tudo ao milímetro com o relógio, a net, a alimentação, o sono, as sapatilhas, etc. Admiro este meu amigo. O texto que li versava Nutrição. Nada que me fosse estranho, embora as indicações se orientassem para a corrida. Não sou adepto, pois acho que é um esforço anti-natural. As minhas corridas são as de andar o mais que puder e de correr o menos possível, evitando prejudicar o equilíbrio, dada a idade. Tenho-me dado bem.
Depois reli os meus “deveres”, ou seja, os meus escritos tipo crónica sobre a Ilha, pegando por último no Álvaro de Campos.
E levantei-me. Sabia que o despertador iria tocar e levantei-me. Porque sabia? Não sei.
Às 05h30 os grilos da Ilha ouviram-nos sair para a pesca e calaram-se.
No regresso do molhe mágico o Adérito não corria, pois os 12 robalos na saca pesavam e eu tal e qual, com 10 sargos crescidinhos, que acreditavam poder chegar a velhos. Julgo eu!
Sargos
10º Dia, 26 de Setembro, 3ª feira
WIFI – 063 549 28
NOS_Internet_C74C
O WIFI foi instalado na casa. Agora, com esta melhoria técnica, já temos a possibilidade de nos ligarmos ao mundo. Dizem.
Desliguei e pela 1ª vez fui mesmo à praia. Revi aquela praia longa, o mar em remanso contínuo e o sol desejado. Deliciei-me a contemplar:
- “Milady, é um perigo contemplá-la…”. Especifiquemos: montes de turistas louras e de olhos azuis a bronzearem os seus bem torneados corpos.
Cavacos
Antes deste enorme sacrifício, ainda demos um saltinho nos sítios devidos e a coisa acabou por sair empatada: Adérito – 4 robalos / Borges – 4 sargos.
11. “Z-CLAN” E “PATCHINCO”
Duas amostras tipo “Ronaldo”. O Adérito venera estes pequenos objectos brilhantes e perigosos para os peixes.
Foi o dia em que se ouviu o frio a falar. Saí de manhãzinha de calções e regressei enregelado e sem peixe. Inquietude em absoluta no céu nublado, no vento sibilante, nos peixes ausentes, na desilusão dos pescadores e dos turistas.
Patchinco
12. Robalão
No Norte, certamente, as nossa esposas já sentiam saudades nossas. Os lugares lá de casa desocupados estão vazios e as nossas presenças são como filmes mudos.
Pensámos em levar-lhes umas prendas: pão alentejano (do autêntico), figos secos (pingo de mel) e talvez uns rábanos. Não sabem o que são rábanos?
O robalão
Foi com parabéns, que o Adérito assumiu o mérito pessoal, posando para o fotógrafo de serviço. Dois peixes exemplares, capturados pela amostra denominada “A assassina”.
A assassina
13º Dia, com “Mar de fora”
Último dia de pesca na Ilha, ape nas durante a manhã. Vararem no molhe, virados para a Ria, os corricadores confiavam. E quem pescou o maior peixe da manhã? Não adivinham? Eu digo: o Adérito, com uma Anchova de quase um quilo.
Anchova
Toda a tarde e noite (até às 24h00) nós dois só fizemos malas e entubámos canas…Acabara-se a cena anual de férias na Ilha do Farol, naquele contexto de lazer total. As saudades de 2018 já se faziam ouvir.
Avental improvisado
14º Dia, 30 de Setembro, sábado
Regresso. Primeiro de Táxi Marítimo da Ilha a Olhão. Segundo comprara o almoço – frango assado e camarão do Prata. Terceira comprar as tais prendas para as esposas. Quarto comprar para nós umas coisitas: maçãs Casa Nova e Bravo de Esmolfe, romãs e Folares algarvios. Quinto no rumo para o Porto de carro com almoço em Grândola. Sexto, acertar contas (53,00 euros – gasóleo) mais 43,20 (portagem), portanto 96,20 euros no total, dividido por ambos.
Aquele abraço.
A poesia da Ilha
Matosinhos, 01 de Outubro de 2017
Luís M. Borges
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