ARRAIAL DE CARAPAUS
1.Lamento
Desde o dia 29 de Julho que não pisava o mar. Sinceramente, já tinha
esquecido a gíria e alguns procedimentos, bem como perdido a habitual normalidade
física dos pequenos gestos.
Lá em casa, a arca frigorífica só mostrava espaços vazios, sem peixes à
vista. O Cheta lamentava-se do mesmo.
Agulha (1,958 kg)
Os amigos, já olhavam com desconfiança para mim, pois há muito que não me
viam de colete de pesca e de boné. Achavam-me triste. Houve até um deles que me
perguntou se tinha perdido o mar e as canas. Quando telefonava ao Óscar e ao
Forte, só lhes perguntava pela saúde, embora o meu desejo traísse as palavras.
2.Que Outono?
- Segunda às 06h00 na Marina.
Pelo caminho fui pensando nas circunstâncias do clima em Portugal deste
Outono. Com uma seca anormal e temperaturas altas impensáveis, receava pelo
êxito da pesca. Os rios sem caudais, falta de aluviões, peixes sem alimento, debandada
destes para outras paragens. Seria assim? Contudo, colocava-se outra hipótese.
Acontecer o contrário: os peixes ficarem nos seus sítios habituais e esfomeados,
atacarem com voracidade os iscos, que lhes íamos apresentando. A terceira
teoria, seria o surgir de espécies fora do habitual a ocuparem os lugares
vazios, dada a mudança de condições marinhas. Enfim…
3. Os carapaus casaram com as bogas
O que se verificou foi uma espécie de mercado de carapaus e bogas. Atolavam
o mar e atolaram os cabazes, embora as bogas tenham sido todas rejeitadas para
delícia dos mascatos (As gaivotas bem tentavam pegá-las, mas não tinham boca
nem pescoço para as engolirem, largando-as. Logo se aproveitavam os mascatos em
voo picado rápido e certeiro. Fantásticos mascatos...).
Nesta avalanche contínua, de vez em quando, um sargo ou uma choupa quebravam
a metralha carapauzeira e bogueira.
Cabaz de carapaus
Depressa se encheram as caixas, depressa acabou o isco, depressa a
satisfação abriu sorrisos e depressa se deu a ordem de regresso. Eram 15h30.
Com o mar liso, o ar sereno, a
temperatura cálida e boa disposição pessoal, chegámos de t-shirt à Marina.
No ancoradouro, os mesmos colegas de sempre, a perguntarem, a quererem
ver. Atitudes saudáveis!
4. Excepções
O pargo do Óscar
Mas, nesta pescaria singular, onde o carapau foi rei e a boga rainha
indesejável, houve lugar a excepções.
Dos quatro pescadores 3 pontuaram, menos eu. Passaram à fase final do
campeonato o Óscar com dois pargos, o Cheta com outro e o Malheiro com um congro
de 10 kg.
O congro do Malheiro
Dizia o Óscar com ironia sobre o congro:
- É uma porca!
4.1. Sargo pescado vira isco
O Malheiro decidiu amanhar o seu enorme congro no barco. Querem saber o
que este malvado tinha no estômago? Um sargo de para aí uns 400 gr, com um estralho
de nylon a sair-lhe pela boca. Pressupôs-se, que um de nós tenha ferrado este sargo
e o congro, que rondava por ali à caça, ao detectar que ele estava a debater-se
e preso ao anzol e portanto à sua mercê, abocanhou-o imediatamente. Cá em cima
no barco, algum de nós sentiu de certeza um forte puxão, ficando de seguida sem
o estralho.
Sabe-se, que o congro aprecia faneca, mas desta vez a este apeteceu-lhe um sargo.
Sabe-se, que o congro aprecia faneca, mas desta vez a este apeteceu-lhe um sargo.
5. Mascatos humanos
Termino com a dose dupla de cabrito e de vitela vindas do restaurante “O
Grelhador” pelo Óscar. Nada sobrou. A fome tinha atingido naturalmente os
pescadores, pois houve atraso, por causa da freguesia de carapaus…
Como recordação associada ao nosso almoço, relembro o mascato a engolir
com sofreguidão as irritantes amantes do carapau, tal como todos nós a engolirmos
o almoço. Parecíamos mascatos. Pela goela abaixo o cabrito (estava uma delícia)
quase sem mastigar….kkkkkkkk
6. Distribuição
No dia seguinte, na minha rua, ao almoço,
só cheirava a carapau assado. Dei praticamente todos os carapaus aos
vizinhos e eles decidiram grelhá-los. A minha esposa fez o mesmo. Tanto carapau
merecia distribuição.
Tanto carapau...
Os três ou quatro sargos que me calharam, marcharam para o forno, na
quarta-feira.
Que dia de pesca do “Cara…lho”. Desculpem, do “Cara...pau”.
Senhora da Hora, 09 de Outubro de
2017
Luís M. Borges
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