quinta-feira, 12 de outubro de 2017

93. Memórias do alto mar



ARRAIAL DE CARAPAUS

1.Lamento

Desde o dia 29 de Julho que não pisava o mar. Sinceramente, já tinha esquecido a gíria e alguns procedimentos, bem como perdido a habitual normalidade física dos pequenos gestos.
Lá em casa, a arca frigorífica só mostrava espaços vazios, sem peixes à vista. O Cheta lamentava-se do mesmo.

 Agulha (1,958 kg)

Os amigos, já olhavam com desconfiança para mim, pois há muito que não me viam de colete de pesca e de boné. Achavam-me triste. Houve até um deles que me perguntou se tinha perdido o mar e as canas. Quando telefonava ao Óscar e ao Forte, só lhes perguntava pela saúde, embora o meu desejo traísse as palavras.

2.Que Outono? 
O dia começou deste modo 

No sábado o Óscar falou. E disse:
- Segunda às 06h00 na Marina.
Pelo caminho fui pensando nas circunstâncias do clima em Portugal deste Outono. Com uma seca anormal e temperaturas altas impensáveis, receava pelo êxito da pesca. Os rios sem caudais, falta de aluviões, peixes sem alimento, debandada destes para outras paragens. Seria assim? Contudo, colocava-se outra hipótese. Acontecer o contrário: os peixes ficarem nos seus sítios habituais e esfomeados, atacarem com voracidade os iscos, que lhes íamos apresentando. A terceira teoria, seria o surgir de espécies fora do habitual a ocuparem os lugares vazios, dada a mudança de condições marinhas. Enfim…

3. Os carapaus casaram com as bogas

O que se verificou foi uma espécie de mercado de carapaus e bogas. Atolavam o mar e atolaram os cabazes, embora as bogas tenham sido todas rejeitadas para delícia dos mascatos (As gaivotas bem tentavam pegá-las, mas não tinham boca nem pescoço para as engolirem, largando-as. Logo se aproveitavam os mascatos em voo picado rápido e certeiro. Fantásticos mascatos...).
Nesta avalanche contínua, de vez em quando, um sargo ou uma choupa quebravam a metralha carapauzeira e bogueira. 

 Cabaz de carapaus

Depressa se encheram as caixas, depressa acabou o isco, depressa a satisfação abriu sorrisos e depressa se deu a ordem de regresso. Eram 15h30.
Com o mar liso,  o ar sereno, a temperatura cálida e boa disposição pessoal, chegámos de t-shirt à Marina.
No ancoradouro, os mesmos colegas de sempre, a perguntarem, a quererem ver. Atitudes saudáveis!

4. Excepções


O pargo do Óscar

Mas, nesta pescaria singular, onde o carapau foi rei e a boga rainha indesejável, houve lugar a excepções.  Dos quatro pescadores 3 pontuaram, menos eu. Passaram à fase final do campeonato o Óscar com dois pargos, o Cheta com outro e o Malheiro com um congro de 10 kg.

O congro do Malheiro

Dizia o Óscar com ironia sobre o congro:
- É uma porca!

4.1. Sargo pescado vira isco
O congro adora fanecas

O Malheiro decidiu amanhar o seu enorme congro no barco. Querem saber o que este malvado tinha no estômago? Um sargo de para aí uns 400 gr, com um estralho de nylon a sair-lhe pela boca. Pressupôs-se, que um de nós tenha ferrado este sargo e o congro, que rondava por ali à caça, ao detectar que ele estava a debater-se e preso ao anzol e portanto à sua mercê, abocanhou-o imediatamente. Cá em cima no barco, algum de nós sentiu de certeza um forte puxão, ficando de seguida sem o estralho. 
Sabe-se, que o congro aprecia faneca, mas desta vez a este apeteceu-lhe um sargo.

5. Mascatos humanos

Termino com a dose dupla de cabrito e de vitela vindas do restaurante “O Grelhador” pelo Óscar. Nada sobrou. A fome tinha atingido naturalmente os pescadores, pois houve atraso, por causa da freguesia de carapaus…
- Está a dar,  está a dar. Quando parar…comeremos.

 Cabrito assado

Como recordação associada ao nosso almoço, relembro o mascato a engolir com sofreguidão as irritantes amantes do carapau, tal como todos nós a engolirmos o almoço. Parecíamos mascatos. Pela goela abaixo o cabrito (estava uma delícia) quase sem mastigar….kkkkkkkk

6. Distribuição 

No dia seguinte, na minha rua, ao almoço,  só cheirava a carapau assado. Dei praticamente todos os carapaus aos vizinhos e eles decidiram grelhá-los. A minha esposa fez o mesmo. Tanto carapau merecia distribuição. 

 Tanto carapau...

Os três ou quatro sargos que me calharam, marcharam para o forno, na quarta-feira.
Que dia de pesca do “Cara…lho”. Desculpem, do “Cara...pau”.

Senhora da Hora, 09 de Outubro de 2017
Luís M. Borges





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