sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

97. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Jantar PARTILHA DA AMIZADE 
 
1.Há bacalhau no Rio do Amial
Reuniram os chefes da tribo

Na zona do Amial corre um Rio, e por estranho que pareça, pesca-se por lá bacalhau. Este fenómeno, abriu bocas de espanto nos arrabaldes, onde o Mar do Leixāo bate sempre certinho. Os seus habitantes, sobretudo os pescadores, incrédulos pois nem sabiam o que era o referido peixe, discutiam amiúde sobre a própria designação (baccalauren ou kabeljauw?) e perguntavam:
- Que barco pesca esse dito bacalau por ali? Quem é o Mestre?
Respondiam-lhe na dúvida:
- Parece que a embarcação se apelida de “OGRELHAS” e o pescador, dizem, OSGAR, um normando.
- Temos de ir verificar. Reúne a tribo, fala aos amigos e caminharemos para lá, num destes dias.
E assim foi.

2. O mistério atrai
As damas rebeldes

Com seus trajes tradicionais, os aventureiros prepararam as cavalgaduras num fim de tarde, à procura da verdade. Eram uns 12. Porém, suas companheiras aventureiras, por uma questão de solidariedade e sabendo que ali andava mistério, fizeram questão de os acompanhar, por entre algazarra. Os homens acabaram por atrelar os seus burros e cavalos e arrancaram em carroças, a trotar pelo caminho, ainda amuados com as suas consortes.

3. Uma luz
A taberna do Osgar

Procuraram e não procuraram, perguntaram e não perguntaram, até que decidiram largar as carroças  perto de um lugar de culto. Chegaram-se ao Rio pela margem certa e viram uma fogueira que iluminava a frente de uma taberna, para onde se dirigiram. Recebeu-os um homem muito bronzeado, já velho, dos seus 45 ano, que lhes falou assim:
- Disseram -me que vinham aí. Que pretendeis nobres visitantes? E vós senhoras, que tão bem trajais, porque arrostaram com este frio na noite e por estes caminhos, cheios de perigos?
Responderam-lhe:
- Tendes Bacalau meu senhor? Ouvimos que o pescais. Donde sois e como vos chamais?
- Sou normando e a minha graça é OSGAR, um humilde servo ao vosso dispôr. 
- Entrai e sentai-vos, comeinde e bebeinde e não vos preocupeindes.

 Recepção na Taberna do Osgar

4. Pescadores com boca
O servo Rui-m

Assim fazendo, logo surgiu um rapaz estranho, pintado de preto, a que chamavam RUI-M. Serviu vinho em canecos, azeitonas e pão. Seguiram -se umas falachas cobertas com garum, chamadas “pizaras”, que as mulheres adoraram.
- Mas, conte-nos Mestre OSGAR, sobre o baccalau. 

A gaivota e o Javali capturados no mar
- Ó RUI-M, traz o javali, a cabra e a gaivota da brasa. Anda lá servo… vai à cozinha de fora...os nossos estimados amigos estão com apetite.

 A cozinha tradicional, dita de fora

5. O bendito baccalau
Um baccalau de 120 kg

- Ó RUI-M, traz agora o baccalau.
Fumegavam nas caçambas de madeira umas postas do peixe desejado, que depressa, começou a ser saboreado pela turba.

 Baccalau com cebola
Perguntou-lhe o grego ADERITTUS:
- Ó Mestre, isto é o tal Baccalau?


Perguntou -lhe o latino FOREL:
- Ó Mestre, que peso atinge este peixe?


Perguntou -lhe o castelhano ROLDAN:
- Ó Mestre, o baccalau é um peixe muito grande?


Perguntou -lhe o hebraico ADAMAH:
- Ó Mestre,  como se pesca o baccalau?


Perguntou -lhe o fenício XETTA?
- Ó Mestre, pesca-se à rede ou ao palangrote?

Perguntou -lhe o hebraico BOAZ:
- Ó Mestre,  onde o pesca? 


Perguntou-lhe o inglês PAUIM:
- Ó Mestre, é muito abundante?


Perguntou-lhe o romano PAVIA:
- Ó Mestre, que barco utiliza?


Perguntou-lhe o macedónio NESTTOR:
- Ó Mestre, que isco usa?


Perguntou-lhe o lusitano MARCUS:
- Ó Mestre, como conserva o baccalau?


Perguntou-lhe o de Saragoça BORJA:
- Ó Mestre, diga-nos tudo, se não se importar.


E as perguntas continuaram noite dentro, com o RUI-M a acender mais velas e a avivar o fogo da lareira. Trouxe umas novidades:
- Comeinde agora este bolo belga e este pudim de mel.
- Diz-me lá ó RUI-M este bolo preto é  da tua terra?

Bolo belga
Ria-se o jeitoso.
Terminou esta intrigante noitada, com uma bebida quente servida em taças, também  de cor preta. A dama do Borga pediu cachaça para aclarar aquela bebida amarga e a dama do Xetta cantou uma ária - um Fadado.
Por último, o Osgar agradeceu a visita e o Borja a receptividade e as informações sobre o baccalau.
O fogoso Marcus falou sobre Água e sobre Merda (esta a mais) nas águas do Mar do Porto. Entregou um pergaminho de papiro a cada companheiro.

6. As alcoviteiras 
Viriato

Este jantar chegou aos ouvidos de Viriato, um chefe lusitano do interior montanhoso. As alcoviteiras (As jornalistas da época) tinham-se encarregado de transmitir o evento. Falaram-lhe de AMIZADE e de PARTILHA.
- Como? Que é isso?
Logo Viriato reuniu as tropas e procurou o atuneiro Marcus, a querer saber, pois poderiam ser romanos a engendrarem astúcia.
Ficou esclarecido:
- Pesca-se bom baccalau no mar ao largo do Amial.
- Nasceu uma palavra nova – AMIZADE.
- Acrescentou-se, por imposição do filósofo Aristóbulo, a palavra PARTILHA. 
O certo, é que este conjunto de pescadores e respectivas damas, acabaram por criar o melhor presente que existe: partilhar amizade.
Ainda hoje não se sabe se esta invenção fez caminho. O baccalau fez.

Taberna do ÓSGAR, aos 25 dias do sagrado mês de Novembro, do ano 147 AC (actualmente 25 de Novembro de 2017).
O escriba, Borja de Saragoça (actualmente Luís M. Borges).



Um comentário:

  1. Excelente comentário. Melhor que ler Camões. Parabéns grande "escriba". Um grande abraço do romano
    Pavia

    ResponderExcluir