sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

98. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




“O mar estava tão revolto, tão revolto! Que eu decidi acalmá-lo.” 
Os peixes estavam tão chateados, tão chateados! Que decidiram dar-nos música!

 

1.Crónica da ondulação

Pois foi. Foi duro. Foi perigoso.
Quando se acredita na certeza das previsões, que nos oferece o Windguru, pode sair decisão errada. O previsto seria uma ondulação larga com 1 metro de altura e um vento fraco e frio. Foi tudo ao contrário: a ondulação atingiu os 2 metros, encarneirou perigosamente e o vento ficou forte e agreste.
Através do canal de comunicação os mestres de outras demarcações queixavam-se amargamente:
- Está fresco.

No baloiço do barco todos nós parecíamos marionetes descontroladas. As caixas e as arcas do convés acompanhavam a cena, basando-se dos seus lugares.
Os 4 olhavam-se. Os 4 temiam. Os 4 protegiam-se. Começavam a duvidar da oportunidade desta saída de pesca. O Forte falou:
- Vamos aguentar até às 13h00, se for possível.

2. Recusa

E os peixes? Estes, decidiram em assembleias gerais próprias, fazer greve aos anzóis. Eles estavam lá, mas a decisão tinha de ser cumprida, neste mar áspero.
Peixe capturado? Nada, mas nada mesmo. Nem um mísero peixe-pepino...
Começaram então os procedimentos habituais: larga cabo, puxa cabo; muda isco, não muda de isco; ruma para novo sítio, ruma para outro sítio. Nada.
Até que surgiu uma vózinha amiga que aconselhou timidamente:
- Estão a sair uns peixinhos por aqui.
E toca a ir para esse oásis e apoiar e recomeçar a pesca com expectativas renovadas.
Foi a salvação. Uns sargos fizeram o dia destes pescadores em pouco tempo.
E a ordem veio então, depois de acontecer, uma onda ter varrido o barco:
- Chega e sobra o que já pescámos. Vamos embora para a Marina.

3. Na Marina serve-se rancho

Dadas as condições, tivemos de marcar a feitura do almoço para a Marina. A nossa Caixa/Fogão não se conseguiria segurar em balanços de tal monta na embarcação. Seria despejar a comida pelo convés, além de que comermos sentados em situação de terramoto, até certamente nem conseguiríamos meter a comida à boca. Imaginem comer rancho com estilo…Claro,  só na Marina.

 Conservas, pois claro...

Chegados, o Malheiro executou um belo rancho. A nossa fome era igual à força do vento. Violenta.


Repetimos e até elogiámos o Chefe Gourmet. Só o Cheta considerou que almoçar tão tarde (foi às 15h00) representava para ele um défice alimentar: não  teria apetite para o Jantar, pelo que a sua Maria iria ficar sentada à mesa sozinha.A D. Maria do Cheta iria comer as fanecas todas. Só sobrariam espinhas...



4. Derreados

Corpos doridos e ais sem fim. Referências à idade. Afirmações de desânimo.
Comigo aconteceu doerem-me os rins. Foram guinadas a mais naquele barco demasiado irrequieto.
Com o Malheiro, a coluna desencaixou um bocadinho mais.
Com o Cheta a desilusão: cansado, repetiu que já não tinha estofo para esta vida de pescador, com tamanho mar.
O Forte foi o único que não se queixou. Pudera, não pescou nada...kkkkkkkkk...nem para o gato pescou!

5. Uma coisa é certa

“Que pescas, ó pescador,
No nosso Rio da vida?
Pescaria sem pudor,
P’ra “tainada” bem servida.

O assédio à pescaria
Não é criminalizado,
Porque o peixe bem sabia
Que era p'ra ser “cozinhado”!” (*)

- Quando será a próxima saída à pesca? Sei lá…o cherne saberá!


Leça, 2 de Dezembro de 2017
Luís M. Borges

(*) Obs: Poema de José Gonçalinho


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