“O mar estava tão revolto, tão revolto! Que eu decidi acalmá-lo.”
Os peixes estavam tão chateados, tão chateados! Que decidiram dar-nos música!
1.Crónica da ondulação
Pois foi. Foi duro. Foi perigoso.
Quando se acredita na certeza das previsões, que nos oferece o Windguru,
pode sair decisão errada. O previsto seria uma ondulação larga com 1 metro de
altura e um vento fraco e frio. Foi tudo ao contrário: a ondulação atingiu os 2
metros, encarneirou perigosamente e o vento ficou forte e agreste.
Através do canal de comunicação os mestres de outras demarcações queixavam-se
amargamente:
No baloiço do barco todos nós parecíamos marionetes descontroladas. As
caixas e as arcas do convés acompanhavam a cena, basando-se dos seus lugares.
Os 4 olhavam-se. Os 4 temiam. Os 4 protegiam-se. Começavam a duvidar da
oportunidade desta saída de pesca. O Forte falou:
- Vamos aguentar até às 13h00, se for possível.
2. Recusa
E os peixes? Estes, decidiram em assembleias gerais próprias, fazer greve
aos anzóis. Eles estavam lá, mas a decisão tinha de ser cumprida, neste mar
áspero.
Começaram então os procedimentos habituais: larga cabo, puxa cabo; muda
isco, não muda de isco; ruma para novo sítio, ruma para outro sítio. Nada.
Até que surgiu uma vózinha amiga que aconselhou timidamente:
- Estão a sair uns peixinhos por aqui.
E toca a ir para esse oásis e apoiar e recomeçar a pesca com expectativas
renovadas.
Foi a salvação. Uns sargos fizeram o dia destes pescadores em pouco
tempo.
E a ordem veio então, depois de acontecer, uma onda ter varrido o barco:
- Chega e sobra o que já pescámos. Vamos embora para a Marina.
3. Na Marina serve-se rancho
Dadas as condições, tivemos de marcar a feitura do almoço para a Marina. A
nossa Caixa/Fogão não se conseguiria segurar em balanços de tal monta na
embarcação. Seria despejar a comida pelo convés, além de que comermos sentados
em situação de terramoto, até certamente nem conseguiríamos meter a comida à
boca. Imaginem comer rancho com estilo…Claro,
só na Marina.
Conservas, pois claro...
Repetimos e até elogiámos o Chefe Gourmet. Só o Cheta considerou que almoçar tão tarde (foi às 15h00) representava para ele um défice alimentar: não teria apetite para o Jantar, pelo que a sua Maria iria ficar sentada à mesa sozinha.A D. Maria do Cheta iria comer as fanecas todas. Só sobrariam espinhas...
4. Derreados
Corpos doridos e ais sem fim. Referências à idade. Afirmações de
desânimo.
Comigo aconteceu doerem-me os rins. Foram guinadas a mais naquele barco
demasiado irrequieto.
Com o Malheiro, a coluna desencaixou um bocadinho mais.
Com o Cheta a desilusão: cansado, repetiu que já não tinha estofo para esta
vida de pescador, com tamanho mar.
O Forte foi o único que não se queixou. Pudera, não pescou nada...kkkkkkkkk...nem para o gato pescou!
5. Uma coisa é certa
“Que pescas, ó pescador,
No nosso Rio da vida?
Pescaria sem pudor,
P’ra “tainada” bem servida.
O assédio à pescaria
Não é criminalizado,
Porque o peixe bem sabia
Que era p'ra ser “cozinhado”!” (*)
Leça, 2 de Dezembro de 2017
Luís M. Borges
(*) Obs: Poema de José Gonçalinho








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