quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

78. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O RUIVODELREI

 Da vida com ondas...
 
Os 5 pescadores da embarcação Fosmar gostam em demasia da vida. Da vida com ondas, da vida ao vento, da vida à volta dos peixes.
Há quem não a tolere…por isso não a compreende! Vivem “circunspectos, sombrios, alquebrados, derreados, autênticos sacos de lixo.”
Estes 5 pescadores não cobram a ninguém a felicidade que lhes transborda. Tentam antes oferecê-la a outros, contagiá-los. Entregam-se à dádiva e à partilha.

 RuivoDelRei

Tudo isto ressaltou como verdade descoberta, quando o Cheta e o Forte pescaram aqueles enormes ruivos. Os ruivos do limite… o do primeiro pesava 5,200 kg e o do segundo 5,050 kg. Os restantes pescadores foram testemunhas e credenciaram. A seriedade não se regateia!
Designei o recorde do Cheta como o “RUIVODELREI”.
- Parabéns, companheiro Cheta, por este feito invulgar e prestigiante. 

2. NÓSFOSMAR

 O mundo natureza

Se as equipas se constituem para ganhar, a “equipa” da embarcação de recreio Fosmar, visa outros objectivos. Já sublinhei isto vezes sem conta nas 56 postagens deste Blogue.
- Interessa-nos sentir sempre que possível o mundo natureza colado às nossas existências, onde o horizonte do mar se perde de vista;
- Interessa-nos pescar sem ânsias, sem calculismos, sem protagonismos, sem derrotismos - pescar naturalmente como quem respira, no prazer dos momentos;
- Interessa-nos manter e reforçar a mãe amizade, irmã da solidariedade, que nos cobre como um sol, dando-nos aquele calor interior tão confortável e tão humano.
Esta equipa e este barco têm uma sigla, que usamos como estandarte, onde até se canta em coro “A Laurindinha” – NÓSFOSMAR.

3. Luís Vaz de Camões revisitado

 É um desejo...

A pesca é um fogo que nos arde sem o vermos
É um desejo que nos consome sem o sentirmos
É uma necessidade que nos mata sem a querermos
É um nunca contentar-se sempre de contente.
Contradições, das positivas, contradições intensas, que nos enrubescem os rostos e nos fatigam os corpos.
Benditos rostos tisnados e benditos corpos cansados.
Fiquemos com Camões, nunca nos contentando de contentes.

4. Saída n. 57

 Américo mar mau

Segundo o Américo o mar era mau. Esbranquiçava os fios. Eu, fartei-me de lhe pedir, que me explicasse. Explicou, mas não percebi.
Mesmo sendo mau, o agoiro do Américo, não se concretizou.
Os peixes desejados do costume, mas grandes e com frequência, aos dois e aos três em simultâneo, como que nasciam do fundo do mar, como que brotavam das águas que se abriam em dádiva.
O mar afinal era bom.

 Mar bom...

Neste dia gélido, pintar cabazes cheios, foi a nossa arte. A tinta acabou, pelo que tivemos de recolher cedo as telas, rumando para a sala de exposições (marina de Leça), onde outros pintores nos esperavam…

5. A cozinha 


O Fosmar tem uma cozinha. Servem-se pequenos almoços, almoços e às vezes lanches. Tem 5 cozinheiros, que são os únicos clientes. As receitas são de tipo tradicional e ajeitam-se ao gosto de cada um.
Tenho referido, qual o cardápio do dia, para animar o arraial da pesca. Só tive o prazer de receber um comentário algo desfasado do contexto, formulado por um leitor brasileiro, que se expressou do seguinte modo:
- A desculpa da pesca serve é para vocês comerem.
Andei uns dias a mastigar este comentário. Com o tempo, perdi-lhe o sabor.


Vamos então entrar no bufete do Fosmar. Neste dia foi assim o pequeno-almoço:
- Uns ovos cozidos do Borges, uns deliciosos panados do Américo, um presunto fatiado do Malheiro, o pão fresco do Cheta e as minis do Óscar.
Como foi? Sandes na boca ou meias trincadas ou em cima dos iscos, cervejas entornadas, ovos a escorregarem para o balde das fanecas, panados encharcados com água do mar…tudo num reboliço. E porquê? Os peixes não davam descanso, logo os pescadores não comiam, ou comiam mal ou tinham percalços. Um pequeno-almoço repleto de peripécias. Não deu para saborear…esta vida de pescador é muito difícil.
O bufete reabriu para o almoço. O prato do dia foi do Cheta, que apresentou frango estufado com ervilhas, mais um esparguete como acompanhamento. Gostei imenso da massa à mistura com umas choupas que continuavam a teimar, não nos dando sossego…


Em intervalos pequenos lá deu para eu abrir umas garrafas com o sacra-rolhas, mas com alertas:
- Cheta, a tua cana tem peixe. Óscar, olha a cana! Oh Américo, esse é dos bons. Helá?
Com esta azáfama (isto de deixar a cana a pescar enquanto se come é um vício), entornaram-se pratos com a massa a correr pelo chão do barco, calças encharcadas com vinho, pernas do frango paradas na boca, comida a arrefecer...os sargos continuavam a insistir…era vingança deles.

 Bagaço do Óscar

A pedido e por favor, os peixes decidiram dar-nos ao menos o prazer de saborearmos a sobremesa: queijo da serra do Borges, pão-de-ló do Malheiro (uma maravilha), café e bagaço do Óscar.
Reconfortados, logo apitou o comboio, para mais umas varadas de carapaus.
Ainda haverá quem ache que a gente vai à pesca para se banquetear?

6. Abre-te Sésamo

 A caverna

Esta pescaria parece uma história retirada do célebre livro de contos “As 1001 noites”. Neste dia, todos nos sentimos Ali-Bábá. Tínhamos aberto a caverna, onde se encontrava um tesouro, pelo que carregámos os alforges.
Mas, quase nunca temos esta sorte, porque a sorte evita os peixes, embora às vezes ela se esqueça de o fazer.
Este dia foi magia, fez-se à volta do demais.

 À volta do demais

Leça, 21 de Janeiro de 2017
Luís M. Borges

Obs: Algumas das imagens foram retiradas da internet

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