Aos gorazes, em jeito de fecho de ano
Super Forte
1. A guerra das estrelas
- Os gorazes não vão
ter com os pescadores à cama.
Foi assim que a manhã
se iniciou na Marina de Leça, em má disposição, provocada por um inesperado
atraso. Entendedores entenderão…
Duas horas de viagem
com inicio das hostilidades às 08h30, onde logo se afadegaram alguns gorazes
nas canas dos nossos campeões – o Óscar e o Forte. Sem qualquer tipo de
surpresa, diga-se. Foram as primeiras estrelas do dia, a iluminarem o desejo e
a ânsia dos três restantes pescadores, ainda em fase de montagem e até de
compreensão acerca do funcionamento dos carretos (quero dizer do Borges). Estes
primeiros gorazes foram ofertados ao Deus Neptuno (mãos estendidas ao alto - uma
fé inabalável). Depois o Forte, com a sua insustentável leveza de material,
começou a adiantar-se, arrecadando uns tantos de bom gabarito. Dizia:
- Eu sou o melhor…
Já o Cheta, com a sua
simpática resmunguice, que ninguém leva a sério, depressa se lhe afivelaram uns
sorrisos e umas exclamações de contentamento. Tratava-se de um descontentamento
contente (claro, que ao contrário, foi o Camões que o disse, não foi?) que é
sempre registado por todos com bonomia.
As duas estrelas
negras, neste período inicial, foram obviamente o Borges e estranhamente o
Malheiro. Sem luz, sem chama, por isso os vermelhos não lhes ligaram pevide. O
primeiro ainda às voltas com o manuseamento correcto do novo carreto eléctrico
(o que até se compreende) e mal assim com a melhor forma de iscar os grossos
bocados de sardinha nos pequenos anzóis (o que já não se compreende). O segundo
remetido para a marginalidade da proa, como que escorraçado da ré, ao jeito de
– Vai-te lá e atravessa o Mar Mediterrâneo como um refugiado sírio (e
desenrasca-te). Senti o Malheiro desgarrado do grupo, triste, até esquecido
pela malta…De vez em quando, como afronta, alguém gritava: - Ó Malheiro, não
dizes nada?
Super Óscar
2. Os pormenores do plano
Foram os sussurros do
Forte, as chamadas de atenção do Óscar e o material preparado com esmero pelo
Cheta, que visaram a recuperação do Borges. Eram prá aí 11 e pico, coisa e tal…
Foi assim com o Forte:
- Quando sentir que a
chumbada bateu no fundo, levante-a um metro e vá fazendo algum “jigging”.
Foi assim com o Óscar:
- Pedaços grossos de
sardinha. O goraz aprecia bons bocados. Olhe os meus iscos.
Foi assim com o Cheta:
- Utilize um aparelho
com bolinhas e o anzol escondido no isco, de acordo com a técnica; espete até
ao outro lado e volte a espetar ao contrário.
Resultou em pleno.
Conto a seguir. Mas antes, permitam-me que diga o seguinte: na passagem do ano
(na viragem, como dizem os brasileiros), irei comer 12 passas a pensar neste 3
amigos, a desejar-lhes sorte e saúde…Não sou ingrato…é o que tenho para lhes
oferecer.
Super Cheta
3. Solidariedade
Li algures, que a
antimatéria brilha tanto como a matéria. Embora se trate de ciência física,
apliquei-a ao meu caso – o fracasso contém em si o êxito.
E o êxito começou a
afirmar-se com os sinais da cana, a puxar em repelões. Eram gorazes…Disse tudo
que me veio à cabeça, em gritos de guerra malcriados, mas encorajadores:
- Calalho, porra,
(…da-se), filho da p…, bandido, vem ao VÔ…
Perante tamanha
exaltação eufórica, os meus colegas largaram as respectivas canas e vieram
postar-se à minha volta. Queriam dar os seus conselhos e ajudar na captura do
tão esperado goraz, o primeiro do dia, cujo significado simbólico, caso o
conseguisse capturar, valeria como extraordinário incentivo. Daí a importância
do apoio desta claque, que desejava ardentemente que eu obtivesse êxito. APOIO
SOLIDÁRIO…
Como referi, eles
aproximaram-se de mim, rodearam-me (já nem tinha espaço para pescar) num
impulso simultâneo. Os seus incentivos eram para mim o mundo.
Eles não esperavam de
mim nada em troca – queriam apenas que eu pescasse o meu primeiro goraz do dia.
Queriam ansiosamente ser prestáveis. Queriam dar-me o prazer de eu conseguir e
serem disso testemunhas e intervenientes. Eles viram em mim, a angústia de não
conseguir tirar o peixe, eles viram em mim um desânimo triste, talvez um
derrotado e fizeram-se solidários comigo. O Forte, o Óscar e o Cheta.
Tirei o peixe. Só não
estrelejaram foguetes, porque os não havia. A partir deste momento, deitei fora
os meus nabos e as minhas nabiças…fui-me a eles com gana. Com confiança. Botei
9 lindos anjinhos no cabaz da fartura.
Agora, deixem-me dizer
o seguinte: sozinho, eu nunca poderia viver esta aventura, este mar e este tipo
de pesca. Pergunto-me, vezes sem conta, o porquê de existir entre os seres
humanos, quase sempre, uma imensa barreira que separa o EU do NÓS. A
solidariedade derruba esta barreira! Está provado, mas a maior parte dos seres
humanos não gosta, não aceita ou não compreende…
Super Borges
4. Balanço de 2016 da nossa pesca lúdica
4.1. Saídas:
Conclusão: Ano
razoável para o nosso grupo de pesca.
Número total de saídas
do Fosmar para a pesca de alto mar durante o ano de 2016 (que eu tivesses ido):
17
Mês em que não se foi
ao mar: 1 (Abril)
Meses com 1 saída: 6
(Janeiro, Fevereiro, Março, Maio, Junho, Outubro)
Meses com 2 saídas: 8
(Julho, Setembro, Novembro, Dezembro)
Mês com 3 saídas: 3
(Agosto)
4.2. Resultados:
Resultados: 13 saídas
Razoáveis; 4 saídas excepcionais.
4.3. Espécies capturadas:
Capturas mais em
evidência: Carapaus, Sargos, Choupas, Serranos, Cavalas, Fanecas, Besugos,
Gorazes, Congros.
Capturas ocasionais:
Pargos, Polvos, Bodiões-Canário.
4.4. Eficácia dos membros do grupo:
Eficácia excelente:
Óscar, Forte, Cheta
Eficácia boa: Malheiro
e Borges
4.5. Chefes da culinária
Melhor: Óscar
Razoáveis: os
restantes
OBS: O Forte costuma
compensar em Barcelos…kkkkkkkk
4.6. Manutenção da embarcação:
A merecer medalha.
4.7. Outros aspectos a realçar:
Simpatia, amizade,
disponibilidade, gabanço, forma física, empenhamento, solidariedade, segurança
e confiança, pontualidade, responsabilidade, etc – todos possuem estas
características em grau elevado, caso assim não fosse, a equipa já se tinha
desconjuntado.
Super Malheiro
5. Mensagem:
Que o ano de 2017 seja
tão bom ou melhor que o anterior. Eu aposto no MELHOR. Acho que seremos
capazes. Com esta Equipa Super...
Leça da Palmeira, 29 de Dezembro de 2016
Luís M. Borges
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