quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

76. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




Aos gorazes, em jeito de fecho de ano

Super Forte

1. A guerra das estrelas
- Os gorazes não vão ter com os pescadores à cama.
Foi assim que a manhã se iniciou na Marina de Leça, em má disposição, provocada por um inesperado atraso. Entendedores entenderão…
Duas horas de viagem com inicio das hostilidades às 08h30, onde logo se afadegaram alguns gorazes nas canas dos nossos campeões – o Óscar e o Forte. Sem qualquer tipo de surpresa, diga-se. Foram as primeiras estrelas do dia, a iluminarem o desejo e a ânsia dos três restantes pescadores, ainda em fase de montagem e até de compreensão acerca do funcionamento dos carretos (quero dizer do Borges). Estes primeiros gorazes foram ofertados ao Deus Neptuno (mãos estendidas ao alto - uma fé inabalável). Depois o Forte, com a sua insustentável leveza de material, começou a adiantar-se, arrecadando uns tantos de bom gabarito. Dizia:
- Eu sou o melhor…
Já o Cheta, com a sua simpática resmunguice, que ninguém leva a sério, depressa se lhe afivelaram uns sorrisos e umas exclamações de contentamento. Tratava-se de um descontentamento contente (claro, que ao contrário, foi o Camões que o disse, não foi?) que é sempre registado por todos com bonomia.
As duas estrelas negras, neste período inicial, foram obviamente o Borges e estranhamente o Malheiro. Sem luz, sem chama, por isso os vermelhos não lhes ligaram pevide. O primeiro ainda às voltas com o manuseamento correcto do novo carreto eléctrico (o que até se compreende) e mal assim com a melhor forma de iscar os grossos bocados de sardinha nos pequenos anzóis (o que já não se compreende). O segundo remetido para a marginalidade da proa, como que escorraçado da ré, ao jeito de – Vai-te lá e atravessa o Mar Mediterrâneo como um refugiado sírio (e desenrasca-te). Senti o Malheiro desgarrado do grupo, triste, até esquecido pela malta…De vez em quando, como afronta, alguém gritava: - Ó Malheiro, não dizes nada?

Super Óscar

2. Os pormenores do plano
Foram os sussurros do Forte, as chamadas de atenção do Óscar e o material preparado com esmero pelo Cheta, que visaram a recuperação do Borges. Eram prá aí 11 e pico, coisa e tal…
Foi assim com o Forte:
- Quando sentir que a chumbada bateu no fundo, levante-a um metro e vá fazendo algum “jigging”.
Foi assim com o Óscar:
- Pedaços grossos de sardinha. O goraz aprecia bons bocados. Olhe os meus iscos.
Foi assim com o Cheta:
- Utilize um aparelho com bolinhas e o anzol escondido no isco, de acordo com a técnica; espete até ao outro lado e volte a espetar ao contrário.
Resultou em pleno. Conto a seguir. Mas antes, permitam-me que diga o seguinte: na passagem do ano (na viragem, como dizem os brasileiros), irei comer 12 passas a pensar neste 3 amigos, a desejar-lhes sorte e saúde…Não sou ingrato…é o que tenho para lhes oferecer.

Super Cheta

3. Solidariedade
Li algures, que a antimatéria brilha tanto como a matéria. Embora se trate de ciência física, apliquei-a ao meu caso – o fracasso contém em si o êxito.
E o êxito começou a afirmar-se com os sinais da cana, a puxar em repelões. Eram gorazes…Disse tudo que me veio à cabeça, em gritos de guerra malcriados, mas encorajadores:
- Calalho, porra, (…da-se), filho da p…, bandido, vem ao VÔ…
Perante tamanha exaltação eufórica, os meus colegas largaram as respectivas canas e vieram postar-se à minha volta. Queriam dar os seus conselhos e ajudar na captura do tão esperado goraz, o primeiro do dia, cujo significado simbólico, caso o conseguisse capturar, valeria como extraordinário incentivo. Daí a importância do apoio desta claque, que desejava ardentemente que eu obtivesse êxito. APOIO SOLIDÁRIO…
Como referi, eles aproximaram-se de mim, rodearam-me (já nem tinha espaço para pescar) num impulso simultâneo. Os seus incentivos eram para mim o mundo.
Eles não esperavam de mim nada em troca – queriam apenas que eu pescasse o meu primeiro goraz do dia. Queriam ansiosamente ser prestáveis. Queriam dar-me o prazer de eu conseguir e serem disso testemunhas e intervenientes. Eles viram em mim, a angústia de não conseguir tirar o peixe, eles viram em mim um desânimo triste, talvez um derrotado e fizeram-se solidários comigo. O Forte, o Óscar e o Cheta.
Tirei o peixe. Só não estrelejaram foguetes, porque os não havia. A partir deste momento, deitei fora os meus nabos e as minhas nabiças…fui-me a eles com gana. Com confiança. Botei 9 lindos anjinhos no cabaz da fartura.
Agora, deixem-me dizer o seguinte: sozinho, eu nunca poderia viver esta aventura, este mar e este tipo de pesca. Pergunto-me, vezes sem conta, o porquê de existir entre os seres humanos, quase sempre, uma imensa barreira que separa o EU do NÓS. A solidariedade derruba esta barreira! Está provado, mas a maior parte dos seres humanos não gosta, não aceita ou não compreende…

Super Borges

4. Balanço de 2016 da nossa pesca lúdica
4.1. Saídas:
Conclusão: Ano razoável para o nosso grupo de pesca.
Número total de saídas do Fosmar para a pesca de alto mar durante o ano de 2016 (que eu tivesses ido): 17
Mês em que não se foi ao mar: 1 (Abril)
Meses com 1 saída: 6 (Janeiro, Fevereiro, Março, Maio, Junho, Outubro)
Meses com 2 saídas: 8 (Julho, Setembro, Novembro, Dezembro)
Mês com 3 saídas: 3 (Agosto)
4.2. Resultados:
Resultados: 13 saídas Razoáveis; 4 saídas excepcionais.
4.3. Espécies capturadas:
Capturas mais em evidência: Carapaus, Sargos, Choupas, Serranos, Cavalas, Fanecas, Besugos, Gorazes, Congros.
Capturas ocasionais: Pargos, Polvos, Bodiões-Canário.
4.4. Eficácia dos membros do grupo:
Eficácia excelente: Óscar, Forte, Cheta
Eficácia boa: Malheiro e Borges
4.5. Chefes da culinária
Melhor: Óscar
Razoáveis: os restantes
OBS: O Forte costuma compensar em Barcelos…kkkkkkkk
4.6. Manutenção da embarcação:
A merecer medalha.
4.7. Outros aspectos a realçar:
Simpatia, amizade, disponibilidade, gabanço, forma física, empenhamento, solidariedade, segurança e confiança, pontualidade, responsabilidade, etc – todos possuem estas características em grau elevado, caso assim não fosse, a equipa já se tinha desconjuntado.

Super Malheiro

5. Mensagem:
Que o ano de 2017 seja tão bom ou melhor que o anterior. Eu aposto no MELHOR. Acho que seremos capazes. Com esta Equipa Super...

Leça da Palmeira, 29 de Dezembro de 2016
Luís M. Borges




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