quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

77. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

OS RUIVOS DO LIMITE




1 – Os charabanecos


A pesca começou com charabanecos. A nossa equipa, não desprezou estes pequenos seres, só faltando o gato para trincar alguns.
A desvantagem, esteve claramente na limpeza rápida dos anzóis, pois os minorcas não perdoavam o suganço implacável da ameijoa, esse isco tão do agrado de sargos e choupas.


2 – As choupas
Mas, as choupas também moravam nos olhos do gato (como diria Ana Margarida de Carvalho, embora de outro modo), pelo que começaram a ver-se estes peixes combativos, a concorrerem com a carapauzada miúda.
A valorização foi-se fazendo em crescendo, com os homens da cana, a sentirem-se bons pescadores. Neste contexto, o Senhor “Barbeiro” (Mister Forte), assim designado gentilmente pelo Senhor Cheta, minou a fase choupa com um belo pargo, só para chatear!
Contudo, o “choupal” estava imparável e foi definindo, através de uma invulgar intensidade, muitas vezes às 2 e às 3 choupas de cada vez, os cabazes do barco. Era dia de choupas. Era o lugar certo.
Sorriam os pescadores, lançando olhares avaliadores ao conjunto do peixe capturado.
No rádio havia choraminguice:
- Que nada…que miséria…


3 – O bota-abaixo
O meu grande amigo Malheiro tem um jeito especial para comidas incomuns. Já uma vez referi, que tenho curiosidade em provar as suas célebres pataniscas de sargo, mas infelizmente nunca as provei.
Neste dia, o Malheiro apresentou-nos um prato muito nutritivo, a saber:
- Foi uma coisa semelhante a uma feijoada, mas que não era feijoada;
- Foi uma coisa semelhante a uma massada, mas que não era massada;
- Foi uma coisa parecida com uma sopa de couve-coração, mas que não era uma sopa;
- Foi muita carne variada, mas que não era um cozido à portuguesa.
Dizia o Cheta:
- Mas está bom.
Estava mesmo. Falo a sério. Não sou do género bota-abaixo.
O vinho verde tinto Vinhão debastou esta excelente refeição, para além de propiciar uma melhor e mais agradável disposição. O queijo da serra e a ginjinha do Óscar arremataram o lance, concluindo-se que nem só de choupas vive esta equipa.


4 – Escravos mecânicos
Estou quase a desconfiar, que os carretos electricos do Forte e do Óscar, mereceriam era um bom banho até ao fundo mar. Os peixes ficariam assim a conhecer a técnica humana.
Digo isto em tom de brincadeira, porque no início desta sessão de pesca, os carretos eléctricos do Forte e do Óscar, recusaram-se a funcionar. O Forte logo se adaptou à manivelada física. Quanto ao Óscar, decidiu pescar com o seu novo Mercedes, ou seja, com o carreto eléctrico pesado da pesca aos gorazes. Recuperou rapidamente, depois de uma série de tentativas goradas a tentar fazer funcionar o carreto velho, com perda evidente de tempo, ou não fosse o Óscar.
Que coincidência: os dois carretos avariarem ao mesmo tempo! Os nossos escravos mecânicos nem sempre estão dispostos a executar as ordens dos seus donos. Se é assim com uns simples carretos, o que ocorrerá quando tivermos robots?

Cheta
5. Sua excelência O Ruivo
O ruivo é um peixe com uma forma corporal muito peculiar: uma enorme cabeça óssea; corpo cónico; grandes barbatanas peitorais com dois raios  inferiores livres (estes raios permitem-lhe “marchar” sobre o fundo).
A designação científica é a seguinte: “Chelido nichthys lucerna” ou “Trigla lucerna”.
Biologia: pode atingir o tamanho máximo de 75 cm para um peso de 6 kgs. Com este tamanho e peso, é peixe para chegar aos 10 anos de idade. Vive habitualmente em fundos de areia entre rochas, de burgau e de lama?
É frequente encontrá-lo até profundidades de 300 metros, no talude continental. As concentrações máximas de ruivos situam-se entre os 50 e os 150 metros, embora no Inverno procure profundidades à volta dos 80 metros.
É um peixe essencialmente bentónico, podendo ocasionalmente vir à superfície.
Costuma entrar nos estuários.
Emite sons (“grunhidos”), provocados por uma contracção dos músculos, que rodeiam a bexiga natatória.
Reproduz-se de Dezembro a Fevereiro.
Repartição geográfica: Atlântico Este, da Noruega ao Senegal; Mediterrâneo; África do Sul.


Antecedente: o seu antepassado provável foi o “Dapalis macrurus”, registado em fóssil, datado de há 35 milhões de anos.


Apresentado o Bilhete de Identidade de sua Excelência, resta-me contar o feito, protagonizado pelo Forte e pelo Cheta.
Por volta da 15h00, o Forte começa a gritar, a pedir o xalavar. Trazia peixe grosso. Assim que ele se chegou à superfície, puxado em esforço, mais vozes se fizeram ouvir, também em gritos de excitação:
- É um ruivo monstruoso. Dá aí o camaroeiro…cuidado…não pode fugir…
Não fugiu, pois ficou enredado, mal cabendo no xalavar. Saltos de alegria, êxtase, admiração e ditos virtuosos:
- O Forte é o maior.

Forte
Eis quando, neste auge de excitação, o Cheta também começa a gritar:
- É peixe grande. O camaroeiro. Atenção. Cheguem para lá…
- É outro ruivo igual ou maior. Ai meu Deus…
Com o mesmo frenesim e uma perícia igual, este bicho também entrou no barco.
Nunca tínhamos visto dois peixes gémeos deste tamanho. E tão vermelhinhos…

Óscar
6. A emoção não se inventa
Foi uma cena incrível. Dito de outro modo: foram duas cenas incríveis. O Forte mirava e remirava o seu enorme ruivo. O Cheta ria e sorria contentíssimo para o seu grande ruivo. Aos restantes colegas, só lhes faltou aparecer a mosca, tais as bocas tão abertas pela incredibilidade.
Concluiu-se depois, que as coincidências neste dia memorável, nasceram aos pares (disse La Palisse): com os carretos eléctricos e com os ruivos. Foi pena, no caso dos ruivos a coincidência não ter sido a cinco.

Malheiro
“Fashion films” (FTV.COM) foi a cena seguinte. Os dois lideres a deixarem-se fotografar com os respectivos troféus. Os outros a apropriarem-se dos peixes alheios. Compreensível, dada a excepcionalidade das proezas. Para tudo figurar no FaceBook, no Blogue, para efeitos de prestígio e de memória futura. Os dados preliminares do peixe pescado pelo Cheta foram anotados, a fim de se poder preencher uma Ficha de Homologação de Recordes.
Terminada a pescaria, mostraram-se os dois peixes, aos pescadores de uma embarcação próxima. Soaram “parabéns” esfusiantes. Vi rostos felizes. Fiquei muito admirado por tal ter acontecido…sabem como é…
Chegados à Marina, a estupefação foi deveras expressiva e as perguntas choveram:
- Onde pescaram esses peixes?
O Cheta respondeu:
- No Zero Quatro.


Ao que o outro, com um raciocínio perfeito e pleno de certeza, retrucou:
- Impossível. Eu nunca pesquei peixes desse tamanho nessa zona.
O Cheta zangou-se:
- Se está a duvidar de mim, nunca mais me pergunte seja o que for.
O retrucador, admirado, pareceu-me ter emudecido, convencido que a mentira que imaginou, afinal se tinha transformado em verdade e pisgou-se…
Enfim, só emoções!


7- E 2017?
É bom desejar-se e tentar sempre ir mais além. Conseguiremos?
E se tal não se verificar? Teremos de nos zangar com a vida?
Claro que não. Só costumamos ir à pesca com mar sereno. A serenidade vai sempre connosco.
OBS: Quero sugerir ao Forte, que veja o filme “Edward mãos de tesoura”, dirigido por Tim Burter, com Johnny Depp no papel principal. Os entendedores entenderão…


Bibliografia: 

Poissons de mer de Arnaud Filleul, Edições Larivière, 2001.
“Não se pode morar nos olhos de um gato” de Ana Margarida de Carvalho, Teorema, 2016 

Leça da Palmeira, 07 de Janeiro de 2017
Luís M. Borges

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