sexta-feira, 3 de junho de 2016

61. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



A cana mágica

  

1. A Tabuleta
O pesqueiro das “Pedras Baixas” estava sinalizado. Na tabuleta lia-se “Aqui moram fanecas e sargos adultos”. O Óscar estacionou imediatamente, mesmo contra a mão.
E foi bom. Apoitado o barco e para gáudio geral, começaram a ser içados das profundezas misteriosas, sargos de excepção. O menu/isco era gourmet: camarão, lula, amêijoa e sardinha. Se fosse cá em cima e me apresentassem estes iscos, isto é, grelhadinhos e bem acompanhados, eu também era capaz de me esquecer do anzol. Por isso, a alternativa democrática da escolha livre, é um processo fantástico e justo, embora cruel.


Os quatro ases da bisca, fizeram-se assim a ganhar este jogo de enganos durante algum tempo, até que a mesa se desfez porque um senhor arrastão, às voltas, apareceu por ali. Estava a operar muito perto…ficámos preocupados….e por uma questão de segurança…zarpámos.
Nesta segunda poitada, nem vivalma de seres do profundo, pelo que se impôs zarparem de novo.
Na terceira poitada, mais do mesmo. Aproveitámos para repor energias, com uma sande de biqueirão de escabeche, outra de presunto e ainda mais meia de chouriço extra picante espanhol. As mini geladas caíram bem, contra o calorão do dia.


Navegámos de novo umas quatro milhas. E aqui finalmente resultou, tendo todos retomado o ritmo e a alegria da pesca. A carapauzada fez-se a nós, as choupas negras escureceram os cabazes, a prata dos sargos enriqueceu o conjunto. Até uma tintureira se afeiçoou à gente, às voltas por ali, a rondar a oportunidade de roubar algum peixe. E conseguiu, a ladra, pois sacou-nos a todos um peixe, com evidente prejuízo, sobretudo em material perdido. Apelidei esta grande tintureira de “Loba”, dado o modo como procedia. Não debandou…rondou sempre o barco até ao final da pesca. Temíamos era que aparecesse a alcateia, mas não. 

2. Sabor intenso
O Óscar tinha prometido fazer umas papas de sarrabulho. Por isso, aninhou o tacho no cubo de madeira e acendeu o fogareiro. O ar tornou-se fragrância. 


Por várias vezes o Cheta se queixou do “papo” – que não andava bem, que não sabia se iria comer. O Malheiro, aquele grandalhão da bicicleta (um destes dias irei contar a história), prometeu deitar abaixo cinco malgas de papas. O Borges cultivou o seu desejo com descrição (tinha dúvidas se conseguiria competir com o Malheiro – improvável).
Os cominhos aprimoraram as papas, o vinho verde cantou a verter nas canecas de metal e as loas encantaram e reforçaram a estima pessoal do Óscar. Claro, mereceu.
Todos mimados, saiu o café brasileiro, a rimar com cálice de bagaço – bom café, pois é /bom bagaço, pois é – e a fechar, uma fatiazita de queijo.
Depois, vieram os sinais da satisfação: o Cheta afagou o Papo, o Borges esticou-se, o Malheiro bebeu mais uma rolhinha. Dei conta, que o Óscar soube ler estes sinais… 

3. A cana mágica
Retomámos a faina, com um vento agradável a amenizar a acalorada. Mesmo assim, os peixes continuaram connosco. Gordos e belos. Toda a tarde.


Antes da abalada, aconteceu a história: uma cana estava a pescar sozinha, isto é, sem o seu legítimo proprietário a manobrá-la. Uma cana mágica, enfiada no porta-canas, a dobrar-se freneticamente com peixe preso. 


Como poderia tal acontecer? Simples. O Óscar, dado o seu problema físico, teve de se ir esticar, a fim de aliviar a pressão contínua sobre a coluna, por conselho médico. Ora, ele deixou a cana a pescar. Reparando no desespero da cana, que cada vez mais indicava peixe preso, o Malheiro alou. Bem, foi digno de se ver: três excelentes peixes. Que fez o Malheiro a seguir, após ter desanzolado os peixes? Iscou de novo e remeteu para o fundo. Entretanto correu para a sua própria cana, já a fremir também com peixe. Mais três. Ou seja, durante uma hora, o Malheiro correu para as duas canas, num corropio, sempre a içar e quase sempre a tirar três de cada vez. Encheu uma arca de bom peixe. 


- Bolas…eu quero uma cana mágica.
O Óscar referiu depois, que tinha ensinado a cana a pescar. O Cheta na próxima pescaria iria imitar o Malheiro. Cá o Borges desvalorizou:
– O peixe está tolo, disse.

 

4 . Resultados
Como quase sempre, o resultado piscatório agradou aos quatro mareantes.
- Vai dar para o “tacho” – comentou o Cheta.



Sinceramente, no pino da Primavera, a lembrar Verão, num dia de temperatura a subir aos 30 graus, mais um sol impiedoso (até apanhámos um valente escaldão), com um mar de senhoras e quase sem vento…nenhum de nós esperaria que nos pudéssemos safar. Mas aconteceu!


Até um congro entrou na arca do Malheiro. Neste dia, a vaca sagrada esteve com ele...”calalho” (diria o norte coreano).

Leça, 01 de Junho de 2016
Luís M. Borges

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