FINALMENTE
1. Aprecio…
Desde Outubro do ano passado que foi isto, triste e
deprimentemente, fui à pesca de alto mar 6 vezes (uma por mês). Aliás, fomos…
As minhas rotinas escangalhadas, com apreciações negativas, assim as
formulei, no dia-a-dia:
- Que apreciava morar em Matosinhos,
onde o mar se impunha, mas acabei por ficar longe dele tantas vezes.
- Que apreciava comer peixe pescado
por mim, mas acabei por ficar de boca fechada, nos dias de grelha.
- Que apreciava ocupar o meu tempo
livre com o material de pesca organizado, mas acabei por esquecer
onde guardava os anzóis, de tão pouco usados.
- Que apreciava os telefonemas de
véspera a combinar as pescarias com os colegas, mas acabei
por só ouvir silêncios, sinais de impossibilidade.
- Que apreciava o esforço físico de
pescar e cansado dormir mesmo, mas acabei por só conhecer o sofá e as noites de
insónia, a sonhar esforçado com pescarias.
- Que apreciava conviver e
confraternizar com os meus amigos da pesca no barco em alto mar, mas acabei por
ficar sozinho, como num deserto.
Conclusão: quase deixei de apreciar fosse o que fosse. Neuras
e mais neuras… quase
depressão!
2. Finalmente
O Óscar, pese embora a enfermidade que o despachou para uma baixa, para aturadas
análises e rastreios, para médicos e medicamentos, para sofrimentos, para o
risco de uma intervenção cirúrgica à coluna, já se encontrava melhor. Disse-nos
ele - que estava apto - embora tivesse de ter alguns cuidados.
Com um mar quase sem ondulação e sem vento, a vontade de irmos pescar, era
muita! O Forte, porque o seu negócio não incluía peixe...não conseguiu
disponibilizar-se. Assim sendo, os quatro (Óscar, Cheta, Malheiro, Borges)
estabeleceram, que segunda-feira, dia 16 de Maio, zarpariam da Marina às 07h00.
3. E “Biba”
Já estávamos em pleno alto mar e porque queríamos ser felizes, saiu-nos
em uníssono uma palavra cá das nossas – “Biba”. Foi como um desabafo. Com este
grito iniciámos a faina.
Os peixes a princípio, não nos atenderam. Apenas meia dúzia deles sentiram
a nossa ânsia. Contudo, com mais uns metros de cabo, sargos, carapaus, fanecas,
besugos, choupas, e outros, dispuseram-se…
E assim começou a festa e a alegria, de tão esquecida que estava.
4. O fenómeno Malheiro
Foi a história do dia. Até ao meio dia, o Malheiro não tinha pescado um
sargo que fosse, enquanto os restantes somavam e seguiam. Irritado, calava-se…os
colegas chingavam…o odor da massa de vitela pairava…o cabaz ia enchendo com os
contributos intensos do Borges, do Óscar e do Cheta…
Até que o Malheiro, num assomo de coragem, pediu um “aparelho ao Cheta”.
O Borges entregou-lhe a táctica…ele aplicou-a imediatamente na respectiva cana…o
Óscar sorria abertamente e o Cheta fazia cara séria.
- Vamos lá ver o que dá, é capaz de ser das calças!
Baldaram-se as previsões negativas acerca da funcionalidade do Malheiro.
Ele empenhado, acirrado, deu começo à glória, tendo começado a apanhar sargos a
bom ritmo, chegando aos 7 até à hora de almoço. Ou seja, recuperou rapidamente.
O Borges abria o espanto, o Óscar ostentava a admiração e o Cheta gabava os seus
aparelhos e quanto ao Malheiro…imagine-se, só sorria.
A façanha malheiral desvaneceu-se durante o almoço, às 13h00. A vitela
abafou-a.
O Cheta, já em tempo de regresso, comentou com rigor o acontecimento:
- Faz a diferença…anzóis e fios fracos e aparelhos mal conseguidos, não
me dizem nada. Há que investir no bom material e saber fazer. Aí está a prova.
É ou não é assim companheiro?
O Malheiro sorriu mais uma vez.
Leça, 16 de Maio de 2016
Luís M. Borges
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