quinta-feira, 2 de junho de 2016

60. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



FINALMENTE

 
1. Aprecio… 
 
Desde Outubro do ano passado que foi isto, triste e deprimentemente, fui à pesca de alto mar 6 vezes (uma por mês). Aliás, fomos…
As minhas rotinas escangalhadas, com apreciações negativas, assim as formulei, no dia-a-dia:
- Que apreciava morar em Matosinhos, onde o mar se impunha, mas acabei por ficar longe dele tantas vezes.
- Que apreciava comer peixe pescado por mim, mas acabei por ficar de boca fechada, nos dias de grelha.
- Que apreciava ocupar o meu tempo livre com o material de pesca organizado, mas acabei por esquecer onde guardava os anzóis, de tão pouco usados.
- Que apreciava os telefonemas de véspera a combinar as pescarias com os colegas, mas acabei por só ouvir silêncios, sinais de impossibilidade.
- Que apreciava o esforço físico de pescar e cansado dormir mesmo, mas acabei por só conhecer o sofá e as noites de insónia, a sonhar esforçado com pescarias.
- Que apreciava conviver e confraternizar com os meus amigos da pesca no barco em alto mar, mas acabei por ficar sozinho, como num deserto.
Conclusão: quase deixei de apreciar fosse o que fosse. Neuras e mais neuras… quase depressão!



2. Finalmente

O Óscar, pese embora a enfermidade que o despachou para uma baixa, para aturadas análises e rastreios, para médicos e medicamentos, para sofrimentos, para o risco de uma intervenção cirúrgica à coluna, já se encontrava melhor. Disse-nos ele - que estava apto - embora tivesse de ter alguns cuidados.
Com um mar quase sem ondulação e sem vento, a vontade de irmos pescar, era muita! O Forte, porque o seu negócio não incluía peixe...não conseguiu disponibilizar-se. Assim sendo, os quatro (Óscar, Cheta, Malheiro, Borges) estabeleceram, que segunda-feira, dia 16 de Maio, zarpariam da Marina às 07h00. 



3. E “Biba”

Já estávamos em pleno alto mar e porque queríamos ser felizes, saiu-nos em uníssono uma palavra cá das nossas – “Biba”. Foi como um desabafo. Com este grito iniciámos a faina.
Os peixes a princípio, não nos atenderam. Apenas meia dúzia deles sentiram a nossa ânsia. Contudo, com mais uns metros de cabo, sargos, carapaus, fanecas, besugos, choupas, e outros, dispuseram-se…
E assim começou a festa e a alegria, de tão esquecida que estava.



4. O fenómeno Malheiro


Foi a história do dia. Até ao meio dia, o Malheiro não tinha pescado um sargo que fosse, enquanto os restantes somavam e seguiam. Irritado, calava-se…os colegas chingavam…o odor da massa de vitela pairava…o cabaz ia enchendo com os contributos intensos do Borges, do Óscar e do Cheta…
Até que o Malheiro, num assomo de coragem, pediu um “aparelho ao Cheta”. O Borges entregou-lhe a táctica…ele aplicou-a imediatamente na respectiva cana…o Óscar sorria abertamente e o Cheta fazia cara séria.
- Vamos lá ver o que dá, é capaz de ser das calças!


Baldaram-se as previsões negativas acerca da funcionalidade do Malheiro. Ele empenhado, acirrado, deu começo à glória, tendo começado a apanhar sargos a bom ritmo, chegando aos 7 até à hora de almoço. Ou seja, recuperou rapidamente. O Borges abria o espanto, o Óscar ostentava a admiração e o Cheta gabava os seus aparelhos e quanto ao Malheiro…imagine-se, só sorria.


A façanha malheiral desvaneceu-se durante o almoço, às 13h00. A vitela abafou-a.
O Cheta, já em tempo de regresso, comentou com rigor o acontecimento:
- Faz a diferença…anzóis e fios fracos e aparelhos mal conseguidos, não me dizem nada. Há que investir no bom material e saber fazer. Aí está a prova. É ou não é assim companheiro?
O Malheiro sorriu mais uma vez.

Leça, 16 de Maio de 2016
Luís M. Borges

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