Liberdade, igualdade e peixes
1. O Malheiro vendeu o mar
numa panela, sem mesa, com os carapaus, os sargos e os serranos. Foi peixe cozinhado
com desvelo, pimentos e muita cebola, numa caldeirada com ele a fazer de
cozinheiro e nós, os restantes, a pensarmos em meninas de calções curtíssimos,
uma forma de praticar o espanto.
2. Os sábados no mar são dias
diferentes. Sonhamos a semana inteira, como o pó que paira eternamente no ar e
só quando ele pousa no mar indiferente, é que nos realizamos em jeito de
pescadores. Tantas vezes só poeira, mas outras tantas, mesmo sem sol, milhares
de escamas acabam por brilhar a contorcerem-se. Quando assim acontece, abrem-se
os impossíveis e muitos olhares ficam fascinados. Somos nós a bendizer a
dádiva.
3. A faina começou com
anedotas, continuou com enjoo, prosseguiu em "fashion in the boat",
intervalou com cidra e salame, insistiu em carapaus, sargos e um congro,
terminou em distribuição equitativa.
Na Marina, a pressa foi o
resto, mangueirando com esmero e esfregando a sujidade do barco até sair, mesmo
recordando aquele meu peixe-lua, cuja singularidade devolvi ao mar...
Dias assim, entusiasmantes, descompressivos,
nem os gregos, ao votarem na sua condição e destino com "nei", se
sentiriam tão bem. Liberdade, igualdade e peixes. Eis a nossa revolução. Nada
de euros nos olhos e na cabeça, "Merda iminentíssima", como desabafava
HH (já o citei uma vez).
Leça, 04 de Julho de 2015
Luís M. Borges
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