domingo, 12 de julho de 2015

42. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Liberdade, igualdade e peixes


1. O Malheiro vendeu o mar numa panela, sem mesa, com os carapaus, os sargos e os serranos. Foi peixe cozinhado com desvelo, pimentos e muita cebola, numa caldeirada com ele a fazer de cozinheiro e nós, os restantes, a pensarmos em meninas de calções curtíssimos, uma forma de praticar o espanto.



2. Os sábados no mar são dias diferentes. Sonhamos a semana inteira, como o pó que paira eternamente no ar e só quando ele pousa no mar indiferente, é que nos realizamos em jeito de pescadores. Tantas vezes só poeira, mas outras tantas, mesmo sem sol, milhares de escamas acabam por brilhar a contorcerem-se. Quando assim acontece, abrem-se os impossíveis e muitos olhares ficam fascinados. Somos nós a bendizer a dádiva. 
 
3. A faina começou com anedotas, continuou com enjoo, prosseguiu em "fashion in the boat", intervalou com cidra e salame, insistiu em carapaus, sargos e um congro, terminou em distribuição equitativa.

Na Marina, a pressa foi o resto, mangueirando com esmero e esfregando a sujidade do barco até sair, mesmo recordando aquele meu peixe-lua, cuja singularidade devolvi ao mar...


Dias assim, entusiasmantes, descompressivos, nem os gregos, ao votarem na sua condição e destino com "nei", se sentiriam tão bem. Liberdade, igualdade e peixes. Eis a nossa revolução. Nada de euros nos olhos e na cabeça, "Merda iminentíssima", como desabafava HH (já o citei uma vez).


Leça, 04 de Julho de 2015
Luís M. Borges

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