Confiança e erro
1.Como gosto de comer
uma boa sardinha fresca, assada medianamente em fogo lento, acompanhada com
broa de Avintes, uma salada de alface e pimento, um vinho verde tinto e a compor
um caldo verde com a respectiva tora.
Mas já não gosto que
me falte a sardinha para fazer engodo, da congelada, da mais barata, com
certeza da mais gorda, bem chamativa para atrair os peixes.
Aliás o tema sardinha
coloca-se sempre nesta altura, pois já se foi o S. António e virão ainda o S.
João e o S. Pedro. Nunca percebi bem o que terão tido estes santos a ver com a
sardinha. Claro, vão-me responder que é tradição. Pois, mas qual a causa da
tradição? Vão-me responder que em Portugal há muita sardinha e que o povo antigamente
precisava de se empanturrar barato. Pronto. Aceito a origem das coisas e fico
confiante mesmo que esteja tudo errado.
2. Vi milho doce a ser
enfiado no anzol em jeito de experiência. Até achei original. Eu também cheguei
a pescar sargos nos Açores, com peito de galinha, a que acrescentava mel. As
carpas, é que certamente não irão gostar desta concorrência desleal, promovida
pelo Lamas.
3. Fui acusado de ter
errado, pelo Cheta: isco pequeno não dá goraz. Os gorazes são gulosos. O troço
tem de ser avantajado para cativar o vermelhinho da pinta negra.
Lá está, e comigo confiante,
que um isco de tamanho médio serviria. Repito: “Muitas vezes estamos
confiantes, mesmo quando estamos errados”. Na próxima ida aos gorazes, irei botar
um bocadão de sardinha no anzol, para não me ficar pelos carapaus e
cantarilhos. A gente vai aprendendo…
Mas houve remoques
prévios e críticas. Há sempre.
- O Cheta vai a pé
para a Marina, se os rojões não estiverem bons – o Óscar sempre se preocupou
com estes pormenores.
- Faltou aqui o fígado…
- pareceu-me que foi o Malheiro a fazer este reparo.
- Da próxima trarei
mão de vaca com grão-de-bico ou feijão vermelho com chispe… - o Óscar prometeu
e irá cumprir.
5.A pesca foi de salta-pocinhas: apoita aqui, muda para ali, tenta acolá. A primeira foi nos Corais, onde ainda se miraram uns sargos e umas choupas. Despois, perante a apatia do mar e o voar silencioso do mascato, foram-se esfumando visões de arcas cheias.
Às vezes, bailava uma
faneca, mas a valsa interrompia-se logo. Bem se esforçou o Malheiro a pescar na
proa, mas apenas se lhe aproou o feitio…
Até achei, que o
próprio engodo, ajudava a afugentar os peixes!
6.Regressámos, estendidos
no pensamento de uma planície vazia, sobre uma superfície azul rasa.
Na passadeira da
Marina, por entre mangueiradas dirigidas à sujidade do barco, afirmou-se:
- Até Setembro será
sempre assim. O melhor será irmos aos gorazes. Ao menos…pode ser…que…percebem?
Ficámos assim todos
confiantes, mesmo que estivéssemos errados.
Leça, 14 de Junho de 2015
Luís M. Borges
Bibliografia: “Pensar,
depressa e devagar”, Daniel Kahneman